Jeff Lemire recria os caminhos para a redenção em Nada a Perder

Eu já tinha namorado “Nada a Perder” (Nemo) meses atrás, mas, na época, a opção de compra foi para “A Terra dos Filhos”.

E, nos comentários do post que escrevi sobre a HQ de Gipi, um leitor comentou sobre o livro de Jeff Lemire, com elogios que me fizeram voltar à atenção que deixara meses antes.

Li e fiquei impressionado pelo trabalho do autor canadense, responsável pelo texto e ilustrações. É uma obra potente, com camadas que vão se revelando por meio de desenhos, rangidos e olhares que, em alguns momentos, incomodam o leitor — já volto a eles.

No norte do Canadá, num daqueles vilarejos que vivem eternamente com neve, Derek enfrenta a decadência, após ter sido um astro do hóquei. Violento, bêbado, vive no ginásio da cidade, arruma briga com fãs que se mostram arrogantes e sobrevive graças a amigos.

O destino provoca o reencontro com a irmã, e os dois vão recuperar memórias dos pais, uma herança cheia de violência e sofrimento. Lemire constrói esses flashbacks com delicadeza, fazendo com que o leitor se conecte às histórias dos irmãos — uma das cenas mais bonitas é o retorno de Beth a uma cena decisiva para a história, em que o autor contrapões imagens atuais e do passado.

Exilados numa cabana, para cuidar da abstinência de Beth, os irmãos acabam se reconectando também, após um tempo ausentes. Esse reencontro provoca um choque na vida que os dois escolheram até aquele momento, e os olhares que desferem são cheios de sensações que dizem mais do que dezenas de balões. E o trabalho de Lemire para encaixar essas expressões no momento certo da história é de uma precisão e sensibilidade impressionantes.

Lemire aposta nos tons de azuis, para reproduzir a sensação da neve e do frio do norte canadense. Os desenhos, principalmente quando ele abre o horizonte, são capazes de congelar o leitor. Há solidão e silêncio, quebrado apenas pelo ranger das botas na neve. É uma construção que começa contemplativa e avança para o clímax em passos que aceleram sem atropelar a história e os perfis dos personagens e do cenário onde vivem.

O final é arrebatador. Talvez um dos melhores finais de todas as HQs já produzidas — e o exagero pode ser explicado porque escrevo este texto minutos após ter terminado a leitura. Relevem, mas não dá para ignorar a grandeza de “Nada a Perder”. O caminho para a redenção, que antes parecia algo improvável, surge naturalmente, como resultado das contingências que assolam a vida de qualquer um.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s