Caderno de Memórias Coloniais: Isabela Figueiredo entrega livro bruto e necessário

A portuguesa Isabela Figueiredo comete em “Caderno de Memórias Coloniais” (Todavia) uma obra imprescindível para entender o mundo confuso em que sobrevivemos.

Nascida em Moçambique, na época em que o país era colônia de Portugal, a escritora escreve um misto de memória e ensaio para revisitar o seu passado, conectado a uma família de brancos que viviam em um país de negros.

Ela foca na sua relação com o pai, um eletricista deslocado para Lourenço Marques, que se transformaria em Maputo, para trabalhar no país africano. O livro exala o poder branco em Moçambique, minoria que transformava esse número em força psicológica. Isabela era criança, acompanhava o pai em passeios — daí a lembrança afetiva — e sofria em casa com os arroubos racistas.

Isabela relembra como o pai tratava e se relacionava com os negros, seus empregados e moradores da cidade. O racismo era algo indiscutível e inerente, não havia contraponto — uma tensão, sim, exala da visão que ela tinha dos negros, em um momento em que Moçambique estava perto de se tornar independente. Um ataque que ela sofreu, ainda adolescente, é descrito de forma tão brutal como natural para ela, consequência do que estava prestes a acontecer.

Dessa relação com o pai, ora afetuosa, ora envergonhada, constrói-se o livro, uma força que se impõe ao leitor diante de um relato vigoroso, que multiplica lembranças e avaliações do que era aquela época — 1975, ano da retirada de Portugal, ano que marca a saída de Isabela de Moçambique e a volta à Europa.

As primeiras 50 páginas são de leitura vertiginosa, tal o impacto que o leitor recebe de uma escrita tão bruta, sincera e sem freios — como tinha que ser, como a proposta da autora se apresenta.

O que vem a seguir é uma repetição de situações que vai envolvendo a ponto de transformar o que seria um cansaço em um redemoinho: o livro joga o leitor no olho do furacão, e ele, sem força para sair, só pode se entregar às páginas, à narrativa bruta, seca e que promove um acerto de contas.

A edição intercala fotos de Isabela criança e adolescente, uma loira inserida em cenários bucólicos, como a deslocar o norte da narrativa e criar um contraponto chocante. Essas memórias caminham para a volta, o recomeço na metrópole, que não aceita bem nem os retornados nem o fim da colônia. E desse choque saem intervenções que também revelam como Isabela se sentiu raivosa com o que encontrou em Portugal.

No posfácio, Isabela diz que continua a escrever esse livro em tudo o que faz. “O ‘Caderno de Memórias Coloniais’ nunca estará acabado para mim. A minha memória tem um caráter fragmentado, muito sensível aos eventos do cotidiano. Há sempre alguma história que me vem à cabeça e que lamento não ter incluído na narrativa.”

*****

“Quem, numa manhã qualquer, olhou sem filtro, sem defesa ou ataque, os olhos dos negros, enquanto furavam as paredes cruas dos prédios dos brancos, não esquece esse silêncio, esse frio fervente de ódio e miséria suja, dependência e submissão, sobrevivência e conspurcação.

Não havia olhos inocentes.”

“Agradava-me o rapaz, e já tinha percebido que quando um homem e uma mulher gostavam um do outro, nascia uma criança. Se eu estivesse grávida do preto, o meu pai podia matar-me, se quisesse. Podia espancar-me até o aviltamento, até não ter conserto. Podia expulsar-me de casa e eu não seria jamais uma mulher aceite por ninguém. Havia de ser a mulher dos pretos. E eu tinha medo do meu pai. Desse poder absoluto do meu pai.”

“Para os brancos, um preto, lá da primeira plateia, nunca olhava para trás por bons motivos. Ou lançava o amarelo do olho contranatura às brancas, ou procurava o que roubar, ou destilava ódio. De forma geral, , no cinema ou fora dele, o olhar dos negros nunca foi, para os colonos, inocente: olhar um branco, de frente, era provocação; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”

“A minha terra havia de ser uma história, uma língua, um corpo enterrado na esperança, uma ideia miscigenada de qualquer coisa de cultura e memória, um não pertencer a nada nem a ninguém por muito tempo, e ao mesmo tempo poder ser tudo, e de todos, se me quisessem, para que merecesse ser amada.”

“A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos que trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados.”

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