Selva Almada: “Estou viva apenas porque tive mais sorte do que outras”

Andrea Danne foi assassinada com uma punhalada no coração enquanto dormia aos 19 anos — é o que diz a investigação oficial.

Maria Luisa Quevedo foi estuprada, estrangulada e abandonada num terreno qualquer quando tinha 15 anos.

Sarita Mundim permaneceu desaparecida por nove meses até um esqueleto surgir e ser apontado como seu. Tinha 20 anos. Exames mostraram que não era ela, mas nada foi feito.

Esses três casos aconteceram na Argentina, mas poderiam ter acontecido em qualquer cidade do Brasil, do Chile, dos Estados Unidos, da Espanha, Japão, Marrocos e por aí vai.

Selva Almada, escritora argentina, autora de O Vento que Arrasa, reuniu esses três casos, todos eles sem solução, e foi investigar origens e os trabalhos das polícias. Os crimes aconteceram em cidades do interior argentino e por lá ficaram, sem grande alarde e comoção.

Eram os anos 80, e Almada trouxe essas histórias para “Garotas Mortas” (editora Todavia), publicado no exterior em 2014 e somente agora, tardiamente, no Brasil — a extinta Cosac Naify iria editar o livro, mas seu fim interrompeu o processo, retomado pela Todavia.

Almada viaja para encontrar personagens da época dos crimes. Ela conversa com familiares, amigos e pessoas que acompanharam as histórias nos anos 80. Reconstrói os últimos passos dessas garotas, enquanto ela própria enfrenta uma violência que não chega a acontecer, mas permeia toda sua investigação. Um trabalho que ela confessa ser inspirado ao que Truman Capote empregou em “A Sangue Frio”.

A violência contra a mulher respira no livro. Almada descreve com delicadeza as garotas do seu livro, enquanto intercala essas histórias com outras de mulheres violentadas, em um ritmo que emociona e choca.

Selva Almada conversou novamente com o blog para falar desse livro. “A violência de gênero atravessa geografias, classes sociais, níveis de educação”, ela diz, ao se referir à violência que Andrea, Maria e Sarita sofreram.

A escritora argentina Selva Almada, autora de Garotas Mortas

Por que você escreveu esse livro?
Fui questionada por alguns anos sobre a questão da violência contra as mulheres. Lembrei-me desse caso, o feminicídio de Andrea, que ocorreu quando eu era adolescente, e nos últimos tempos essa história voltava toda vez que eu via um novo caso de feminicídio na televisão ou na imprensa. Os casos pareciam aumentar, embora não houvesse estatística naquela época, oito anos atrás. Não sabemos se realmente aumentaram ou se estavam se tornando visíveis. Então, mais ou menos em 2009, a ideia do livro começou a tomar forma: três casos de meninas assassinadas não hoje, mas 30 anos atrás, como uma maneira de dizer que isso acontece há anos, mas só agora começamos perceber.

O material de divulgação compara seu livro a “A Sangue Frio”, de Truman Capote. Como vê essa comparação?
“A Sangue Frio” é um livro que eu gosto muito e, sim, foi uma fonte de inspiração para escrever “Garotas Mortas”. Eu há li muitos anos e reli na hora de escrever meu livro. Embora sejam vozes diferentes, encontrei muita iluminação nessa releitura.

Como manter distância dos fatos que investigou e narrou? Quais foram as questões emocionais que teve que enfrentar durante a apuração?
É difícil manter distância quando se trata de algo que me choca profundamente: mulheres assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Eu acho que não existe tal distância no livro, eu posso ser objetiva quando se trata de transformar minha pesquisa, mas não quando se trata de processar tudo o que eu ouvi e li sobre isso: as vozes das pessoas que as amavam, as vozes das pessoas, juízes, o jornalismo, os relatórios de autópsia. Além de minha pesquisa, uma boa parte do livro fala sobre experiências pessoais, coisas que mulheres próximas a mim me disseram. Há um quadro bastante autobiográfico, mas me pareceu que eu também tinha que colocar o corpo no livro, que não era apenas dizer o que aconteceu com outras mulheres, mas também o que aconteceu comigo. Foi como declarar: acontece com todas nós, em maior ou menor grau. Estou viva apenas porque tive mais sorte do que outras.

Quatro anos depois do lançamento original do livro, como estão os casos narrados? Houve algum avanço na investigação?
Não, os casos que eu peguei no livro já estavam fechados quando eu comecei minha pesquisa. Lamentavelmente, eles não foram reabertos nem surgiram novas pistas que levassem a uma nova investigação. A impunidade é o denominador comum das três histórias e é bastante comum na Argentina nesse tipo de caso.

Mudou alguma coisa na Argentina em relação à violência contra a mulher nesses quatro anos? Como você avalia a situação atual da mulher na sociedade argentina?
Sim, o cenário mudou muito, felizmente. Um ano após a publicação do livro, aconteceu a primeira marcha de Ni Una Menos, justamente por causa do feminicídio de uma menina de 14 anos que estava grávida. Todas as mulheres do país saíram às ruas para pedir justiça. Começamos a falar abertamente sobre o assunto, a perceber que todas nós já tivemos alguma coisa ligada a algum tipo de violência porque é parte de nossa cultura e de nossa sociedade. Não é algo que acontece com algumas delas porque são pobres ou porque moram em tal lugar ou porque não têm acesso à educação. A violência de gênero atravessa geografias, classes sociais, níveis de educação. Todas nós começamos a nos sentir desafiadas, a pensar sobre o assunto. O movimento feminista cresceu impressionantemente na Argentina nos últimos quatro anos e isso é maravilhoso. O trabalho apenas começou e levará anos e anos para desmantelar o aparato misógino.

Você se concentrou em três crimes, mas cita outros ao longo do texto. Eu imagino que vários outros foram deixados de fora. Como você conseguiu colocar um limite na sua apuração? E quais foram as dificuldades de parar e não procurar mais casos de violência?
Eu precisava fazer um corte. Pensei em casos que não eram conhecidos, que não transcendiam os lugares em que eles aconteceram, em que as vítimas eram meninas muito jovens e da mesma época em que o crime de Andrea aconteceu, que foi o que conheci de perto. Por isso, me limitei aos anos 80. Também porque eu era adolescente naquela época, assim como elas. Embora eu não as tivesse conhecido, posso imaginar como elas eram, como tinham sido educadas, que ideia de ser mulher era transmitida naqueles anos, porque eu havia sido educada dessa maneira. Você sempre tem que fazer um corte e esse corte sempre pode ser arbitrário, mas eu fiz o melhor que pude.

Esse livro e o mergulho nesse tema influenciaram você de alguma forma em seus trabalhos seguintes?
Não no sentido de continuar escrevendo sobre o assunto. Ou seja, eu escrevo muito sobre o assunto nas redes sociais, mas não é que eu pense em escrever histórias ou romances que tenham a ver diretamente com esses tópicos. Eu escrevi uma história a convite, para um livro que vai tratar de masculinidades e feminilidades no século 21. Mas eu acredito que este livro [Garotas Mortas] reafirmou uma militância, me reafirmou no feminismo e isso parece maravilhoso para mim.

Você está interessada em escrever mais não-ficção? Como você avalia essa experiência?
Eu realmente gosto de não ficção. No ano passado, eu escrevi um pequeno livro sobre rodar um filme. Gostei de encontrar uma maneira diferente de “Garotas Mortas” uma narradora em terceira pessoa, textos muito curtos, impressões do que eu tinha visto e ouvido naquelas semanas. Espero continuar escrevendo não ficção, é um gênero que eu realmente gosto.

Quais autoras latino-americanas você destaca que precisam ser lidas?
Felizmente, há muitas e muitas que eu não li ainda. Recomendo vivamente Sara Gallardo, Alfonsina Storni, Gabriela Cabezón Câmara e Estela Figueroa, da Argentina. E de outros países da América Latina eu gosto muito de Liliana Colanzi (Bolívia), Alejandra Costamagna (Chile) e Ana Paula Maia. Há escritoras muito interessantes que gradualmente ganham visibilidade e leitores.

*****

“Eu tinha treze anos e, naquela manhã, a notícia da garota morta me chegou como uma revelação. Minha casa, a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Você podia ser morta dentro de sua própria casa. O horror podia viver sob o mesmo teto.”

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