Notas de um Leitor — edição 7

Dois modos de fazer jornalismo

Nana Queiroz constrói em Presos que Menstruam (Record) uma teia muito bem construída de depoimentos, memórias, realidade e reportagem. A jornalista mergulhou nas cadeias femininas para entender como as mulheres são afetadas e o motivo pelo qual tantas estão lá e sofrem. Anterior ao badalado “Prisioneiras”, de Drauzio Varella, seu livro é superior e um bom exemplo de reportagem.

Já Cristina Tardáguila segue o esquema de Daniela Arbex (“Cova 132” e “Todo Dia a Mesma Noite”) e Renata Cafardo (“O Roubo do Enem”): sua vida pessoal e suas emoções saltam do texto como a importunar o leitor. É uma pena, pois A Arte do Descaso (Intrínseca) tinha potencial para ser um grande livro.

Nana Queiroz mantém uma distância segura de suas personagens e da sua apuração. Suas intervenções são mínimas. Já Tardáguila vibra, fica irritada, emite opinião e se assemelha a Arbex, que sai pulando na Redação do jornal, e Cafardo, que gasta um tempo para contar como sua avó demonstra preocupação pela jornalista. A reportagem fica encharcada de itens pessoais. Transforma-se num diário.

No caso do livro de Tardáguila, é de se lamentar essa opção. Ela investiga o roubo no Museu da Chácara do Céu, um casarão em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde estavam peças de Picasso, Dalí, Matisse e Monet.

Cometido no primeiro dia de Carnaval, o roubo, uma ação amadora que contou com a também amadora segurança da instalação, nunca foi solucionado. E isso incomodou a jornalista, que resolveu se dedicar à reconstrução dos fatos. Conversou com os administradores do museu, investigadores e especialistas internacionais em roubos de arte.

Tinha todos os elementos à mão. Mas contaminou o texto com intervenções como estas: “Fiquei contente”, “Fiquei aborrecida”. Excessos de primeira pessoas (eu perguntei, eu fui, eu ouvi) cansa o leitor, que sente vontade de dizer: “Já entendi, é você que está apurando e investigando, agora conta a história, por favor”.

Já Nana dá espaço para descrições e intervenções das mulheres, sem se meter na história, como se o livro fosse narrado em terceira pessoa. O texto desce limpo. Como todo jornalismo deveria ser.

Leitura em 5 Linhas

Terra Roxa (ComArte, enviado ao blog pelo autor) é daqueles exemplos de que a literatura brasileira tem novos autores que estão produzindo com qualidade. Rodrigo Maceira é um deles, e a ele se junta Fillipe Mauro, jornalista e tradutor que lança seu primeiro livro. São sete contos que têm o interior do Paraná como pano de fundo. É um Brasil rural, dos anos 60/70, que encontrou voz nesta nova narrativa. Os contos carregam vigor e originalidade. A ser acompanhado.

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Já escrevi em outros textos que sou fã de Dennis Lehane, principalmente quando os livros não são da dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Sagrado (Companhia das Letras) é das raras exceções. O livro entrega o que o escritor tem de melhor: tramas bem costurados, ambientes perturbadores e suspense. Aqui, um milionário contrata a dupla para investigar o paradeiro da filha. Eles vão se deparar com seitas, tráfico de drogas e outros sumiços.

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Timothy Snyder é professor de Yale, historiador que alcançou o sucesso quando postou um comentário no Facebook após a eleição de Trump. Ele escreveu Sobre a Tirania (Companhia das Letras), em que reúne 20 lições do século 20. São exemplos que tratam de regimes opressivos, liberdade de imprensa e de pensamento, ética e sociabilização. Se o ponto de partida foi o resultado das eleições dos EUA, o livro cabe perfeitamente para esta metade final de 2018 no Brasil.

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O Estado Islâmico, quando surgiu, alarmou o mundo inteiro com suas execuções cruéis transmitidas em vídeo. Ninguém entendia como aquele grupo agia, e suas motivações eram tocadas na base de muita violência. Pois Graeme Wood, em A Guerra do Fim dos Tempos (Companhia das Letras), mostra como EI foi criado e se disseminou. Misto de reportagem e ensaio escrito no calor, mas que é esclarecedor.

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Depois que li “As Brasas“, demorei um pouco para começar outra leitura tal o impacto daquela obra de Sándor Márai. E não retornei ao autor até o recente Jogo de Cena em Bolzano (Companhia das Letras): Casanova foge da prisão em Veneza e vai reaparecer em outra cidade. Lá, se reencontra com seu passado, tal qual em “As Brasas”. Márai não entrega seu melhor e o romance divaga sem rumo. Vai precisar de um retorno em algum momento.

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Confesso que não entendi o culto a Johnny Vai À Guerra (Biblioteca Azul), de Dalton Trumbo. Se ousa ao fazer um romance sem vírgulas, reproduzindo os pensamentos de Johnny, sobrevivente de guerra, em que ritmos e profundidade se alternam, Trumbo fica preso à experiência narrativa. A prosa é impactante, pois leva o leitor à força ao centro de Johnny, seja ele turvo ou límpido, mas ao final resta somente isso, a sensação de ter enfrentado um temporal.

Cobiça

De Sam Shepard, só tinha lido seu “Cruzando o Paraíso”, coletânea de contos publicada pela Mandarim. Mas isso já faz uns bons 20 anos, e a memória não alcança o que foi aquela leitura.

Logo após sua morte, em 2017, foi anunciado o lançamento do romance Aqui de Dentro, pela Estação Liberdade. Namorei o livro, cheguei a ler alguns trechos, mas não comprei. Pois um texto publicado na edição de maio da QuatroCincoUm me convenceu a ir atrás.

Assim como também entra na lista o livro que reúne as novelas Infância, Juventude e Adolescência, de Tolstói, da Todavia.

Alta Fidelidade

Ian McEwan foi uma das minhas obsessões lá pelos anos 2000-2005. Li muita coisa dele, uma atrás da outra, como mencionei no texto sobre Philip Roth.

Se Roth foi uma “mania espaçada”, lido ao longo dos anos, McEwan foi daqueles autores que lia emendando um livro atrás do outro. E, dessas lembranças, ficou uma lacuna: nunca li “O Jardim de Cimento”, um dos seus mais famosos livros — ao mesmo tempo, passei por “Sábado” e não me entusiasmei.

Ao passar por essas memórias, fiz instintivamente uma lista do que, para mim, é o seu melhor. Além disso, serve para aproveitar o relançamento de “A Criança no Tempo”, agora, pela Companhia das Letras, que está na minha lista.

  • Ao Deus Dará
  • Amsterdam
  • Amor Sem Fim
  • Reparação
  • A Criança no Tempo

Uma abertura

“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: ‘Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado’.

Penso com frequência nessa imagem que sou a única ainda a ver e que nunca mencionei a ninguém. Ela continua lá, no mesmo silêncio, fascinante. Entre todas as imagens de mim mesma, é a que me agrada, nela me reconheço, com ela me encanto.”

(“O Amante”, de Margarite Duras)

*****

As edições anteriores da coluna estão aqui.

A coluna era para ser uma solução em um momento em que não via saída para manter o blog vivo. Ao chegar à edição 7, infelizmente, vou ter que rever essa escolha.

O formato me permitia tratar de vários assuntos e concentrar todos em um único texto. Mas exige um tempo e uma dedicação impossíveis de encontrar agora. Por isso, tenho que interromper a coluna.

O blog continua. Talvez até com mais frequência. Os posts voltam ao formato natural, algo factível neste momento. Lamento essa constante troca de linha editorial, mas a vida nos exige ser líquidos. Melhor assim, creio, do que encerrar de vez o blog.

Então, em frente, pois tem muita coisa boa a sair. Em breve, publico entrevista com a escritora argentina Selva Almada, que teve seu “Garotas Mortas” editado no Brasil.

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2 comentários em “Notas de um Leitor — edição 7

  1. Um comentário por partes:

    1 – Uma pena que as Notas de um Leitor vão acabar, embora entenda que seja um formato complicado de manter.
    2 – Depois de As Brasas, fui direto procurar outros livros de Márai, esperando algo do mesmo nível. Li na sequência Libertação e De Verdade e ambos deixaram um travo de decepção após a leitura. Quase sempre acontece quando lemos a obra-prima de um autor antes dos seus outros livros.
    3 – Johnny Vai À Guerra é um livraço na minha opinião. Não esqueço daquele final em que, depois de conseguir se comunicar, ele é posto de novo na solidão. O horror, o horror.
    4 – Dos livros de McEwan que você elencou como preferidos só não li justamente o primeiro, que nem conhecia. Fiquei curioso. Amsterdam eu acho o mais fraco dele, entre os já lidos, o que evidencia nossas diferentes percepções da obra do autor. Sábado eu gosto muito, e incluiria na minha lista A Balada de Adam Henry.
    5 – A abertura de O Amante é maravilhosa, mas o final é o que mais me encanta.
    6 – Keep writing. Seja qual for o formato, o Capítulo Dois é leitura obrigatória.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu até gostaria de manter as Notas, mas elas exigem uma atenção que não tenho como dar agora. Quem sabe surge alguma edição extra por aí. Sim, o blog continua. Nem passou, desta vez, em parar.
      Ian McEwan: teve uma época em que li quase tudo o que tinha disponível. Eram edições da Rocco, capas horríveis. E fiquei na dúvida em colocar Adam Henry. Saiu na última hora.

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