Patricio Pron: “Os países não são feitos para nos satisfazer”

“O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva” (Todavia) é uma pequena joia que mostra como a literatura latino-americana contemporânea está atuante na busca de entender o passado ditatorial. Não são poucos os exemplos, e o argentino Patricio Pron se insere na lista com vigor.

Lista que inclui os brasileiros Julián Fuks, B. Kucinski e Milton Hatoum e o chileno Alejandro Zambra, entre outros. Neste romance, espécie de autoficção com ensaio histórico, Pron encarna o que o conterrâneo Rodolfo Walsh, autor do clássico jornalístico “Operação Massacre”, tinha de melhor: capacidade narrativa e inventiva.

Acrescento na lista de comparações a chilena Lina Meruane, autora de “Sangue nos Olhos”, que, dos Estados Unidos, volta a Santiago e reativa memórias da época de Pinochet, mais pelas consequências do que por fatos do passado.

Assim como o autor, o narrador no livro de Pron mora em Madri quando recebe um telefonema da irmã, pedindo para que ele volte à Argentina para acompanhar os últimos dias do pai, doente e internado em um hospital.

Contrariado, ele entra no avião e começa a rememorar a história familiar. Já em casa, depois de conferir a memorabilia, encontra caixas com guardados do seu pai. Ao fuçar o conteúdo, vasculha recortes de jornais antigos, que noticiavam o desaparecimento de um homem.

O narrador então entra na viagem de reconstruir a história por meio desse baú. E encontra um passado que desembarca na ditadura militar, quando descobre que a irmã daquele homem foi assassinada pelo regime militar.

Com uma força criativa imensa, Pron republica trechos da imprensa da época — não sem antes promover uma crítica ao estilo e erros das reportagens —, imprimindo ao leitor a sensação de participar da investigação ao seu lado.

Livro jovem (de 2011, mas só agora publicado no Brasil), mas já essencial, “O Espírito dos Meus Pais” precisa ser lido. Urgentemente. Ainda mais em um país que descobre que generais autorizaram o assassinato de opositores.

Pron conversou com o blog. A entrevista vai a seguir.

O escritor argentino Patricio Pron | Foto: Raúl Doblado

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Como é morar há mais de 20 anos fora da Argentina e ter que voltar a ela por meio do seu personagem?
Nunca é possível voltar completamente, embora seja possível voltar com livros, mesmo com romances como “O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva”, que problematiza a possibilidade de um retorno que não é mediado pela memória ou devido às dificuldades que apresenta.

Que Argentina você encontrou e qual gostaria de ter encontrado?
Nas vezes em que voltei à Argentina desde que parti, há quase 20 anos, encontrei notícias ótimas e terríveis. Eu acho que a mesma coisa poderia ser dita por quem deixou a Itália durante esse período de tempo e retornou ou tentou retornar: os países não são feitos para nos satisfazer, e a presunção de uma certa unidade de idioma e território, a velha idéia de país também não é muito satisfatória.

Seu livro recebeu comparações com o trabalho de Julián Fuks e Alejandro Zambra. Você vê semelhanças com eles e seus livros?
Eu vejo algumas semelhanças superficiais, sim. Mas o que mais me interessa na relação estabelecida pelos meus livros com os de Julián Fuks e Alejandro Zambra são as diferenças profundas que existem entre um e o outro: principalmente diferenças estéticas e, portanto, políticas.

Eu quero destacar uma semelhança com uma escritora chilena, ainda não colocada na lista: Lina Meruane. Seu “Sangue nos Olhos” também passa por uma volta para casa, mas por motivos diferentes. Conhece o trabalho dela?
Eu conheço o trabalho de Lina Meruane, do qual eu prefiro “Cercada y Volverse Palestina”. As semelhanças entre “Sangue nos Olho” e meu livro são óbvias, mas também suas diferenças: no livro de Meruane, há uma voz mais típica da prosa poética do que aquela que narra “O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva”. E o livro dela pressupõe uma comunidade, também um casal, que contrasta com a experiência de solidão e negação do meu livro.

Em um trecho, você escreve que “um sobrevivente é a pessoa mais solitária do mundo”. Como é sobreviver fora da Argentina?
Não é muito diferente de fazer isso em qualquer outro lugar: de certo modo, somos todos sobreviventes.

Você escreve que procurar é um destino de todos os argentinos. O que você está procurando?
Ah, eu sempre procuro por algo que não esteja localizado no passado, mas na iminência.

Seu livro insere elementos jornalísticos para contextualizar a história que o protagonista descobriu quando voltou para a Argentina. Como chegou a esse formato? Por que a opção pelo jornalismo?
Os fragmentos de entrevistas e artigos de jornal que aparecem em meu livro têm, por um lado, uma textualidade que acho interessante, às vezes falha, mas sempre útil para pensar em como narramos o presente. Por outro lado, sua aparição no livro tem como objetivo problematizar a distinção usual entre os discursos de verdade e os discursos ficcionais. Finalmente, trata-se de pensar, como na epígrafe de César Aira, uma literatura que funciona primeiro como um documento e depois transcende esse uso.

Nesses recortes de notícias, há uma crítica implícita ao texto original. Erros de gramática e coerência são pontuados pelo narrador. Como você avalia a imprensa argentina hoje?
A imprensa argentina está imersa em uma crise de resultados, mas também, e especialmente, de propósito, natureza e significado. Isso não difere muito do resto da imprensa ocidental, que está dividida entre a visão que tem de si mesma e de seus leitores, entre a manipulação voluntária e involuntária, entre sua contribuição para a discussão pública e seu status como empresa. Muito do destino de nossa democracia depende, também, de como a imprensa lida com essa crise.

Escrever autoficção é o melhor caminho para refletir sobre a Argentina e o passado ditatorial?
Talvez. Basicamente, eu acho que nenhum gênero pode ser julgado de maneira absoluta, mas em termos do que é feito com ele: se serve ao autor e aos seus leitores para dialogar, qualquer gênero é “o melhor” disponível.

Por que é espantoso que um escritor argentino esteja vivo, como diz o narrador? E onde você se encaixa na tradição literária do seu país?
O narrador diz isso para se referir a um escritor argentino que está “vivo”, nesse caso, o autor de “Sobre Heróis e Tumbas” [Ernesto Sabato]. Em relação ao meu encaixe à tradição literária argentina, e independentemente do que meus livros digam sobre isso, acho que posso dizer que, como autor, eu pertenço à longa e bem sucedida tradição de escritores argentinos que escreveram literatura argentina fora da Argentina. Por razões diferentes, em muitos casos políticos, não temos sido poucos escritores argentinos que viveram ou vivem fora de nosso país de origem, mas talvez tenham sido um pouco menos os autores que, como eu, se inscrevem no quadro dessa tradição nacional sem ignorar os estímulos de outras tradições, inclusive a do lugar em que nos encontramos.

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“Enquanto eu tentava deixar para trás as fotografias que tinha acabado de ver, compreendi pela primeira vez que todos nós, filhos dos jovens da década de 1970, teríamos que desvendar o passado de nossos pais como se fôssemos detetives, e que nossas descobertas seriam parecidas demais com um romance policial que preferiríamos nunca ter comprado, mas também percebi que não  havia forma de contar a história deles à maneira do gênero policial ou, para ser mais preciso, que contá-la dessa maneira seria trair suas intenções e suas lutas, já que narrar a história deles como se fosse uma história de detetive apenas contribuiria para ratificar a existência de um sistema de gêneros, ou seja, de uma convenção, e que isso seria trair seus esforços, que tentaram desafiar essas convenções, tanto as convenções sociais como seus pálidos reflexos na literatura.”

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