Ana Paula Maia: “Todos os meus livros são brutos”

Dos sete livros já lançados por Ana Paula Maia, li cinco deles. Mas não foi uma leitura espalhada desde sua estreia, em 2003, até seu último romance, lançado neste 2018.

Em menos de 15 dias, li cinco livros de Ana Paula Maia. Um atrás do outro, sem parar.

Sua literatura é potente, crua, concisa. Não há espaço para digressões ou jogos intelectuais — mas essa simplicidade embarca uma profundidade que certamente 90% dos autores brasileiros contemporâneos gostariam de ter.

Aos 40 anos, ela deveria ser lida, falada, debatida e disputada a tapas pelas feiras, festivais e que tais. Caminha relativamente à margem, infelizmente.

Só homens e muitos animais

Seus livros não têm mulheres — quando surgem, são nas vozes dos personagens masculinos. As tramas não se ambientam em zonas urbanas. Estamos naquele parte do mapa denominada Brasil profundo, muitas vezes parecida com o sertão.

Seus homens são frutos da vida que lhes é oferecida. Cruéis, na maior parte das vezes, sem delicadeza. Há espaço para atos heróicos e de bondade, entretanto.

Ana Paula Maia joga em todos os seus livros um elemento extra, que ajuda a permear as narrativas: os animais. Porcos, cachorros, javalis e abutres se fazem presentes nos livros, como personagens secundários, em que os protagonistas se apoiam para conduzir suas vidas.

Em entrevista ao blog, ela diz que suas inspirações vêm de Dostoiévski e Nelson Rodrigues.

Os 5 livros

Comecei por Assim na Terra como Embaixo da Terra (2017, Record), o primeiro e o seu melhor. Poderia ser uma ficção distópica, mas se passa em algum lugar do sertão brasileiro, com ares de faroeste.

Uma colônia penal vive seus últimos dias, abandonada e com poucos prisioneiros. O diretor mantém um jogo cruel. Ele libera um detento para fugir, mas vai à caça dele. Nunca ninguém conseguiu escapar desse massacre, um abate que obriga os próprios presos a enterrar as vítimas no local, que fora uma fazenda de escravos.

Até que um novo prisioneiro chega para modificar a já frágil estrutura.

Passei em seguida a Enterre Seus Mortos (Companhia das Letras), livro encomendado pela editora. Aqui, Edgar Wilson, personagem recorrente da autora, é responsável por recolher animais mortos abandonados em estradas e levá-los para um moedor. Até que encontra um corpo humano. Sem saber o que fazer, esconde num freezer. A burocracia o impede de dar uma solução, até o momento em que se depara com um segundo corpo. Ao seu lado, está Tomás, padre excomungado e que vive a dar a extrema-unção. Cada um vai cuidar do que está mais próximo (corpo e alma) na tentativa de dar um fim aos mortos. Aqui, Ana Paula avança nos seus temas para entregar uma obra mais madura. Abre espaço para um próximo livro.

Então, comecei a ler por ordem cronológica. “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos” (2009, Record), “Carvão Animal” (2011, Record) e “De Gados e Homens” (2013, Record), que formam a trilogia Saga dos Brutos.

Aqui, estamos diante da Ana Paula Maia mais bruta, crua, sangrenta. O livro de 2009 é dividido em dois contos. No que dá nome à obra, Edgar Wilson e Gerson trabalham num abatedouro de porcos e apostam rinhas de cachorros. Cumprem suas tarefas sob um calor insuportável, mas levam a vida como leveza. Nesse contraste, a escritora consegue inserir seus elementos e tratar da vida como um elemento banal.

“O Trabalho Sujo dos Outros”, o segundo conto, carrega um tanto de ironia em meio ao caos que homens comuns que executam trabalhos sujos e desprezíveis podem provocar. Erasmo Wagner recolhe lixo, Alandelon quebra asfalto enquanto fica surdo e Edivardes desentope esgotos. No momento em que deixam de fazer seus trabalhos, a cidade é obrigada a conviver com a podridão que emerge.

Carvão Animal é uma mistura de personagens que são obrigados a trabalhar em funções duras e acabam incorporando esses elementos ao seus caráteres. É inevitável. E Ana Paula Maia consegue extrair dessa situação limite um retrato que evita julgamentos e heroísmos.

De Gados e Homens recupera Edgar Wilson, numa história que se passa dois anos depois de “Carvão Animal”. Ele trabalha num matadouro de gado e tenta ser o mais justo e delicado possível com os animais, que, mortos, vão se transformar em hambúrgueres. A morte de animais sem motivos desperta num sentimento de proteção em Wilson, o que vai levá-lo a questionamentos que se chocam com suas atividades.

Da bibliografia, faltam “A Guerra dos Bastardos” (2007, Língua Geral) e “O Habitante das Falhas Subterrâneas” (2003, 7Letras).

A seguir, a entrevista que Ana Paula Maia deu ao blog.

*****

“As dores dos meus personagens estão no fígado”

Seus livros não indicam os lugares onde estão ambientados. Por que preferiu esse anonimato? E se fosse possível localizar os locais retratados nos seus livros, onde seriam?
Gosto da liberdade de criar a geografia mais adequada à história. São muitas as possibilidades de onde as histórias se passariam. Não saberia dizer.

Suas tramas não são necessariamente urbanas. O que a levou a se distanciar das cidades e da violência urbana?
Gosto do campo quando escrevo. De cidades pequenas também. Costumo se distanciar da minha rotina de cidade grande na escrita.

Carvão Animal se passa antes dos fatos narrados em duas novelas, Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos e O Trabalho Sujo dos Outros. Mas foi lançado depois. Você sentiu necessidade de construir seus personagens do início, de dar um nascimento a eles?
Não. Eu escrevo desse jeito mesmo… avançando e recuando no tempo. Tudo faz parte de uma imensa história. Cada livro é um pedaço dessa história maior que vai se construindo.

Em seus livros, os animais são praticamente personagens sem voz, mas marcantes e participantes. Porcos, javalis, cachorros, abutres, bois permeiam as histórias, como determinantes para comportamentos dos homens. Por que construiu histórias em torno dos animais?
Eu construo histórias em torno dos homens e os animais estão sempre próximos. Ainda mais quando se está no campo. Foi um processo natural fazer eles surgirem com força nos livros. O convívio com os animais é natural, mas nem sempre damos importância a eles.

Não há maldade pura em seus personagens. Pode-se dizer que eles, em algum momento, praticam algum ato de maldade, mas isso não faz parte do caráter deles, tanto que alguns, como Edgar Wilson, justificam um assassinato, tentando levar para um bom motivo — maus-tratos aos animais. Você concorda?
Dentro do universo em que se passa as histórias, existem comportamentos que se justificam. Edgar Wilson mata por diversos motivos. Às vezes, por motivos aparentemente nobres, às vezes não. Ele é um personagem de ficção, que nos espelha em alguns momentos.

Onde estão as dores dos seus personagens?
No fígado.

Em Assim na Terra como Embaixo na Terra, a história lembra ficções distópicas, que tratam do fim do mundo. Uma colônia esquecida no fim do mundo, com regras próprias e um tirano. Entretanto, você imprimiu um tom realista e atual. Como essa história surgiu para você? E como foi a construção do romance?
Eu queria escrever uma ficção sobre o sistema carcerário. Mas que tivesse relação com meus livros. Nada melhor que uma colônia penal, porque é no campo. Tudo tem um jeito de faroeste. O que reflete bem meus personagens e a ambientação da história.

Na novela Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, é possível perceber um certo humor (leve, bem inserido), em cenas inusitadas — como na descoberta do que é feito de um rim. Mas essa característica se perde nos livros seguintes. O que a levou a se distanciar do humor?
Depende muito da história. Em todos os livros, têm humor negro. Mas em doses menores. Seja num breve diálogo, seja numa descrição, porém, são a trama e a atmosfera que ditam essas inserções de humor.

Você já disse que seus livros se passam nos anos 80/90. É possível imaginar Edgar Wilson — ou outro dos seus personagens recorrentes — neste Brasil atual? 
Não imagino eles no Brasil atual. Porém, sim, eles poderiam viver neste Brasil atual. E se vivessem, seriam exatamente como são.

Você lançou seus dois últimos livros em um espaço curto. São livros que avançam no estudo da natureza dos homens, da violência inerente e adquirida dos ambientes. Como essa questão reflete em você? Como foi produzir tanto e algo tão intenso em pouco tempo?
Foram dois livros publicados em 10 meses. Escrevi um livro seguido do outro. Difícil. É um esforço emocional grande. Ninguém imagina no que você está afundada no período de desenvolvimento de algo tão brutal. Mas fiquei satisfeita com o resultado. Todos os meus livros são assim: brutos. Todos os meus livros têm por base essa investigação e especulação sobre a natureza da maldade. É um tema duro, mas que me fascina, pois tenho horror da maldade. Nem todos escrevem sobre aquilo que lhes agrada. Escrevo sobre algo que me incomoda.

*****

“As especulações em todo da Colônia são muitas. Tudo o que se sabe é que o lugar sempre esteve envolto em mistério de desaparecimento em massa e assassinatos. Há mais de cem anos, quando os escravos que aqui viviam eram, em sua maioria, torturados e mortos, era conhecido como Calvário Negro. Décadas depois da libertação dos escravos, um silêncio retumbante tomou conta da fazenda, que permaneceu abandonada por muitos anos. Até que um homem chamado Eustáquio comprou a propriedade e se mudou com a família. Nos primeiros meses, houve abundância e tranquilidade, porém, quando os cavalos começaram a cair doentes e o gado a definhar, os problemas realmente começaram.”

(“Assim na Terra como Embaixo da Terra”)

“O imenso moedor está triturando animais mortos recolhidos nas estradas. Tanto o barulho do motor quanto o dos ossos sendo esmagados ricocheteiam nas paredes altas do galpão. A mistura de som e fedor enfurece os sentidos. Edgar Wilson deixa o carrinho no lugar delimitado por um retângulo pintado no chão e sobe os degraus de uma escadinha de alumínio que dá acesso à caçamba do moedor, de onde é possível ver o lado de dentro.

— Consegue ver o que é? — grita um funcionário, afastando o protetor auditivo.
— Não estou vendo nada — grita de volta Edgar Wilson.
— Desde cedo tá assim… agarrando
— Mas não estou vendo nada. Desliga.

O homem faz um gesto de derrota e, consternado, vai até a manivela de segurança e a puxa com força. A frenagem ríspida provoca um cheiro de queimado nas engrenagens.”

(“Enterre seus Mortos”)

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