Notas de um Leitor — edição 6

“O ódio pelas mulheres chega a lugares profundos e inacreditáveis”

Conheci Paloma Franca Amorim quando li um post do editor Haroldo Ceravolo no Facebook, indignado pelo fato de a escritora não ter sido convidada para participar da Feira Pan Amazônica do Livro.

Escrevi sobre isso na edição 4. Pois, ao fim da leitura de Eu Preferia Ter Perdido um Olho (Alameda), resta a sensação de que todas as feiras, festas literárias, bienais e afins perdem ao não chamar Paloma Franca Amorim.

O livro é uma reunião de crônicas que ela publicou no jornal paraense “O Liberal”, mas quem lê fica com a sensação de que está diante de um livro de contos. De tal forma tecidos que a leveza de uma crônica se impregna da complexidade de um gênero mais elaborado e longo, ainda que cada texto se restrinja ao espaço limitador de um jornal.

Há a mulher violentada, memórias, descrições de atos banais do cotidiano, observações, posicionamentos políticos. Há uma vida que pulsa e que precisa ser lida.

Paloma Franca Amorim conversou com o blog.

Entrevistei o Edyr Augusto e ele disse que percebe um preconceito contra o que é escrito no Norte. Você nota isso? Para você, mulher e nortista, o preconceito é duplo?
É certo que sim, eu como mulher, afroindígena, lésbica, nortista, não posso escolher minhas opressões, elas estão interseccionadas. Mas não me gasto muito com isso, em saber quem sofre mais exclusão ou quem sofre menos do ponto de vista individual. Acho que é importante perceber esses marcadores da diferença no mercado editorial e na vida política para que possamos nos articular como categoria, como uma expressão coletiva, plural, do discurso literário brasileiro.

Onde está o problema? Mídia, editoras, leitores?
Está na história da literatura brasileira atrelada ao contexto colonial que nos sustenta. Essa é a minha avaliação, talvez soe um pouco genérica pela dimensão histórica e cultural ampla que tento abarcar, mas percebo sempre um viés colonialista que determina os valores literários a partir de uma canonização dos discursos eurocêntricos, masculinos, brancos, sudestinos — todas essas variantes, na maioria das vezes, se concentram na mesma meia dúzia de autores nacionais visibilizados pelas grandes editoras nas vitrines das livrarias, nos festivais literários e premiações. Como escritora amazônida, portanto, eu permaneço ocupando um lugar sociológico de preterimento, exploração e espólio que a todo custo me impõe, além de uma subalternização linguística, temática, política e afetiva a qual me recuso a aceitar, refletindo talvez, metaforicamente, a resistência do povo da minha região.

Como romper essa barreira?
Produzindo, ocupando os espaços que nos foram negados, debatendo e lançando muitos pés nas portas. A pauta étnica/racial não pode ser secundarizada em nenhuma ordem de discussão sobre a cultura brasileira. Quando dizem que estamos sendo identitaristas, nos jogam para um escanteio pérfido, chamando-nos de pós-modernos, mas como nós pessoas negras e indígenas podemos ser pós-modernas, tomando por pressuposto que a pós-modernidade compreende sobretudo o agenciamento do mundo e da história pelas vias do sujeito e da subjetividade, se nós mal nos tornamos sujeitos e muito pouco tivemos reconhecida a nossa subjetividade do ponto de vista político e estético? Durante muito tempo fomos objeto, agora nos tornamos sujeitos. Querem dizer que, ao nos tornarmos sujeitos, estamos automaticamente enveredando para a posição de pós-sujeitos? É muito desvio teórico para o meu gosto, soa até desonesto do ponto de vista intelectual e político.  A pauta étnica/racial deve ser prioridade porque ela articula também uma pauta de classe que é fundamental para começarmos a reconhecer a diversidade linguística, experiencial e, portanto, literária no país. 

O que falta para a produção do Norte ser lida e mais divulgada no restante do país?
Abertura de mercado, ampliação dos espaços de circulação de literaturas decoloniais, desatreladas de grandes projetos editoriais e — mais que tudo — valorização política das vozes dos povos originários e periféricos que substanciam nossas narrativas literárias, ainda que isso seja muito pouco falado pelos próprios autores do Norte. Grande parte de nosso discurso orienta-se antes de tudo pela oralidade ameríndia, cabocla e das populações à margem do centro já há tanto infiltrado pelo pensamento sudestino. Esse encontro de epistemologias torna a literatura paraense, amazônica mais interessante esteticamente, mas é necessário que se reconheça de onde vêm as referências míticas, religiosas, eróticas, sociais de nossos discursos.

Seu livro abre com um texto autobiográfico, forte e revelador. Por que optou por colocar esse texto na abertura?
Para mim, ele é um texto como todos os outros, nunca achei que fosse mais impactante do que os que vêm em seguida. Eu me distancio dessa maneira do tema do estupro porque acho que já é uma crônica que não fala mais de minha experiência pessoal e sim de um problema estrutural da sociedade brasileira, latino-americana e global. O ódio pelas mulheres chega a lugares profundos e inacreditáveis, de modo que é mesmo chocante quando nos deparamos com escritos — ou produtos estéticos de toda ordem — que escancaram essa realidade enfiada perversamente para debaixo dos tapetes dos bons núcleos familiares. Esses tapetes são a própria bandeira brasileira com seus hipócritas dizeres de ordem e progresso que apenas escondem o verdadeiro massacre promovido contra as mulheres e contra as pessoas negras e pobres desse país. Conversando com meu editor, o Haroldo Ceravolo, decidimos juntos porque o texto parecia ser importante naquele momento de lançamento do livro em que tanto se falava sobre a questão dos estupros de moças pobres nas favelas e de menores de idade. Foi uma intuição política e estética.

Ao eliminar as datas de publicação, você também elimina a linha do tempo dos seus textos. O que te levou a trabalhar na organização dessa forma?
Acho que tem a ver com um pressuposto que tento buscar no meu exercício como escritora, falar de tempo histórico sem necessariamente datar meus textos. Esse primeiro livro foi todo produzido a partir da reunião de crônicas que escrevi para o jornal O Liberal — que me censurou recentemente depois de 12 anos de casa — e minha vontade de suprimir as datas se deu muito porque eu queria brincar com essa perspectiva de fragmentação da memória ou do ato memorial como um gesto criativo — não tem início e nem fim, só acontecimentos que furam as temporalidades e nos produzem a sensação de estar em vários lugares do passado, presente e futuro, no mesmo momento. Acho que apagar as datas foi, então, um experimento menos técnico e mais estético mesmo. 

Suas crônicas podem ser classificadas como contos. Como é o seu processo de concepção de cada texto? Qual o peso dos fatos nas suas ideias?
Peso os fatos o tempo todo, como disparadores do movimento criativo. Por isso, sou muito observadora da rua, dos acontecimentos, da maneira de agir e pensar das pessoas. Sobre os gêneros, acho que é confuso mesmo, minha textualidade confunde o leitor porque não se faz nem puramente conto e nem puramente crônica. Meu editor inclusive costuma dizer que meu livro é um romance episódico. Acho bom, acho que a gente precisa esfumaçar um pouco mais esses limites de categorização para poder experimentar outras formas poéticas. Minha criação se dá muito a partir dessa tentativa ensaística de transitar entre os estilos, os gêneros, os territórios múltiplos da linguagem.

A escritora e cronista Paloma Franco Amorim

A arte do engodo 1: Daniela Arbex

A jornalista começou sua carreira muito bem, com Holocausto Brasileiro (Geração Editorial), sobre o manicômio instalado em Barbacena (MG). Tinha problemas, mas conseguia se sustentar com certo vigor.

E as qualidades do primeiro livro deram lugar a mais problemas no lançamento seguinte, Cova 312 (Geração Editorial). Ficamos à mercê da jornalista serelepe, egocêntrica e que consegue embaralhar uma história fantástica (destino desconhecido de vítimas da ditadura militar).

Pois agora Arbex avançou em Todo Dia a Mesma Noite (Intrínseca), reportagem sobre o incêndio que destruiu a boate Kiss, em Santa Maria, e matou 242 jovens.

Agora, sai a jornalista autocelebratória e entra a repórter típica de peças da Globo: pronta para fazer o leitor chorar, por meio de uma condução manipuladora de entrevistas e construção de texto.

A história já é emocionante, não havia necessidade de uma jornalista conduzir o leitor com mão pesada pelo labirinto de memórias, reconstruções, brigas jurídicas e depoimentos.

O que aconteceu em Santa Maria merece ser contado, precisa ser contado. Mas o livro que vai fazer esse registro de forma digna ainda não apareceu.

A jornalista Daniela Arbex com seu novo livro | Foto: Fernando Priamo/Tribuna de Minas

A arte do engodo 2: Geovani Martins

Logo na edição 2 desta coluna, escrevi que, se havia um livro que não gostaria de ler, esse título era O Sol na Cabeça (Companhia das Letras), de Geovani Martins. Tratado como “fenômeno literário”, ganhou elogios de gente como Chico Buarque.

O autor carioca, novato, já vem galgando espaço no meio literário brasileiro com tal batizado. É convidado para feiras, debates, entrevistas. Ganha cada vez mais elogios, mas tudo parece tão artificial, tão falso — com exceção de dois ou três críticos insuspeitos — que cai no risível.

No Brasil, isso significa aceitação.

Bem, caiu na minha mão uma versão em e-book do livro de Martins. E respirei fundo e fui ler. Não consegui passar da metade do livro. Enfadonho, o livro abusa de lugares comuns em seus 13 contos.

Não vi uma centelha de criatividade, de abuso, de fuga dos estereótipos — pelo contrário, li uma exploração mal construída de personagens típicos da favela. Argumentam que ele dá voz a uma realidade que grita para ser ouvida. Pode ser. Pode ser que ele faça essa ponte, que ele retrate e questione. Mas falta o talento literário do qual tanto se fala.

Por exemplo, o conto de abertura, “Rolézim”, em que Martins reproduz a forma como as pessoas realmente falam (com gírias, erros de português, como no trecho abaixo), saudado como a melhor coisa do mundo, é chato, chato, chato. Só isso.

“Chegamo na praia com o sol estalando, várias novinha pegando uma cor com a rabeta pro alto, mó lazer. Saí voado pra água, mandando vários mergulho neurótico, furando as onda. A água tava gostosinha. Nem acreditei quando voltei e vi o bonde todo com mó cara de cu.”

Vai vender muito. Vai ser traduzido. Ele vai participar de feiras, festas e bienais. Vai ser convidado a opinar sobre quase tudo. É formulaico. E assim avançamos.

O escritor carioca Geovani Martins | Foto: Zo Guimarães/Folhapress

Leitura em 5 Linhas

Nunca imaginei que um livro sobre falcoaria pudesse me interessar. Mas F de Falcão (Intrínseca), da jornalista Helen Macdonald, não só me interessou como me fez devorar suas páginas. Tal como um Melville descrevendo a arte de caçar baleias, Macdonald trata da criação de falcões para falar da recente morte do pai. E nesse ponto o livro se abre como um belíssimo retrato memorialístico. ♦♦♦♦♦ Muitos classificam Fome como grito de liberdade feminista. Roxane Gay, escritora norte-americana, escreve sobre seu corpo, mas também sobre violência contra as mulheres, machismo, gordofobia, traumas e o fato de que o corpo é dela, ponto. As descrições do estupro que sofreu e como ela reagiu — e vem reagindo — a ele são brutais na carga que trazem. Imprescindível.

Cobiça

E o épico de Paul Auster chega ao Brasil. “4, 3, 2, 1”, com suas mais de 800 páginas a incríveis e impraticáveis R$ 89,90, é o mais desafiador livro do escritor, um dos meus favoritos. A pré-venda estava prevista para começar agora no começo de junho. Da Companhia das Letras.

E a Grua reedita a novela Benito Cereno, de Herman Melville. A última edição, até onde sei, era de 1993, na tradução de Daniel Piza para a Imago. A editora promete o livro a partir de 5 de junho.

Leituras e outras indicações

On-line 1: este texto relaciona as letras de Van Morrison com a literatura, além de suas influências

On-line 2: no Brain Pickings, da Maria Popova, uma análise sobre Albert Camus e seu papel como voz de resistência; em particular, os ensaios do livro “Resistence, Rebellion, and Death”

On-line 3: na bissexta Calle 2 (infelizmente), Guilherme Henrique escreve sobre Sergio Pitol e a briga por sua obra

On-line 4: na Libretea, a biblioteca do El País, o escritor argentino César Aira diz quais são suas 12 obras essenciais

Na TV: O episódio final de The Americans é daquelas peças que ficam na memória como se tivesse sido gravado a ferro. Um fim que ficou do tamanho das seis temporadas de uma das grandes séries já produzidas. Trama: um casal de espiões soviéticos vive uma vida pacata em Washington, com dois filhos, enquanto precisa resolver missões encomendadas por Moscou. Sim, estamos em meados dos 1980, antes de Gorbatchov. Os dois foram treinados para serem frios e suportarem qualquer tipo de missão. Nos Estados Unidos, precisam lidar com a vida capitalista. E mais. Com afetos, amizades, lembranças, memórias do pós-guerra, filhos adolescentes e uma Central que não poupa recursos para resolver o problema da Guerra Fria. A trilha sonora é coisa fina. O roteiro é preciso, esperto. A série começa com uma pegada de mais ação. Depois, evolui para ser mais cerebral, até chegar a uma conclusão que entra para a história.

Matthew Rhys e Keri Russell no episódio final de The Americans

Nos alto-falantes: descobri The National em 2008, quando eles vieram para o extinto Tim Festival. A banda tinha acabado de lançar Boxer. Baixei tudo o que havia disponível e ouvia seguidamente. Na época, morava em São Paulo, e lembro de fazer longas caminhadas, num frio cortante, com a discografia correndo no iPod. O show foi no parque do Ibirapuera, uma das coisas mais impactantes — a sensação foi física, e lembro de encharcar os olhos ao final da apresentação. Aos dez anos do seu melhor disco, The National lança Live in Brussels, o show em que a banda toca o álbum inteiro. Confesso que tive a mesma sensação daquele show no parque. Fiz uma playlist no Spotify, que ainda não tem o disco ao vivo completo.

Na cabeceira

Ivone Benedetti, autora de Cabo de Guerra, diz o que está lendo:

Alma, de J.M.G. Le Clézio

Alta Fidelidade

Não podia ser outro: o top 5 desta edição é de Philip Roth, morte em 22 de maio. Escrevi sobre sobre minha trajetória como leitor de seus livros logo após a notícia.

Aqui, sem ordem de preferência, os cinco livros preferidos de Roth.

  • O Teatro de Sabbath
  • Pastoral Americana
  • Patrimônio
  • Marca Humana
  • Animal Agonizante

Uma abertura

“Fazia onze anos que eu não ia a Nova York. Com exceção da viagem a Boston para remover uma próstata cancerosa, eu passara aqueles onze anos sem sair de casa numa estrada rural nos montes Berkshire, e além disso pouco lia jornal ou ouvia noticiário, desde o 11 de setembro, três anos antes; sem nenhuma sensação de perda — apenas, no início, uma espécie de ressecamento interior —, eu deixara de habitar não apenas o mundo maior mas também o momento presente. O impulso de estar nele e fazer parte dele, eu já havia matado muito antes.”

(“Fantasma Sai de Cena”, de Philip Roth)

*****

As edições anteriores da coluna estão aqui. A próxima sai no dia 16 de junho. Até lá!

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4 comentários em “Notas de um Leitor — edição 6

  1. Ricardo Ballarine, seu blog é sensacional, como já lhe disse outra vez. Esse novo formato, que (confesso) no início pensei não ser a melhor escolha, deixa uma sensação de “não pare – por favor”. Parabéns pela franqueza e, de certa forma, coragem, pela reflexão sobre “O Sol na cabeça”. É certo que todo livro merece um prestígio. No mínimo podemos considerar que não é uma tarefa fácil. Acredito até que os livros comerciais muitas vezes tem o condão de iniciar novos leitores no prazer pela literatura. Iniciam pelos comerciais e depois aprendem o que é bom de verdade. Por exemplo, um dos melhores livro que já li, “Gado Novo”, de Guille Tomazi, circula apenas na cena underground… Mas é isso aí: ao menos podemos escolher o que será lido por nós mesmos! rsrsrs

    Curtido por 1 pessoa

    1. Opa, Bruno, que ótimo comentário. É legal ler sobre as reações em relação ao formato. Eu também desconfiei (e ainda desconfio) da escolha, mas era a possível naquele momento. Até agora, quem se manifestou mostrou que aprovou. Então, vou mantendo. E é isso mesmo. Tem gente que adorou de verdade o livro do Geovani, gente com distância do hype. Claro que é minha opinião, e é ótimo haver discordância. E encontrei gente que discordou e concordou comigo, mas o que mais importa é que todos os diálogos foram civilizados. E não conheço Gado Novo, vou procurar para dar uma olhada. Grande abraço!

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