O adeus de um leitor a Philip Roth

Li Philip Roth pela primeira vez em 1994 ou 1995, não vou conseguir precisar a data. O amigo Paulo Sales, na época companheiro de sala de aula na Cásper Líbero, chegava todas as noites falando de “O Teatro de Sabbath”, o que me obrigou a comprar o livro.

Foi o contato inicial com a obra do escritor, morto neste 22 de maio, aos 85 anos. Era a edição da capa vermelho, que já não possuo mais, após tantas e tantas mudanças — se bem que esse exemplar foi emprestado, acho, mas não importa.

O fato é que em algum momento recente tive que entrar em uma livraria e comprar a nova edição da Companhia das Letras, capa preta. Não podia continuar sem ter “O Teatro de Sabbath” na estante, ao lado de mais uma dezena e pouco de seus livros, praticamente toda sua bibliografia lançada em português.

Essa relação com Roth começou em meados de 1990 e avançou. Os livros seguintes foram “Operação Shylock” e “O Complexo de Portnoy”, que tinham uma luva de plástico transparente. Leituras complexas, que bagunçaram a cabeça na época. Tanto que anos depois tive que voltar a “Portnoy”, leitura que se revelou um fracasso e, depois, um deleite.

Sem a urgência de um Ian McEwan, escritor que fez parte das minhas obsessões há quase 20 anos e do qual lia um livro atrás do outro, Roth foi se construindo aos poucos para mim. Era um escritor que não me deixava em paz a cada livro percorrido, e isso me provocava a colocar um intervalo a cada encerramento.

Foi o que aconteceu com “Patrimônio”, certamente um dos três melhores livros de Roth, na minha opinião. Presente de uma amiga secreta, na época de Redação, foi o que gerou o maior impacto. Na lista de sugestões, escrevi “qualquer livro do Philip Roth”, exceção feita aos “Sabbath”, Shylock” e “Portnoy”.

Ganhei “Patrimônio”, na edição da Siliciano, capa amarela, tradução razoável. E, tal como “Sabbath”, ele se foi, até chegar novamente em nova roupagem aqui em casa.

Foi “Patrimônio” que provocou o maior intervalo. O que Roth escreveu sobre a relação com seu pai me atingiu de forma especial, escapar daquela brutalidade crua era uma ação praticamente impossível.

Vamos em frente.

Se algum livro pode completar a lista dos três maiores de Roth, esse é “Pastoral Americana”. Escolhi a primeira parte da trilogia sobre os Estados Unidos para ler em umas férias. Lembro de passagens vivamente, ainda depois de alguns bons anos, das descrições e diálogos que Roth imprimiu.

O que eu chamo de Fase BH se encerrou com a segunda parte da trilogia, “Casei com um Comunista”, livro que não me entusiasmou muito, mas que foi encharcado por sensações externas que me impediram de absorvê-lo. Devo a ele um retorno.

Roth enfrentou um longo hiato, talvez uns três anos em que eu fiquei longe de seus livros. Nada pensado, nada induzido. Passava longe dos nichos reservados à letra R nas livrarias, lia resenhas sobre novos livros lançados no Brasil e nada me levava a voltar a ler o escritor.

Claro que esta narrativa tem lapsos e talvez não encontre âncora na realidade nem absoluta certeza dos fatos, mas o que me levou de volta a Roth foi “Patrimônio”, já em nova edição.

A partir daí, alternei períodos de leituras compulsivas, livro atrás de livro, com outros em que houve um descanso de sua prosa. Vieram antigos e novos: “Animal Agonizante”, “Entre Nós”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “Homem Comum”, “Complô contra a América”, “A Marca Humana” e “Nêmesis”.

Sim, é preciso listar seus livros. Fossem 50, me sentiria na obrigação de colocá-los um após o outro. Ainda falta outro tanto de livros para ler, um dever que tenho a Roth, que me acompanhou e me amparou em vários momentos, cuja obra se ombreia com várias etapas da minha vida.

Claro, este não é um texto crítico, analítico, nem um obituário clássico — você já deve ter lido tudo isso em outros lugares, muito mais qualificados. Escrevo apenas uma memória, várias memórias que Roth provoca neste momento em que surge a despedida.

É minha trajetória como leitor, como pessoa, que me força a escrever um texto simples, mas que se revela como a única forma de homenagear Roth.

Talvez não a única. Na noite de 23 de maio, o dia em que a notícia da morte de Roth correu, abri “Roth Libertado”, o estudo das tramas e dos personagens do escritor escrito por Claudia Roth Pierpont.

Ao relatar estas pobres memórias e uni-las à leitura de um livro sobre Roth, quem sabe consiga prestar a homenagem justa a ele.

Termino da forma como começou.

“Ou você abre mão de trepar com as outras ou o nosso caso está encerrado.

Esse foi o ultimato, o ultimato enlouquecedoramente inverossímil, totalmente imprevisto, que a mulher de cinquenta e dois anos apresentou, chorando, ao seu amante de sessenta e quatro anos, no aniversário de um relacionamento que persistira com uma surpreendente licenciosidade — e esse, de forma não menos surpreendente, era o segredo deles — durante treze anos. Mas agora, com o refluxo das infusões hormonais, com a próstata inchando e, na certa, com apenas uns poucos anos de potência mais ou menos segura para ele — e com o resto de vida que talvez não fosse muito além disso —, aqui, ao se aproximar do final de tudo, ele, sob pena de perdê-la, se viu compelido a fazer das tripas coração.”

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4 comentários em “O adeus de um leitor a Philip Roth

  1. Engraçado, não lembrava de ter sido eu quem te apresentou a Roth. Sabbath realmente me impressionou na época e quero voltar a ele. Foi John, nosso colega de faculdade, quem me apresentou a ele, e entre ontem e hoje trocamos inúmeras impressões sobre Roth. Ele está no meu panteão e comungamos da paixão por Patrimônio, para mim o seu melhor livro, seguido de Pastoral e A Marca Humana. Não li todos os que você citou e pretendo fazê-lo. Bom saber que ao longo desses anos todos conseguimos compartilhar nossas leituras e fazer um intercâmbio muito rico.

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    1. Sim, lembro de você chegando à noite e falando do livro, como também de Virgens Suicidas. Sabbath acabou se transformando num dos meus favoritos, ao lado de Patrimônio e Pastoral Americana. Mais um que se vai

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