Notas de um Leitor — edição 5

Sai uma nova livraria on-line. Toda dedicada ao independente

Comprar livros pela internet é algo tão intrínseco à rede que é possível dizer que, se esse tipo de venda não existisse desde aquele fim dos anos 90, a Amazon não seria a potência que é hoje.

Ser uma livraria e não vender digitalmente, diriam os gurus dos negócios, equivaleria à morte. Mas uma livraria brasileira está fazendo um caminho diferente. Com três lojas físicas (duas no Rio e uma em São Paulo), a Blooks não tem um site de comércio eletrônico. Algo que parece ser impensável e deveria constar em todo plano de negócios de qualquer livraria que existe ou pretenda existir.

A Blooks aposta em outro mercado. Em vez de criar um loja virtual para competir com gigantes como Amazon e Saraiva, a livraria resolveu seguir o caminho dos independentes e criou a IndieBlooks.

“Ser independente não tem a ver com o tamanho. Passa pelo modelo de negócio e pela linha editorial.” Assim Elisa Ventura, proprietária da rede Blooks define independente, seja editora ou autor.

A ideia é reproduzir a experiência que o leitor encontra nas lojas físicas no espaço virtual. “Quando se fala em curadoria, você pode pensar na Blooks. Só que nunca fizemos uma curadoria massiva”, diz a livreira.

Elisa Ventura conversou com o blog sobre esse novo negócio da Blooks.

Livro sempre foi um dos alicerces do comércio eletrônico. Mas a Blooks não tinha uma loja virtual até então. Por que a opção por uma que só venda independentes?
A Blooks sempre quis estar perto dos leitores. Nosso trabalho sempre foi para aquela pessoa que entra na livraria e pergunta por um livro, pede uma dica, procura algo e muitas vezes ainda não sabe exatamente o que é. Estamos ali para ouvir, conversar e chegar, junto a ela, ao livro certo. Por isso, nunca entramos no comércio on-line antes. Existem os grandes players do mercado, que fazem um trabalho excelente. Não precisamos competir com eles. A IndieBlooks é a maneira que encontramos de dar um passo além no virtual, que sempre foi um terreno bem conhecido, sem perder esse foco, essa proximidade com um leitor muito especial. O leitor que procura algo novo, diferente. Então, nossa curadoria para o site é uma extensão do trabalho da livraria física.

Há uma preocupação com as editoras?
A loja é também uma maneira de se aproximar ainda mais das pequenas editoras, dos selos que muitas vezes são quase artesanais, e dar saída ao trabalho dessa turma. São editoras e autores que estão fazendo um trabalho muito rico, dinâmico, que injeta oxigênio no mercado editorial, colabora grandemente para a renovação da base de leitores e está muitas vezes à frente do seu tempo, lançando tendências e inventando jeitos novos de produzir livros.

As notícias do mercado de livrarias e livros não são exatamente boas. A Saraiva vive constantemente em crise. A Cultura muda política de vendas com as editoras enquanto tenta sanar prejuízo. Índices de leitura são baixos entre os brasileiros. Como a IndieBlooks se encaixa nesse cenário?
A gente está de olho nas más notícias, mas não podemos nos guiar somente por elas. Podemos ficar falando em crise por horas. Sobreviver? Crescer? Hoje, nos interessa cada vez mais fazer aquilo que sabemos fazer. E que gostamos de fazer. E a gente quer, acima de tudo, enfrentar a crise criando leitores. Quando você fala em baixos índices de leitura, pensamos nisso o tempo todo, mas não como uma fatalidade, mas como um desafio. Nosso trabalho é despertar nas pessoas o desejo de ler. Livro não é um produto. Livro é parte da gente e a leitura é um exercício de cidadania. Por isso, falamos o tempo todo em estar junto.

A Amazon mudou a história das livrarias no Brasil? E o modelo independente pode ser uma concorrência real, já que não há compras de grandes lotes?
Algo do tamanho da Amazon tem sempre um impacto enorme, mas também obriga todo mundo a se mexer. Sacode a poeira. O que há de oportunidade nisso? É nisso que a gente tem que ficar ligado, nas oportunidades que surgem em meio às grandes transformações. E não pensamos em concorrência, pensamos em fazer nosso trabalho da melhor forma possível e sermos reconhecidos nisso. Você pode comprar o que quiser na Amazon e continuar sendo um cliente Blooks, porque a Blooks é uma experiência. Entrar nas nossas lojas, acessar a IndieBlooks ou nossas redes sociais é uma experiência, que está para além da venda. E é assim que queremos formar leitores. Sendo não um ponto de venda, mas um espaço criativo, de transformação. A pessoa entra na Blooks e sabe que sai com muito mais que um livro nas mãos.

Quem é o leitor da Blooks e, agora, da IndieBlooks? O que ele procura?
A Blooks guarda ainda em seu perfil o modelo de livraria de bairro. O leitor da Blooks gosta de vir na livraria, conversar com o livreiro. Ele quer sentir que a livraria pensa nele. Queremos, na IndieBlooks, passar a mesma experiência de quem frequenta nossas lojas, o mesmo cuidado, a mesma atenção. Operar numa escala menor nos permite isso. E mais, o nosso leitor acha a leitura uma coisa importante e, a seu modo, batalha por ela. Ele está fora da caixa e procura a diversidade. Ele quer o novo. Claro que ele consome os grandes selos, mas ele busca uma leitura mais próxima a ele. A literatura independente traz esse viés, essa proximidade.

A Blooks pretende lançar uma loja virtual tradicional, com as grandes editoras?
Hoje, estamos pensando na IndieBlooks. O que posso dizer é: fique de olho na Blooks porque estamos sempre inventando. Foi assim que abrimos lojas quando ninguém estava abrindo, foi assim que criamos a revista “Blooks”. Agora, além da IndieBlooks, migramos o nosso site para o Medium e estamos renovando essa experiência, num novo espaço para nosso conteúdo. Então, a resposta para sua pergunta não é sim nem não. A resposta é: vamos te surpreender.

Elisa Ventura
Elisa Ventura, proprietária da Blooks, em uma das unidades da sua rede de livrarias

O pai que tenta salvar o filho, no olhar de Kucinski

B. Kucinski começou a publicar tardiamente, depois de seus 70 anos, mas vem construindo uma bibliografia sólida e regular. “K.” e “Você Vai Voltar Para Mim” acertam as contas com o passado, a ditadura militar. Depois, ele tropeça com um policial fraco, “Alice”.

Depois, com “Os Visitantes”, reencontra o vigor criativo, ao discutir a reação a seus livros por meio de um escritor recluso. Agora, deixa o passado para trás.

Em “Pretérito Imperfeito” (Companhia das Letras), um pai se vê entregue às tentativas de salvar o filho viciado — maconha, anfetaminas, crack. Em um texto conciso, sem espaço para digressões, o escritor revê, por meio das andanças do filho, sua relação familiar — há espaço para a mãe se manifestar também, uma voz mais otimista em meio a uma narrativa dura.

O filho é adotado, e isso provoca dores e reflexões em todos os envolvidos. Entre a procura e a desistência, o pai cava a memória para entender o que levou o filho àquele momento.

Kucinski se mantém fiel ao seu estilo, cru e impactante. E isso não é ruim. Pelo contrário.

Tom Wolfe, 1930-2018

O jornalista era chamado de Balzac da Park Avenue, pois unia o realismo francês à sofisticação da avenida nova-iorquina. Morto neste 15 de maio, Tom Wolfe representou uma revolução que fez bem não só ao jornalismo como também ao romance.

Ao lado de Gay Talese, talvez ele tenha sido o grande nome do Novo Jornalismo. E não só por ter escrito o manifesto que esquematizou o gênero, mas por ter produzido obras que traduziram a teoria e ampliou as possibilidades do jornalista — e do romancista.

Já não era mais necessário se ater aos fatos. Pelo contrário. O jornalista tinha que mergulhar na alma da sua história, ir a fundo no personagem, descrever cenas, reconstruir diálogos, se posicionar como observador invisível. Como disse Truman Capote, contemporâneo de Wolfe, era o momento do romance de não ficção.

Ficcionistas, por sua vez, adotaram técnicas jornalísticas para pensar e escrever seus romances — é o que faz, por exemplo, o francês Emmanuel Carrère.

Escrevi para o blog do BRIO um texto que avança sobre Wolfe, além de selecionar os livros que merecem ser lidos. A produção mais recente já não estava à altura do que ele produziu nos anos 60/70. Se for para escolher dois livros, fique com “Radical Chique & O Novo Jornalismo” (Companhia das Letras) e “Os Eleitos” (Rocco).

Tom Wolfe, morto aos 88 anos | Foto: Ángel Franco/The New York Times

Leituras em 5 Linhas

Li uma resenha na Folha sobre Shirley Jackson, autora que, confesso, não conhecia. Me interessei pelo seu universo que mistura suspense com terror e fui ler o que seria o melhor livro dela: A Assombração da Casa da Colina (Francisco Alves). Lembrou muito “Não Sobrou Ninguém”, de Agatha Christie. Mas tem suas qualidades. É envolvente, bem construído e com personagens marcantes ♦♦♦♦♦ De Dennis Lehane, sempre gostei mais dos livros que não trazem a dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, como “Paciente 67” e “Como Meninos e Lobos”. A Entrega é dessa linhagem, ambientado nas ruas de Boston, onde o autor se sente confortável. Este é daqueles livros que se lê em uma boa noite de insônia.

Cobiça

Gosto muito da literatura de Juan Pablo Villalobos. E, depois da trilogia mexicana (recomendo os três: “Festa no Covil”, “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” e “Te Vendo um Cachorro”), ele lança “Ninguém Precisa Acreditar em Mim”, ambientado em Barcelona. A Companhia das Letras deve publicar em junho.

Estou de olho, ainda, em “Também os Homens Brancos Sabem Dançar”, do angolano Kalaf Epalanga. Esse já está à venda, publicado pela Todavia.

Leituras e outras indicações

On-line 1: Tiago Ferro escreve sobre o romance “Recusa do Não-Lugar” (Ubu), de Juliano Garcia Pessanha, na peixe-elétrico.

On-line 2: A SP Review publicou trecho de livro inédito de Elvira Vigna.

On-line 3: Ainda na SP Review, 15 ideias de como Hilda Hilst via Deus e o sagrado.

On-line 4: No Vitralizado, entrevista com Charles Burns, autor das HQs “Sem Volta” e “Black Hole”.

On-line 5: Na Zenda, uma análise sobre “O Adversário”, de Emmanuel Carrère, e “A Sangue Frio”, de Truman Capote.

Na TV: A série Startup estava no radar fazia tempo. Até que encontrei um texto de Isabela Boscov e me senti obrigado a assisti-la. É daquelas que seguram o coitado do espectador na poltrona/sofá/onde-estiver-assistindo sem piscar. A trama se passa em Miami e une tribos que seriam mais facilmente encontradas em Los Angeles: techies e gangues. Uma jovem filha de cubanos criou uma criptomoeda e tenta vender a ideia a investidores do centro financeiro da cidade, sem sucesso. A ela, juntam-se personagens fortes e tão envolventes quanto: um agente do FBI corrupto, um playboy do mercado financeiro e um haitiano líder de uma gangue. A essa mistura ainda se juntam outras figuras marcantes, que permeiam os episódios. Roteiro muito bem escrito, com reviravoltas que encantam sem forçar a relação com quem assiste. Assista, por favor.

O trio de “Startup”: Edi Gathegi, Adam Brody e Otamara Marrero

Nos alto-falantes: Lloyd Cole foi um dos meus ídolos nos anos 80, na época em que The Cure, The Smiths, Jesus & Mary Chain, New Order, Joy Division e Echo & the Bunnymen dominavam os ouvidos. Esse septeto foi fundamental para tudo o que fui ouvir dali em diante. Cole, com a banda The Commotions, lançou “Rattlesnakes”, obra-prima daqueles tempos. Hoje, está em carreira solo. Lloyd Cole faz shows e regularmente solta obras inéditas e gravações ao vivo, sempre ele e seu violão. Tenho uma pequena coleção, e a ela se juntou “My Austere Demeanor”, o terceiro volume da série Folksinger. Pode até parecer que o repertório é o mesmo (e é), mas cada gravação é tão diferente que parece composição nova. E continua a emocionar. Criei uma playlist no Spotify com 19 canções — pena que o app não tenha os volumes independentes.

Na cabeceira

Sérgio Rodrigues, autor de “O Drible” e “Elza, A Garota”, diz o que está lendo:

“Acabo de ler um clássico policial europeu que não conhecia, e que há muito anda ausente do mercado brasileiro: o suíço Friedrich Dürrenmatt, com “A Promessa” (The pledge, pois li em inglês). Um livro enxuto e perturbador, magistral. Comecei agora a biografia de Carolina de Jesus escrita por Tom Farias [Carolina — Uma Biografia, da editora Malê].”

Alta Fidelidade

Li muito Italo Calvino em um determinado momento da minha vida. Comecei pelos seus romances, depois, descobri os ensaios. É um autor que me acompanhou e me ajudou, e por ele tenho imenso carinho.

Já não lembro mais quando foi a última vez que li um livro do italiano — regularmente, sempre volto a “Por Que Ler os Clássicos”, mas seus livros na estante já foram todos lidos e não comprei mais nada dele.

Então, promovo o top 5 de Calvino, por ordem de preferência — é preciso respeitar Nick Hornby.

  1. As Cidades Invisíveis
  2. O Barão nas Árvores
  3. Por Que Ler os Clássicos
  4. Visconde Partido ao Meio
  5. Amores Difíceis

Uma abertura

“Foi em 15 de junho de 1767 que Cosme Chuvasco de Rondô, meu irmão, sentou-se conosco pela última vez. Lembro como se fosse hoje. Estávamos na sala de jantar da nossa vila de Penúmbria, as janelas enquadravam  as densas ramagens do grande carvalho ílez do parque. Era meio-dia e, segundo antiga tradição, a família ia para a mesa naquele horário, embora já predominasse entre os nobres a moda, importada da pouco madrugadora corte da França, de almoçar no meio da tarde. Recordo que soprava vento do mar e mexiam-se as folhas. Cosme disse: “Já falei que não quero e não quero!”, e afastou o prato de escargots. Nunca tínhamos visto desobediência tão grave.”

(“O Barão nas Árvores”, de Italo Calvino)

*****

As edições anteriores da coluna estão aqui. A próxima sai no dia 2 de junho. Até lá!

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2 comentários em “Notas de um Leitor — edição 5

  1. “Os romances de Patrick Melrose” do Edward St. Aubyn viraram série.

    protagonizado pelo Benedict Cumberbatch – quem mais poderia ser?

    já está nas melhores casas de downloads ilegais do pedaço, afinal não é pra isso que serve a internet?

    assista.

    abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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