Notas de um Leitor — edição 4

“O caso Elza é uma tragédia brasileira que passa por cima e por baixo das ideologias”

Sérgio Rodrigues tem um encontro com o escritor de uma década atrás. O romance histórico “Elza, A Garota” vai ser relançado pela Companhia das Letras.

Publicado pela primeira vez em 2008, o livro chega em nova roupagem, com capa que remete à estética soviética — como comentei na edição anterior destas Notas de um Leitor.

O livro traz o subtítulo “A História Da Jovem Comunista Que O Partido Matou”. Elza tinha 16 anos quando foi morta, em 1936. Seu assassinato foi encomendado pelo Partido Comunista, que acreditava em traição da jovem. Rodrigues une pesquisa, trabalho jornalístico e de ficcionista para recriar essa história.

O relançamento está em pré-venda — na Saraiva, disponível a partir de 14/5; na Amazon, de 24/5. Não há mudança em relação ao texto original nem acréscimo de material de apoio, como prefácio, posfácio ou fortuna. “É muito cedo para dar ao livro esse tratamento solene de clássico. A ideia era apenas repor em circulação, em edição de qualidade e com uma capa linda de morrer, uma história sensacional que não merece ser esquecida”, diz Rodrigues.

O escritor conversou com o blog sobre esse relançamento.

Como você avalia “Elza” depois de dez anos da primeira publicação? Como é rever seu livro após esse tempo?
O período não é tão longo assim para proporcionar distanciamento histórico. O prazer de reencontrar o livro vem da possibilidade de levá-lo a mais leitores, agora com mais profissionalismo e numa casa editorial de primeira linha. A editora de origem (Nova Fronteira), de memória gloriosa, passou por problemas sérios nesses últimos tempos, e de alguns anos para cá “Elza” desapareceu por completo das livrarias, mesmo tendo vendido muito bem na época do lançamento. O que espelha de forma curiosa o destino da personagem: incrível como a sina dessa menina parece ser desaparecer.

Você escreveu no Facebook que o romance deve conversar mais com o Brasil de hoje do que com o de 2008. Por quê?
Quando lancei o livro, me preparei para uma reação forte de setores menos arejados da esquerda, gente que não se conformaria de ver exposto aquele que é provavelmente o maior erro da esquerda brasileira em todos os tempos. Essa reação não veio, ou veio de forma desprezível. Em geral, prevaleceu o debate civilizado. É evidente a qualquer leitor de boa fé que o livro não toma o partido da direita, que também sai mal da história. O caso Elza é uma tragédia brasileira que passa por cima e por baixo das ideologias. Hoje, com a polarização exacerbada, imagino que a civilidade da conversa fique comprometida. E por isso mesmo o recado do livro é mais importante do que era então.

Por que Elza foi condenada ao silêncio?
No caso da esquerda, por apagamento stalinista da sua memória. Nos arquivos públicos, há muitas pastas com o nome dela que foram criminosamente esvaziadas, mencionar Elza virou tabu. No caso da direita, por absoluta falta de credibilidade, por ter inventado tanta mentira — na época ainda não se falava em fake news, mas era bem isso — sobre aquele momento histórico, sobre a Intentona, que lançou a história da Elza numa geleia geral de descrédito.

O que esse olhar para trás revela para o romancista?
A conversa da ficção com a história sempre me interessou, embora nunca a tenha encarado de forma tão frontal quanto em “Elza”, que tem dois polos bem demarcados, o ensaio histórico e a ficção, e usa a tensão entre eles como motor da narrativa. Com certeza, há muitas outras formas de conceber a ficção, mas a que me interessa mais tem a ver com sua capacidade de iluminar desvãos da história, preencher lacunas, dar sentido ao material caótico e desorganizado do mundo. Acho que no fundo todos os meus livros se preocupam em responder, de alguma forma, àquela pergunta tão clássica e tão atual: que raio de país é este?

O escritor Sérgio Rodrigues
O escritor Sérgio Rodrigues, que relança “Elza” | Foto: Bel Pedrosa

Um samurai que se transforma em explorador

O autor japonês Shusaku Endo é um carpinteiro que não tem pressa em construir seus enredos. A cada página, acrescenta detalhes e peças que vão compondo a obra, com uma prosa que força o leitor a se concentrar e segurar o livro até o limite do esforço físico.

Seus livros não trazem tensão nem reviravoltas. Não esperamos surpresas.

“Silêncio” foi uma leitura contemplativa — se é que algo assim existe. Já este “Samurai” (Tusquets) imprime um ritmo alternado, em que ora estamos no Japão do século 17, ora estamos numa aventura de viagem.

Se antes Endo buscava enxergar o Japão e a influência cristã na própria terra, agora ele parte para o Novo Mundo. Um samurai de baixo escalão é chamado para se encontrar com o vice-rei espanhol e o papa. Durante a viagem, terá que lidar com um franciscano ambicioso e dilemas próprios de quem não sabe o porquê de ter sido escolhido.

As mulheres, por Conceição Evaristo

Saudada como grande autora na Flip-2017, Conceição Evaristo ainda navega à margem no mercado editorial brasileiro. Aos 71 anos, seu trabalho aparece mais em coletâneas do que em obras próprias.

“Olhos d’Água” (Pallas) reúne 15 contos de temática única (e necessária): os problemas diários que a negra enfrenta no Brasil. Cada conto funciona quase como uma minibiografia de uma mulher. Como o título do prefácio, retirado de um dos contos mais fortes (“A Gente Combinamos de não Morrer”), explicita: “Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro”.

Conceição Evaristo é capaz de com poucas palavras imprimir um senso de urgência e uma secura na garganta. Ainda que o texto aqui e ali precisasse de uma lapidação, a crueza se impõe e dispensa esse trabalho.

As mulheres estão lá. Jovens, adultas, idosas, com seus dilemas naturais e os enfrentamentos que têm de vivenciar obrigatoriamente, por serem mulheres, negras, pobres. Sua literatura é dramática e, até agora, incapaz de sensibilizar o Brasil — e esse é um problema nosso.

“O movimento foi rápido. O tiro foi certeiro e tão próximo que Natalina pensou estar se matando também. Fugiu. Guardou tudo só para ela. A quem dizer? O que fazer? Só que guardou mais do que o ódio, a vergonha, o pavor, a dor de ter sido violentada. Guardou mais do que a coragem da vingança e da da defesa. Guardou mais do que a satisfação de ter conseguido retomar a própria vida.”

Leitura Dinâmica

Li Confesso que Perdi (Companhia das Letras), as memórias de Juca Kfouri. O jornalista não encontrou a melhor prosa para contar suas histórias ♦♦♦♦♦ Em A Máquina de Existir (Pedra Papel Tesoura), o poeta Fabrício Marques entrega um conjunto de poemas que travam um diálogo com a memória e a nostalgia, sem não provocar uma certa angústia ♦♦♦♦♦ Passado Perfeito (Boitempo) é o primeiro volume da tetralogia Estações, de Leonardo Padura. Estamos em 1989 e o investigador Mario Conde acorda no primeiro dia do ano de ressaca e com um crime a resolver. Ao mesmo tempo, a Havana da época se mistura a uma lembrança de um antigo amor. É um livro policial, mas também um tratado sobre personalidades.

Paloma Franca Amorim, outra vítima do machismo

“Por que Paloma está fora da lista de ‘principais convidados’ da Feira Pan-amazônica do Livro? Soube disso há uma semana. A situação me parece despropositada. Vou explica por quê.”

Assim Haroldo Ceravolo Sereza abre seu artigo publicado no site Publishnews, principal referência do mercado editorial brasileiro. Ele se refere ao fato de Paloma Franca Amorim não ter sido convidada para participar da 22ª Feira Pan Amazônica do Livro, que acontece no Pará entre 26 de maio e 3 de junho. Mais. Ele questiona ainda por que a escritora não foi resenhada nos principais jornais.

Antes, ele dá as cartas. Ceravolo é editor da Alameda Editorial, casa que publicou “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho”. O livro foi elogiado em críticas de sites e veículos regionais, a autora participou da Flip-2017 e vem recolhendo boas saudações.

Seu artigo é quase raivoso — e compreensível. Já tratei no blog desse machismo que domina as letras de forma enrustida. Todos refutam o preconceito, mas continuam se reunindo e estimulando os grupinhos. Abrem-se até a discutir feminismo e literatura produzida pelas mulheres, em encontros e debates em que todos são homens.

Ceravolo expõe seus motivos e o que acredita ser a causa da exclusão de Paloma Franca Amorim, autora nascida em Belém. Destaco um trecho do artigo:

“Há um sistema perverso funcionando no circuito literário brasileiro que favorece os mesmos escritores de sempre. A professora da UnB Regina Dalcastagné acompanha a produção literária brasileira de algumas décadas e demonstrou como mudou pouco o perfil do escritor consagrado: em geral é homem, branco e sudestino.”

Paloma Franca Amorim, excluída da Feira Pan Amazônica | Foto: Caroline Lima/Huffpost

Ela também escreveu um artigo sobre a decisão da Feira Pan Amazônica e vem falando sobre o caso nos encontros literários para os quais é convidada. E não se atém apenas à sua exclusão, mas observa com atenção o caráter preconceituoso em vários níveis, como o do cartaz da feira. Destaco:

“Ao me deparar no início da semana com o cartaz do circuito sul e sudeste do Pará da feira, que ocorrerá em Marabá, tremi nas bases. Ali há uma trabalhadora negra carregando livros na cabeça em alusão às mulheres Palenqueras, símbolos da cultura colombiana (Colômbia é o país “homenageado”, mesmo sem a participação de intelectuais colombianos na programação principal), fiquei angustiada não porque essas mulheres não mereçam ser visibilizadas, mas porque quem entende o mínimo de história da América Latina sabe que foram condenadas pela colonização espanhola a trabalhos exploratórios como, por exemplo, vender frutas em bacias carregadas no topo da cabeça e seu sorriso e orgulho hoje são expressão de resistência e não resultantes de uma normalidade folclórica.

Ademais, por que a mulher carrega os livros na cabeça ao invés de os ler? O cartaz e a programação da 22ª Feira Pan Amazônica ignoram os debates travados sobre os avanços políticos de democratização da leitura e da escrita nos meios historicamente subalternizados.”

Este é o cartaz. Depois dos protestos, os organizadores decidiram refazer a arte. Mas Paloma Franca Amorim continua fora da lista de participantes.

O blog comprou o livro da escritora e em breve vai escrever sobre “Eu Preferia Ter Perdido o Olho”. Para fechar, deixo o trecho de abertura do primeiro texto do livro, uma porrada da qual ainda tento me recuperar dias depois de ter lido.

“No final de toda queda tem um coice. No caso de estupro é a mesma coisa: na hora em que acontece parece que o mundo está terminado, nós sequer suspeitamos que o julgamento moral do dia seguinte (se conseguirmos sobreviver) pode ser pior do que a própria violência do ato.”

Saindo do forno

Dois livros de não ficção entraram na lista de desejos. Devem chegar às livrarias ainda em maio.

Um Ano Depois (Todavia) trata de Maio de 68 na França. Anne Wiazemsky escreve sobre o período em que estrelou A Chinesa, filme de Jean-Luc Godard, então marido da escritora. Os dois vivenciaram os conflitos estudantis que iriam paralisar o país.

E Andrea Dip lança Em Nome de Quem? — A Bancada Evangélica e seu Projeto de Poder (Civilização Brasileira), livr0-reportagem que investiga como política e religião se misturam e se sustentam.

Leituras e outras indicações

On-line 1: Entrevista de Paul Auster para o Red/Acción, novo site argentino — aliás, muito bom. Ele fala sobre “4321”, seu épico de 1.000 páginas (na versão em espanhol), que será lançado pela Companhia das Letras em julho (previsão).

On-line 2: Com livro novo, Cristovão Tezza falou sobre seu trabalho ao blog Página Cinco. “A Tirania do Amor” (Todavia) envereda por temas como liberalismo econômico.

On-line 3: A Bravo! está de especial novo. Desta vez, o tema foca na liberdade. Destaco o texto de Almir de Freitas sobre Sartre: “Condenado a Ser Livre”.

On-line 4: Este texto (em inglês) lança uma discussão interessante. A autora diz que não recomenda seus livros favoritos.

No papel: Na revista QuatroCincoUm de abril (atrasado, me desculpem), ótimo texto de Rosa Freire d’Aguiar. Ela narra como foi fazer a tradução de “Os 120 Dias de Sodoma ou A Escola de Libertinagem” (Penguin Companhia), do Marquês de Sade.

Na TV: Assisti às duas primeiras temporadas de Fargo na época em que foram lançadas (2014 e 2015). Já a terceira comecei a ver no ano passado e fui terminar somente agora. É das melhores coisas da TV. A premissa parte do filme dos irmãos Coen e nesta última versão chegou à sua melhor forma. Um homem é morto por engano e desencadeia uma série de absurdos em uma pequena cidade do Minnesota. Temos a policial destemida, que faz tudo com uma calma impressionante, mais crimes por acaso, uma brancura insuportável, um tirano inglês com nome espanhol e uma dentição nojenta e mais um conjunto de personagens imperdíveis. A série é soberba e agora está toda na Netflix.

Nos alto-falantes: Van Morrison já havia flertado com o jazz em “What’s Wrong With This Picture?” e “How Long Has This Been Going On”. Agora, ele volta ao gênero com “You’re Driving Me Crazy”, título retirado de uma canção interpretada por Billie Holiday. O álbum é uma parceria com o trompetista Joey DeFrancesco. A dupla reinterpreta composições do bardo irlandês e clássicos do blues e jazz. Coisa fina. Aos 72 anos, Morrison continua produtivo. Este é seu quinto álbum em quatro anos.

Em Fargo, o absurdo faz parte da rotina de seus personagens

Na cabeceira

Paulo Sales, jornalista e autor de “Erguer e Destruir”, diz o que está lendo: O Gattopardo, de Giuseppe Tommasi de Lampedusa, e O Amor é um Cão dos Diabos, de Charles Bukowski.

“O Gattopardo é um clássico da literatura universal. A derrocada da nobreza siciliana e a unificação da Itália contadas com desencanto, elegância e boa dose de sarcasmo. Texto envolvente, para se ler sem pressa. Já o livro de Bukowski é uma leitura que marca o retorno, depois de muito tempo, a um dos autores caros da minha juventude. O universo do velho Buk em versos incisivos, que escancaram sua sensibilidade, compaixão e saco cheio do mundo.”

Alta Fidelidade

Escrevi para o blog do BRIO (startup que capacita jornalistas) um guia para ler Gay Talese, o grande nome do novo jornalismo. Aqui, faço o meu top 5, sem ordem de preferência.

  • Honra Teu Pai
  • Fama e Anonimato
  • A Mulher do Próximo
  • O Reino e o Poder
  • Unto the Sons

Uma abertura

“Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva: sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e, quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao fiscal de Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada por ser testemunha ocular das cosias feias da vida ou das loucuras da cidade. Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia-noite de uma chuvosa terça-feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.”

(“Honra teu Pai”, de Gay Talese)

*****

As edições anteriores da coluna estão aqui. A próxima sai no dia 19 de maio. Até lá!

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3 comentários em “Notas de um Leitor — edição 4

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