Notas de um Leitor — edição 3

Ricardo Aleixo: “Poesia é invenção de mundos”

“Sou filho de mãe mineira meu pai é de Minas Gerais dou volta e meia no mundo e o mundo não acaba mais.”

Este verso diz muito sobre o trabalho de Ricardo Aleixo, poeta de Minas Gerais que está com uma nova antologia. “Pesado Demais para a Ventania” (Todavia) revisita sua obra, ao mesmo tempo em que abre caminho para o futuro.

Aleixo, considerado por parte da crítica como o melhor poeta mineiro desde Carlos Drummond de Andrade, vai além das letras. É um performer que contamina as plateias com apresentações vigorosas, como a que fez na Flip-2017. Essa face é tão importante no trabalho do escritor que todo seu material primeiro passa pela performance antes de ganhar as páginas.

O poeta conversou com o blog.

Você disse certa vez em uma entrevista: “poesia é liberdade”. Em tempos de Brasil polarizado, qual a importância da poesia?
Poesia é invenção de mundos. De hipóteses de mundos. Não sei, sinceramente, se a polarização por que passa o Brasil, hoje, aumenta ou diminui a importância da poesia — que nada tem a ver com o raso da política e da sociedade — num contexto como o atual. É possível que a liberdade que uns e outros atribuímos à poesia esteja ligado à sua capacidade de existir e resistir independentemente da direção para onde o vento sopra.

Poesia e performance andam juntas em seu trabalho. Com é a concepção de cada uma delas?
Escrevo já tendo em mente a situação de performance. Nenhum escrito meu — mesmo os textos em prosa — é publicizado sem que eu o tenha vocalizado antes. A performance é, assim, para mim, um momento a mais de convívio com as possíveis vozes e corpos que sustentam o corpo do poema.

Qual o significado dessa antologia em sua carreira? O que ela representa e o que ela propõe a partir de agora?
É difícil olhar para o já feito quando se tem uma obra ainda em processo. Chego mesmo a pensar que ainda não fiz o meu melhor. Trabalhei até hoje dentro das condições existentes, isto é, lutando diariamente contra toda sorte de problemas e obstáculos, o que faz com que a montagem de uma antologia seja um momento de contemplação serena da própria trajetória e de planificação de algum futuro.

Para aproveitar o lançamento da antologia: qual o papel da poesia em sua vida? O que ela te proporcionou?
Eu digo sempre que tenho três mães: Íris, que me pariu; a intuição, que me aproximou da poesia, quando eu contava 17 anos; a poesia. As três, juntas ou em fases diferentes da minha vida, me estragaram definitivamente para o mundo prático, o da acumulação de poder e de dinheiro.

O poeta Ricardo Aleixo, em uma de suas performances

Muito barulho por muito pouco

Leïla Slimani chegou ao Brasil embarcada num alvoroço que gerou uma expectativa enorme em relação a seu livro. “Canção de Ninar” (Tusquets/Planeta) também aporta com credenciais impressas na capa: best-seller internacional e vencedor do Prêmio Goncourt, o mais importante da França.

Essa badalação incomoda. Números de vendas necessariamente não conferem qualidade — e prêmios, bem, se a gente for se guiar pelo que acontece no Brasil, vamos comprar sempre enganações sem-vergonhas.

Optei pela leitura por conta da trama: logo de início, duas crianças estão mortas. A babá Louise é a autora do crime bárbaro — e isso aparece nas duas primeiras páginas. O livro se detém em reconstruir os fatos até esse ápice.

A premissa me interessa: desfeito o mistério no começo, resta à autora contar uma história que seja boa o suficiente para justificar o barulho e o trauma. Na melhor linha hitchcockiana (o importante é o “como” não “o que”), “Canção de Ninar” se equilibra nessa evolução.

Começa bem, se desenvolve com vigor, mas no final já chega cansado, como se não tivesse mais solução nem rumo. A relação com Paul e Myriam, o casal que contratou a babá, exala uma tensão silenciosa desde o início, mas faltou a Slimani um desfecho que justificasse toda a potência de partida.

A escritora franco-marroquina tampouco se aprofunda na questão racial — os papéis se invertem, a babá francesa atende à mãe imigrante. Fica na superfície.

Ao final, sobra o sabor de um romance que atiça o paladar, mas que se mostra insosso. Como se perguntássemos: e daí?

Quando o altruísmo se ampara no absurdo

Passeios em livrarias sempre revelam preciosidades — claro, não dá para esperar isso em uma Saraiva, mas a Livraria da Vila até que consegue manter uma certa dignidade.

Pois foi lá que encontrei “A Vida Pelos Outros”, um livro-reportagem sobre os excessos de altruísmos. Pode parecer estranho, no primeiro contato, imaginar que ajudar pessoas em necessidade provoque algum mal, mas o que a jornalista Larissa MacFarquhar mostra é exatamente esse lado que pouco conhecemos.

Antes, é preciso esclarecer que MacFarquhar escreve muitíssimo bem — sugiro experimentar alguns dos textos que ela escreveu para a The New Yorker.

Aqui, ela investiga como as ações de algumas pessoas ultrapassam o limite da ética e acabam comprometendo vidas. Fica a sensação de que o fanatismo domina as boas ações, como se o ato fosse muito mais do que uma responsabilidade ou missão de vida.

Médicos que atuam no exterior, protetores de animais, doadores de órgãos, os casos deixam o bom senso de lado e se transformam em histórias fantásticas, absurdas.

O Roubo do Enem: sai a reportagem, entram a avó e a vida pessoal

“O Roubo do Enem” (Record) poderia ser uma boa reportagem. Mas não é. A história de como as provas do exame nacional foram vazadas em 2009, na primeira grande virada da prova, com Fernando Haddad no comando, tem todos os elementos para uma grande reportagem.

O problema não é do tema nem da apuração. A jornalista Renata Cafardo mostra ao longo do livro que tem informação, que conseguiu chegar ao fato. A questão é que, mais uma vez, o leitor se sente diante de um diário pessoal e não de uma reportagem.

Isso já aconteceu com “Cova 312”, de Daniela Arbex, que transformou a história de prisioneiros da ditadura em uma brincadeira autocelebratória. Andrei Netto, com seu “O Silêncio contra Muamar Kadafi”, também encharca o leitor com fatos supérfluos.

Neste “O Roubo do Enem”, por exemplo, ficamos sabendo como a avó de Cafardo reagiu ao ouvir o nome da neta na TV. Também, no melhor estilo de coluna de fofocas, ficamos informados que a jornalista estava em crise no casamento, tinha dificuldade em administrar a vida e dormia sempre muito cansada.

Isso irrita profundamente o leitor que procura uma reportagem e acaba encontrando fragmentos da vida pessoal — além de fora do eixo, sem estar intrinsicamente ao andamento, está mal escrito.

Uma coisa é escrever um texto para algum veículo — espaço reduzido, mesmo na internet, elimina os enfeites. Outra coisa é escrever um livro, e nem todo mundo tem talento para isso.

Malu Gaspar tem. Seu livro sobre Eike Batista não tem nada da repórter, que não é o tema de “Tudo ou Nada”. Ou Nana Queiroz, que escreveu “Presos que Menstruam” e impôs um ritmo que não escapa para o umbigo.

Cheguei à metade do livro e larguei. Cansei de ler sobre a vida pessoal de Renata Cafardo e seus dilemas desinteressantes. Pena.

Um lamento pelas livrarias locais

Não vou usar números, informações oficiais. Este é um comentário baseado nas minhas impressões. As livrarias locais não sofrem apenas com as grandes redes e o comércio digital. Parte dos problemas vem do fato de que as pessoas pouco leem. Ou, se leem, leem mal.

Sou um frequentador de livrarias há muito tempo. Olhando para trás, é visível a decadência do que se oferta. O acervo é mínimo, as livrarias colocam à mostra mais do mesmo, em grande quantidade. O problema é que esse mais do mesmo é tomado por bobagens infantojuvenis, best-sellers imbecilizantes e outros trecos. Estantes são tomadas pelos mesmos livros, não há diversidade — me refiro aqui às grandes redes.

As livrarias locais então têm que enfrentar as grandes sem o poder de negociação. Não dá para vender Jojo Moyes pelo mesmo preço da Amazon ou Saraiva. E colocar Edyr Augusto significa encalhe. É a fórmula para o fracasso.

Eu gostaria muito que as livrarias locais tivessem condições de sobreviver. Em Belo Horizonte, algumas conseguem — caso da Ouvidor e Quixote — e com qualidade. Os vendedores são leitores e proporcionam ótima experiência de compra. Seria ótimo se houvesse mais casos como esses — fiquem à vontade para apontar livrarias locais que fazem esse papel.

No interior, a situação se complica. O nível de leitura cai, assim como a qualidade. O atendimento é ruim, sem conhecimento.  Resta mesmo depender das grandes redes e do comércio eletrônico.

Prefiro passar algumas horas em uma livraria local como a extinta Mineiriana a enfrentar o acervo confuso da Saraiva. Onde moro, isso não é possível, e tenho que me render ao caos da mesmice. Se houvesse alguma local decente, seria assíduo.

De olho

Dois próximos lançamentos me despertaram a atenção. O primeiro é “Elza, A Garota” (Companhia das Letras), de Sérgio Rodrigues.

A reedição me parece oportuna. O romance histórico investiga a morte de uma jovem comunista pelo próprio partido.

A capa é uma obra-prima, com referências à estética soviética.

O outro livro que está para sair é “O Romance Luminoso” (Companhia das Letras), do uruguaio Mario Levrero. Muitos consideram este como o maior livro do autor.

É um livro que não começa, com um prefácio que toma praticamente 80% das 648 páginas. Alguns o comparam com “2666”, de Roberto Bolaño, mas ele me lembrou “Museu do Romance da Eterna”, do argentino Macedonio Fernández.

Dele, já li “Deixa Comigo” (Rocco), da saudosa coleção Otra Língua. O curto romance é uma viagem que embaralha ficção e realidade.

Leituras e outras indicações

On-line: Sou fã de Junot Díaz — seus livros são fabulosos, recomendo a leitura. Neste texto para a The New Yorker, ele escreve sobre um trauma pessoal.

On-line: A cada vez mais essencial Zenda seleciona os melhores poemas de Charles Baudelaire. Estão em espanhol.

On-line: Na São Paulo Review, uma crítica sobre “Karen” (Todavia), romance da portuguesa Ana Teresa Pereira. Esse livro já saiu e entrou dezenas de vezes na minha lista. Ainda não me decidi.

On-line: Na Bravo!, Igor Zahir escreve sobre os 95 anos de Lygia Fagundes Telles, completados em 19 de abril.

Na TV: “Ugly Delicious”, na Netflix, é uma série sobre comida diferente de tudo o que você já viu. À frente, está o chef David Chang. O tema: investigar comidas típicas e desvendar como elas se transformaram e se adaptaram a diversas culturas. O episódio sobre a pizza é algo primoroso. Ele vai à China e a Nápoles, critica as receitas americanas, diz que gosta da Domino’s e entrega uma discussão valorosa sobre comida.

Nos alto-falantes: A anunciada vinda de Nick Cave ao Brasil deixou indies alvoroçados. Faz sentido. É um dos poucos artistas com dignidade na ativa. Vi um show de Nick Cave em 1989, num Projeto SP relativamente lotado. Ouça qualquer coisa dele, mas, se precisar de um guia, a coletânea “Lovely Creatures” e o álbum “Skeleton Tree” são boas pedidas.

David Chang no episódio dedicado à pizza

Na cabeceira

Ana Paula Maia, autora de “Enterre Seus Mortos”, diz o que está lendo:  “O Bebê de Rosemary” (Amarilys), de Ira Levin.

“Estou lendo pela terceira vez. Adoro. É um terror clássico e envolvente.”

Alta Fidelidade

Tomás Eloy Martinéz não é dos escritores argentinos mais festejados. Mas gosto muito dele, foi um dos que mais li na época em que visitei Buenos Aires pela primeira vez.

Aqui vai meu top 5 dele, sem ordem de preferência

  • Lugar Común la Muerte
  • Santa Evita
  • O Cantor de Tango
  • El Vuelo de la Reina
  • Purgatório

Uma abertura

“Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio — foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza —, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: “Isso não é a TV, gente, mais rápido não dá.” Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram.”

(“As Virgens Suicidas”, de Jeffrey Eugenides)

*****

As edições anteriores da coluna estão aqui. A próxima sai no dia 5 de maio. Até lá!

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8 comentários em “Notas de um Leitor — edição 3

  1. Trabalho numa livraria com esse perfil mais “cuidadoso”, numa cidade mais turística do que cultural (Florianópolis), e é muito difícil competir com as redes maiores (tanto com as lojas físicas mas principalmente com as lojas virtuais). Temo, infelizmente, que uma livraria com acervo de qualidade e boa curadoria só sobreviverá em cidades de grande porte e cena cultural mais pujante – tipo São Paulo, Rio, Porto Alegre ou BH.

    Sobre os livros-reportagens, tô no começo do “Lua de mel em Kobane” e ele parece ter esse perfil mais informativo e analítico do que auto-referencial.

    Tá muito legal a coluna, abs.

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