Edyr Augusto: “Creio que há algum preconceito contra o que é escrito no Norte”

“Pssica”, de Edyr Augusto, estava na minha lista de compras havia mais de ano. Nunca encontrei nas livrarias físicas, e mesmo nas virtuais passou um tempo fora de estoque.

Lera boas críticas — poucas, é verdade — e o nome do livro ficou adormecido até agora. E, ao final da leitura, me arrependo profundamente não ter lido antes.

“Pssica” (Samauma/Boitempo), que no Pará significa algo como maldição, pode induzir a várias comparações, mas Augusto oferece uma leitura original, pulsante e extremamente brasileira.

A trama se passa no Pará, com foco na marginal Belém, mas se estende para Marajó e a Guina Francesa. Neste profundo, Augusto insere os elementos que vão conduzir o leitor: violência urbana, tráfico de mulheres, corrupção, um Norte desolado e sem a atenção do Estado e do resto do país.

Nas primeiras páginas, ele já joga o leitor num redemoinho do qual só se escapa ao virar a última. Começa carregado de um tema atual — uma garota é vítima de “revenge porn”, seu namorado jogou um vídeo em que fazem sexo na internet e ela se viu alijada da escola e da família.

A garota se vê despejada num mundo ordinário, obrigada a viver com a irmã da mãe e seu tio, num arranjo que vai bagunçar ainda mais a cabeça da jovem.

Há outras tramas que caminham em paralelo, mas que igualmente vão revelando o quão distante estamos do país — e da literatura de Edyr Augusto. Como a morte violenta da mulher de um migrante que tentava ganhar a vida na floresta, evento que vai desencadear uma busca brutal pelo Pará.

Seu estilo desce seco, sem grandes descrições. A formação de jornalista ajudou a criar um ritmo alucinado, sem exageros, com frases curtas e necessárias — não há excessos, o que lembra a objetividade de Raymond Carver e Gordon Lish.

Mas Augusto imprime uma vertigem, as histórias se somam e se encerram com volúpia, envolvem o leitor de forma a inseri-lo na trama praticamente à força. É impossível ficar distante. Não há aspas e travessão para indicar diálogos. A sensação é de queda.

Ao final, temos a impressão que ultrapassamos um épico de James Ellroy, uma de suas inspirações, mas a diferença é que Augusto concentrou seu romance em 94 páginas — é um golpe de Mike Tyson, enquanto Ellroy se iguala às danças de Muhammad Ali.

Aos 64 anos e com outros cinco romances publicados, Augusto deveria ser mais lido — e este leitor se inclui na lista dos que precisam conhecer essa obra. Enquanto a literatura brasileira fica a ovacionar autores medíocres, membros de grupinhos quase mafiosos e sem talento algum, escritores com gana para narrar e contar histórias bem construídas, como Augusto, Marcelo Mirisola e Ana Paula Maia (em breve, entrevista com ela no blog), ficam esquecidos num canto.

O Capítulo Dois conversou com Augusto sobre “Pssica”, inspirações e a relação do Sudeste com o Norte do país: “A questão cultural ainda é complicada no Brasil. Tudo o que é bom parece sair apenas do Sul e Sudeste”, disse na conversa.

A entrevista está a seguir.

O autor Edyr Augusto: “A realidade, hoje, é uma concorrente” | Foto: Luiz Braga/Divulgação

*****

Em uma entrevista, você disse que não se encontram autores paraenses nas livrarias. Quase três anos depois de “Pssica”, o cenário permanece esse? Por que é difícil chegar às livrarias?
As grandes editoras estão todas no Sudeste. Conseguir ser publicado é a primeira barreira. Depois, chegar à mídia, obter recomendações da crítica. Também enfrentamos no Pará um período que já dura mais de 20 anos sem que Estado ou município tenham qualquer projeto na área de cultura, o que inclui a literatura. Por isso, junto com outros escritores, criamos a Feira do Livro do Pará, totalmente privada, que uma vez por ano vem crescendo muito. Também lançamos escritores iniciantes e relançamos livros fora de catálogo. Com todos esses muros, ainda é muito difícil chegar às prateleiras das grandes cadeias de livros.

A que você credita a falta de interesse pela literatura produzida em lugares mais remotos?
Ainda hoje há escritores de outros Estados que vão morar em São Paulo para conseguir melhores chances de publicar e chamar a atenção da imprensa. Sim, creio que há também algum preconceito contra o que é escrito no extremo norte. No meu caso, principalmente porque meus romances têm acontecimentos na minha cidade, Belém. Estive há dois anos na Bienal do Livro de Recife, lançando o “Pssica” e ninguém me conhecia. A questão cultural ainda é complicada no Brasil. Tudo o que é bom parece sair apenas do Sul e Sudeste. Acho que editores e imprensa precisam ter mais curiosidade pelo que é produzido em outros Estados.

“Pssica” tem ritmo ágil e uma linguagem seca, com frases curtas. O ritmo se impôs à história? Era necessário para contar o que você pretendia?
Era necessário, mas é o estilo que venho desenvolvendo e, em “Pssica”, está bem claro. Vivemos uma época de muitas imagens. Não perco tempo criando um cenário para o leitor. Convido-o para ser cúmplice, que crie em sua imaginação. Elimino traços e travessões para mostrar personagens falando. Misturo no texto, mudo o tempo do verbo e ainda assim, creio que o leitor, que está acompanhando, percebe o que está acontecendo, quem está falando e agindo.

A forma como você escreveu lembra James Ellroy, mas, ao contrário dele, que costuma escrever livros épicos, você lançou “Pssica” com menos de 100 páginas. A narrativa longa não lhe cabe neste momento?
Ellroy é um de meus autores favoritos, mas, depois de seis livros lançados no estilo a que me propus, o que posso dizer é que os livros têm seu tamanho certo. Há um momento em que ele grita para terminar. Eles é que sabem o seu tamanho. Já estão vivos e comandando os acontecimentos. Também acho que o “Pssica” é muito intenso, suprindo desejos de mais páginas.

O cenário violento do Pará facilita a criação de romances policiais como “Pssica”? As tramas se impõem ou você as procura?
Belém é uma das dez cidades mais violentas do mundo. Uma cidade de muitos contrastes. Pobreza e riqueza. Século 19 e 21 se encontrando. Uma selva de concreto fincada na selva amazônica. Pessoas desesperadas de fome e ambição e uma classe alta rica e egoísta. Políticos péssimos. Grandes projetos que levam toda a riqueza e não deixam nada. Para onde se olha, há histórias boas para contar.

A violência do livro te incomodou em algum momento? Como você lida com suas histórias?
Marcelo Mirisola disse que os ficcionistas precisam se preocupar. Afinal, a realidade, hoje, é uma concorrente. Os cadernos policiais dos jornais locais são extremamente sangrentos. Nos programas de TV, câmeras registram toda sorte de violência. Adolescentes jogam games em que ganha quem mata mais. Sou jornalista de formação, talvez exista um desejo de denunciar essa violência toda. Me perguntam se consigo dormir tranquilo após escrever uma cena pesada. Sim, durmo muito bem, até feliz, se estiver satisfeito com o que produzi em termos literários.

Qual história de personagem foi mais difícil de criar e concluir em “Pssica”?
Todos eles foram fáceis e difíceis de criar. Personagens ganham vida, provocam, querem mudar tudo. É preciso ter mão forte, às vezes. As pessoas se queixam que matei o policial aposentado. Pena, mas isso teria de acontecer. Minha mulher também fica chateada se morre um personagem que ela está gostando. Não prevejo nada. Na maioria das vezes, não sei como a história terminará. Vivo intensamente enquanto escrevo. Quando termino cada capítulo, respiro fundo e parto para outro.

Viver no centro de uma capital como Belém ajuda na criação de personagens e da ficção? No livro, estamos diante de personagens vivos, verossímeis. Sua inspiração vem da observação?
Todo escritor é um observador daquilo que se passa a seu redor. Moro no centro da cidade. Todos os dias falo com traficantes, viciados, prostitutas, pimps, engraxates, os que vigiam carros, vendedores, enfim. Ouço a melodia de suas vozes. Percebo suas ansiedades e emoções. Quando escrevo, é como se eles todos estivessem ao meu redor me avisando, cutucando, reclamando mais linhas. Às vezes preciso falar alto e pedir silêncio. Eles me ajudam.

Qual literatura lhe interessa atualmente?
Sou um leitor vulgar. Minha mulher diz que não moro e sim sou hóspede de uma biblioteca. Leio de tudo. Tenho preferidos. Li o livro do Geovani [Martins], “O Sol na Cabeça”, e gostei. Espero que tenha fôlego para algo mais longo. Gostei também de “Tudo Pode Ser Roubado”, de Giovana Madalosso.

Os direitos de filmagem “Pssica” foram adquiridos pela O2 Filmes. Você vai participar do roteiro e da produção?
Os direitos foram vendidos. No contrato, há possibilidade de ser consultado sobre alguma mudança de personagem. Acompanho o trabalho por meio do que é postado no site da empresa. Nada mais. Penso que quando iniciarem as filmagens, conversaremos. Mas estou feliz sabendo que Bráulio Mantovani é o roteirista. Eu o respeito muito. Também acho que a O2 é excelente. Tem tudo para dar certo.

Sabe em que fase está o filme, já há atores escolhidos?
Como disse, estão trabalhando roteiro. Os atores, não sei. Em entrevista, o Quico [Meirelles, diretor] disse que a atriz principal seria escolhida aqui em Belém. Tomara.

Críticos elegeram “Pssica” como um dos melhores livros do ano e do gênero policial. Essa repercussão gerou leitura?
Foi engraçado, embora algo que se repita. Meu segundo livro, “Moscow”, teve fantástico empurrão de colegas escritores, ganhando boas páginas da imprensa do Sudeste. Nada mais. Os outros também ganharam elogios, aqui e ali e mais nada. Depois que três livros foram traduzidos, lançados e fizeram sucesso na França, na hora em que saiu “Pssica”, parece que os jornalistas do Sudeste acharam que, se fez sucesso na França, devia ser bom. E então foram ler, gostaram e ganhei muitas matérias. Também fiz um tour pelas principais livrarias de SP, conversando com vendedores. Eles não me conheciam. Mais tarde, encontrei novamente [com eles] e me disseram que estavam recomendando aos clientes por terem gostado, realmente. Devo dizer que, inclusive para Belém, todas essas matérias dos jornais do Sudeste também proporcionaram uma maior atenção do público local. Creio que o noticiário sobre a compra dos direitos de filmagem foi outra coisa que excitou a venda. E continua, graças a Deus.

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2 comentários em “Edyr Augusto: “Creio que há algum preconceito contra o que é escrito no Norte”

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