Notas de um Leitor — edição 2

Sobre o Pai da Menina Morta

Assim como o Pai da Menina Morta, Tiago Ferro perdeu sua filha de 8 anos por conta de uma miocardite. O problema não foi identificado a tempo pelos médicos, e o tratamento da menina focou apenas na forte gripe.

Tiago Ferro é o autor de “O Pai da Menina Morta”, romance de estreia do fundador da editora e-galáxia. No livro, não há nomes, e o protagonista se chama assim mesmo, Pai da Menina Morta.

Os fatos se assemelham, mas talvez isso seja o que menos importa no livro. A experiência de construção narrativa é o grande achado da obra.

Não estamos com um livro em que fatos se somam em ordem cronológica, nem lemos lamentações. A estrutura fragmentada, sem um laço claro que una as diversas partes, faz de “O Pai da Menina Morta” uma etapa da superação do luto.

Pois o luto não surge nem sobrevive de forma coesa. Somos obrigados a viver com o caos, de lembranças que se acumulam e se atropelam, enquanto encaramos a falta.

O cotidiano não para, nem a dor. E Ferro traduz essa alternância com listas de compras em supermercados, com desejos da Menina Morta, mensagens de redes sociais — de carinho e de puro ódio, até em momentos como esse —, verbetes de dicionário, lembranças da luta no hospital e do dia seguinte.

Está tudo lá, dor, raiva, sexo, frieza, distanciamento, memória. Não há pedidos por explicação nem culpas. Há vida, pulsando em palavras que se transformam em sentimentos.

Ferro insere uma cartografia de uma São Paulo recente e dos anos 70/80, acompanhada de influências culturais da música pop e do cinema. Há ainda espaço para comentário político — em certo momento, uma professora surge para liberar uma sala de aula a fim de participar de passeata contra Collor, para anos depois, fazer o mesmo na época dos protestos contra Dilma.

O final do livro é hipnótico. A estrutura fragmentária, como se cansada, dá lugar a uma narrativa única, como um fluxo de consciência. É o Pai falando — “Eu queria sentir raiva, mas de quem?”.

Tiago Ferro conversou com o blog e respondeu a três perguntas:

O que o levou a optar por dar nomes aos personagens?
Foi uma opção formal e estética, que obedece a um certo ritmo do romance. Os personagens, exceto o narrador, não têm profundidade, são em grande medida tão clichês quanto alguns ícones da cultura pop que surgem pelo livro, esses sim com seus nomes próprios, mas, paradoxalmente, também com pouca (ou nenhuma) profundidade, já que se descolaram de suas vidas privadas, individuais etc. São imagens. Aparições na narrativa. Nessa operação, fica a intenção de mostrar que para o narrador tudo passa a ser estranhado, nada mais é aquilo que costumava ser. E é nesse cenário, nesse teatro do mundo, que ele não consegue mais cumprir qualquer papel previamente designado pela sua classe, formação e história.

O livro era uma saída necessária para o seu luto?
A escrita do livro responde a uma fase de superação do luto, ou ao menos de sua fase mais dura. Mas não entendo que a literatura tenha qualquer tipo de função terapêutica. Ela alarga a experiência ao dar forma ao vazio, mas coloca novas perguntas e não respostas, portanto instaura outros vazios que pedem novas formas e assim sucessivamente. Sendo assim, eu não saberia avaliar o efeito prático e imediato do livro na minha vida.

Em um trecho, o narrador lista uma série de coisas que não tiveram tempo de acontecer. O que deu tempo de ser feito?
O único elemento estável e constante na narrativa é a ausência. E a ausência vai marcar sempre aquilo que falta ao narrador: o que não foi e o que não será. O que foi feito não está no romance ou teríamos um outro livro, talvez um relato de memórias.

O escritor Tiago Ferro, em sua casa em São Paulo | Foto: Luiz Maximiano/Veja

“Eu não quero ser o Pai da Menina Morta. Eu sempre serei o Pai da Menina Morta. Não estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio.”

Miocardite
substantivo feminino
1. Inflamação do miocárdio
2. raio em céu azul
3. ninguém diagnosticou a tempo
4. naquele dia ela passou pela pediatria e por um dos melhores hospitais do país
5. é só uma gripe

“A Minha Outra Filha não deixa ninguém arrumar a bagunça. Ela diz que não é bagunça. É outra coisa. Mas ela ainda não sabe o nome.”

Chester Brown não joga fácil. Ainda bem

Em “Pagando por Sexo” (Martins Fontes), ele relata suas histórias com prostitutas e defende a profissão. Seus relatos, bem detalhados, funcionam como uma ode e ao direito de pagar por sexo.

Agora, em “Maria Chorou aos Pés de Jesus” (Martins Fontes), Chester Brown envereda por um campo mais perigoso. Ele desconstrói nove histórias da Bíblia e aplica uma visão original, com o olhar para as representações de prostituição encontradas nos livros.

Virgem Maria, Maria de Betânia, Rute, Tamar e outras aparecem nas histórias sob o olhar provocador e questionador de Brown. O subtítulo dá pistas do que o autor pretende conduzir: “Prostituição e obediência religiosa na Bíblia”.

Metade do livro é preenchido por um gordo posfácio e notas, escritos pelo autor. Ele remonta sua pesquisa e debate suas opções narrativas ao elencar autores que estudaram essas histórias.

A HQ é algo primoroso, que se faz mais rica com essa segunda parte. Recomendo a leitura da entrevista que o blog Vitralizado fez com o autor.

Já li e reli. A forma como Brown interpreta a Bíblia, com uma visão que não se pretende definitiva nem totalmente pessoal, faz com que esta HQ cresça a cada passagem.

Claro, os mais céticos vão ter mais prazer com a leitura. Religiosos que topam o debate também. Agora, fervorosos vão gritar heresia. Afinal, Brown dá a entender que a Bíblia considera a prostituição como algo nobre, assim como muito do que disse Jesus.

Seja qual for a visão do leitor, o que resta é uma obra questionadora, séria e que encontra espaço para criar de forma original.

Trecho da história contada por Mateus

A arte de contar histórias

A editora Todavia está investindo em títulos com criatividade, além de romances e não ficção. Na coluna anterior, falei de “O Palácio da Memória”, coletânea de textos inspirados em podcasts de Nate DiMeo.

Em “Tudo que É Belo”, temos 45 textos que nasceram como histórias, contadas em eventos espalhados pelos Estados Unidos. The Moth (mariposa) é a organização que criou e gere essas contações.

Também virou podcast e atraiu a atenção de muita gente — Neil Gaiman assina o prefácio do livro, para contar como se encantou com o projeto.

As sessões envolvem anônimos e gente conhecida, que contam suas histórias em frente a uma plateia. Nos 45 textos selecionados para o livro, há muito mais pessoas ligadas às artes, como escritores, comediantes e atores, do que desconhecidos.

Mesmo assim, a reunião de histórias é impactante. Os textos foram lapidados para se adaptarem ao formato escrito, e o que emerge das páginas é um conjunto de sensações que transbordam o lugar comum.

Estamos diante de traumas, traições, histórias de sucesso e fracasso, consequências do acaso, sorte, azar, morte, sobrevivência. Histórias comuns e que não carregam o tom pomposo que poderíamos imaginar antes de começar a ler.

Impossível não pensar em qual história o leitor contaria em frente a uma plateia.

A tradução de José Geraldo Couto conseguiu boas soluções, mas a edição precisava de uma revisão mais apurada. Há vários erros, de português a palavras coladas. A editora vem fazendo um bom trabalho neste início de vida, mas neste título faltou a atenção devida.

Não compromete, mas incomoda às vezes.

O reencontro com o passado em “Laços”

Aldo e Vanda chegam em casa depois de uma semana de viagem e encontram tudo revirado. Sem saber o que aconteceu, começam a arrumar o apartamento. O que seria uma atitude prosaica e necessária depois de um acontecimento como esse se transforma numa espécie de acerto de contas com o passado.

Talvez acerto de contas seja um tanto reducionista em “Laços” (Todavia), do italiano Domenico Starnone. Aldo conduz a narrativa e perpassa suas memórias, que remetem a abandono da família, sucesso midiático e um relacionamento com uma mulher mais jovem.

Aldo se vê obrigado a rever essas histórias, como se tomado por impulsos intoleráveis, dos quais precisa se livrar. Starnone oferece ao leitor outras visões, mas essa vontade de rever traumas e arrependimentos, que provocaram cicatrizes que não se curam, cola no imaginário.

O autor monta o quebra-cabeças que se apresentou no início para dar forma à vida comum, cotidiana. E, como na vida comum, as peças se encaixam, mas com algum sacrifício.

Memórias do Vietnã

A tentação de comparar “O Melhor que Podíamos Fazer” (Nemo) com “Persépolis” (Companhia das Letras) é imensa. Mas a proposta reduziria o trabalho de Thi Bui, uma vietnamita que imigrou para os Estados Unidos e que nesta HQ revisita o passado de sua família.

Com traços delicados e detalhados, Bui revisita as origens familiares, a partir da guerra da Indochina, passando depois pelo conflito entre norte e sul, com a entrada dos Estados Unidos no conflito.

A família vivia no interior vietnamita, e o conflito não é apenas cultural, influência devida às guerras enfrentadas, mas também político. Ela vai aos avós maternos e paternos até chegar à sua própria história.

Marjane Satrapi reconta a história recente do Irã com um certo humor em seu “Persépolis” e insere alta voltagem política no recorte que faz. Já Bui olha com mais carinho ao passado, pois são para a família e suas transformações que seus traços apontam.

HQ memorável, “O Melhor que Podíamos Fazer” emociona, mas sem esquecer das atrocidades cometidas no país asiático — por todos os envolvidos. O trabalho de Bui é meticuloso e se aproxima de um relato jornalístico. Recomendo.

Prêmio Bravo! olha para as mulheres

Em 2017, o Prêmio Bravo! selecionou três autores para eleger o melhor livro do ano anterior: Daniel Galera, Evandro Affonso Ferreira e Carlito Azevedo. O júri, composto por três homens, ignorou solenemente três livros que eram infinitamente superiores aos indicados.

Elvira Vigna, Maria Valéria Rezende e Ivone Benedetti escreveram títulos mais sólidos, melhores e fundamentais para a literatura — o de Vigna, “Como se Estivéssemos em um Palimpsesto de Putas”, já é considerado como um dos grandes do século.

A revista eletrônica se fez de desentendida.

Agora, em 2018, a situação foi diferente. Deu o prêmio de melhor Evento Cultural para a Flip, cuja curadora, Josélia Aguiar, ampliou a presença feminina e negra na feira. Melhor filme: para Eliane Caffé. Os poetas Ana Martins Marques e Eduardo Jorge venceram como Melhor livro, por “Como se Fosse a Casa”.

Mais mulheres receberam prêmios, como se a Bravo! estivesse pedindo desculpas — e aí aquela velha e boa ação entre amigos volta a falar mais alto.

Para tentar esquecer de vez a aberração que foi a premiação do ano passado, Conceição Evaristo ganhou o prêmio Destaque 2017 na votação do público.

E assim ficamos todos de bem.

Conceição Evaristo é abraçada por Karol Conka, que comandou a cerimônia do Prêmio Bravo! | Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Objetos de desejos — e um que não quero

A lista é interminável — ainda bem. Nesta edição, destaco dois que namoro já faz um tempo.

O primeiro é a HQ “Sendero Luminoso”, de Luis Rossel, Alfredo Villar e Jesús Cossío. É o relato do período em que o grupo e o governo peruano travaram uma guerra.

Para permanecer no campo da não ficção, o segundo objeto é “O Túmulo de Lênin”, de David Remnick, editor da “The New Yorker” e dono de um dos melhores textos da atualidade.

No campo do “não, obrigado”: elogiado por Chico Buarque, que disse ter ficado “chapado” após ler o livro de estreia, e Antonio Prata, Geovani Martins virou sensação.

“O Sol na Cabeça” ganhou um selo na capa, iniciativa da Companhia das Letras: “O novo fenômeno literário brasileiro vendido para oito países”.

Bom, há de se esperar um gênio, mas eu tenho preguiça desses precoces, que não tiveram tempo para provar nada e já são alçados ao topo. Ajuda, nesse caminho, o elogio de figuras bem aceitas no meio literário.

A receita está pronta. Mas se a editora achou que esse é o melhor marketing, bom, para mim não funcionou. Li trechos do livro e achei fraco, como se fosse encomenda. Não me entusiasmou a levar para o caixa e trazer para casa.

Rodrigo Casarín, do blog Página Cinco, coloca as coisas no lugar.

Leituras e outras indicações

On-line: Na Zenda, 10 frases de Miguel Unamuno. Minha preferida: “Las lenguas, como las religiones, viven de herejías”.

On-line: Ana Paula Maia dá entrevista ao Nexo e fala sobre “Enterre Seus Mortos”, romance recém-lançado, literatura e feminismo. Ela prioriza o homem em seus livros, por isso, soltou: “Dificilmente um homem é questionado por escrever sobre  mulheres”. A ser lida, a entrevista e a autora.

Na TV: Looming Tower. Série baseada em “O Vulto das Torres”, de Lawrence Wright, o melhor livro que li sobre 11 de setembro. CIA e FBI se chocam nas investigações dos ataques terroristas a embaixadas dos Estados Unidos na África, anos antes dos aviões que se chocaram no World Trade. No livro, Wright investiga como a Al-Qaeda se formou aos olhos das agências de inteligência.

Nos alto-faltantes. A recente passagem de David Byrne pelo Brasil me levou a revisitar o Talking Heads. Tenho um carinho especial por “True Stories”, de 1986. Não é seu melhor disco, mas ouvi muito na época em que foi lançado. Mas, se tiver que eleger dois, fico com “77” e “Stop Making Sense”, que voltaram aos ouvidos.

Diálogos nas redes sociais

Dois amigos conversam sobre “O Mar”, de John Banville:

Ele: Gostei mais de pedaços do livro do que dele como um todo. Banville é um estilista, e isso dá um prazer danado de ler.

Ela: Verdade. Ele tem disso mesmo. Mas volte nele, dê uma chance para O Intocável. Eu gosto demais do cara, leio tudo que aparece dele.

Ele: É, acontece com você o que vem acontecendo comigo em relação a Michel Houellebecq. Fico procurando tudo do sujeito. Voltarei a Banville sim, claro.

Comprei “O Mar” por influência dela, mas ainda não li — o único Banville que já ultrapassei foi “Luz Antiga”.

Alta Fidelidade

Yasunari Kawabata é o meu autor japonês preferido. Li tudo o que está disponível no Brasil, um trabalho de qualidade feito pela Estação Liberdade — exceção a um título, publicado pela Globo.

Aqui vai meu top 5 de Kawabata, desta vez, em ordem de preferência:

  1. A Casa das Belas Adormecidas
  2. Kyoto
  3. O País das Neves
  4. Mil Tsurus
  5. O Lago
O escritor japonês Yasunari Kawabata, Nobel de Literatura de 1968

Uma abertura

“Muitas vezes na vida já fui chamado de traidor. A primeira foi quanto eu tinha doze anos e três meses e morava num bairro nos arredores de Jerusalém. Foi nas férias de verão de 1947, menos de um ano antes da retirada do Exército britânico e da criação do Estado de Israel, nascido em meio à guerra.

Certa manhã apareceram estas palavras na parede de nossa casa, pintadas em grossas letras pretas logo abaixo da janela da cozinha: Prófi Boguêd Shafél! (Prófi é um traidor infâme!).

A palavra shafél, “baixo, infame, desprezível”, despertou uma pergunta que ainda hoje me interessa, agora que sento para escrever esta história: será que é possível alguém ser traidor sem ser infame? Se não é possível, por que será que Tchita Reznik (reconheci a caligrafia dele) se deu ao trabalho de acrescentar a palavra infame a “traidor”? E se é possível, em que circunstâncias a traição não é infame?”

(“Pantera no Porão”, de Amós Oz)

*****

A primeira edição de Notas de um Leitor está aqui. A próxima sai no dia 21 de abril, feriado de Tiradentes. Até lá!

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2 comentários em “Notas de um Leitor — edição 2

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