Notas de um Leitor — edição 1

O tradutor que vasculha

No texto anterior do blog, disse que preferia seguir Daniel Dago no Facebook a ler as colunas sobre livros publicadas nos jornais, um apanhado sem graça de divulgação de compras de direitos e lançamentos, que transforma esses espaços em departamentos de marketing disfarçados de jornalismo.

Daniel Dago é tradutor de holandês, francês e inglês. Já converteu para o português títulos como “Contos Holandeses — 1839-1939 (Zouk). Ainda em 2018, saem mais dois livros traduzidos por ele: “Sobre Pessoas Velhas e Coisas que Passam” (Zouk), de Louis Couperus, classificado como o Tolstói da Holanda, e “Max Havelaar” (Âyiné), de Multatuli, o principal escritor daquele país.

No seu perfil no Facebook, Dago entrega um trabalho hercúleo, mas que é extremamente útil para o leitor: as pré-vendas de livros — um serviço muito mais eficiente do que aquilo que os colunistas fazem.

Por meio da frase “vamos tentar falar de coisa boa”, Dago divulga os lançamentos, com sinopse, nome de quem fez a tradução, capa e a data de início da pré-venda. É o melhor guia disponível hoje.

Ele conversou rapidamente com o blog sobre esse trabalho na rede social.

Por que você começou a divulgar as pré-vendas no Facebook?
Tem ligação com a Holanda. Gosto de ficar a par de todos os lançamentos holandeses no Brasil, compras de direitos autorais etc, sempre pesquisei muito sobre isso, há anos. Então, por tabela, eu acabava sabendo de lançamentos não holandeses. Comecei a colocá-los no Facebook meio de brincadeira e o pessoal foi gostando, a coisa foi crescendo. Eu mesmo fui gostando. Cresceu tanto que hoje algumas editoras me procuram para divulgar suas coisas, mas evito isso, só coloco o que gosto. Não recebo newsletter de ninguém. Não ganho nada com isso. Já me falaram para monetizar, tentar ganhar de alguma forma, mas eu não quero. No máximo, vou criando um nome. Alguns do meio editorial me consideram uma das pessoas mais bem informadas do ramo. Frequentemente, tradutores e até autores sabem da capa e data de lançamento de seus respectivos livros por causa das minhas postagens.

Sabe quanto tempo esse trabalho exige de você?
Hoje é muito mais rápido. Quando comecei, tinha que escavar muito mais. De tanta pesquisa, acabei aprendendo o modus operandi de cada editora. Sei que a editora Y lança tudo no dia tal de cada mês, que a editora Z lança primeiro na livraria X, que a editora H lança primeiro no seu site, e assim por diante. Não sei quanto tempo gasto, porque faço nos intervalos da tradução, durante o dia inteiro, mas, somado, imagino que seja algo em torno de uma hora por dia, talvez mais.

De onde vem o bordão “vamos tentar falar de coisa boa?”
A youtuber Gisele Eberspächer tem um canal bacana chamado Vamos Falar sobre Livros?. Eu sempre gostei desse título e tentei fazer uma homenagem. No começo, era só “Vamos falar de coisa boa?”, mas as coisas foram piorando tanto, em termos de acontecimentos no Brasil, que resolvi acrescentar o “tentar”.

Dos podcasts às páginas de um livro

Nate DiMeo é o autor de um dos podcasts mais famosos do formato, The Memory Palace (O Palácio da Memória). Nos áudios, ele conta histórias de anônimos, de forma a resgatar as suas histórias e encaixá-las na linha do tempo do desenvolvimento dos Estados Unidos.

O tradutor Caetano W. Galindo conta que ouvia seus podcasts em uma viagem quando teve a ideia de reunir esse material em um livro. Assim, nasceu “O Palácio da Memória” (Todavia), uma coleção de 50 podcasts que captam o melhor do trabalho de DiMeo.

Pode parecer uma proposta inusitada, transferir uma mídia para outra, mas o resultado, muito por conta da boa tradução, faz com que este livro seja um experimento imperdível.

Selecionei os 10 melhores textos do livro:

  1. Os irmãos Booth. Um resgate do irmão do assassino do presidente Abraham Lincoln
  2. Essas palavras, para sempre. Sobre as eternas ondas de rádio
  3. Algumas palavras para os responsáveis. O resgate da inuíte Minik Wallace
  4. Mitos de origem. O retorno à casa provoca lembranças
  5. Quatrocentas mil estrelas. De mulheres que contavam estrelas
  6. Esquecemos. Para lembrar de James Powell, um adolescente morto por racismo
  7. Zulu Charlie Romeu. A história de amor entre Mkano e Anita Corsini no fim do século 19
  8. O que bem entendesse. De Mary Walker, que trabalhou como médica na Guerra Civil dos EUA
  9. Nº 116842. Sobre a luta de Margaret Knight para registrar uma patente no século 19
  10. Um pintor na paisagem. Do esquecimento de um caso de amor

A repórter que foi à Amazônia

Elvira Lobato já sofreu perseguição dos líderes da Igreja Universal, depois que publicou uma reportagem na Folha sobre o império construído pelos evangélicos. Foi processada em dezenas de cidades espalhadas pelo Brasil, de modo a dificultar a defesa.

Ela também cobriu por muito tempo as telecomunicações no Brasil, especialmente no período da privatização.

Afastada do jornalismo diário, Lobato se interessou por um assunto que se revelou algo fantástico. As parabólicas que se espalham pela Amazônia Legal são a única forma de as populações se informarem. Em “Antenas da Floresta” (Objetiva), ela explica como uma série de brechas jurídicas permite a proliferação de canais locais, entregues a políticos e empresários, que negociam suas concessões a cada quatro anos.

Com isso, muitos acabam se transformando em jornalistas, para produzir programas informativos locais — os únicos, em várias das cidades da Amazônia Legal, área que compreende os Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Pará, Maranhão e Tocantins.

É uma reportagem que traz o Brasil profundo, que vive sem a informação produzida pelos grandes atores e que trabalha com regras informais próprias. Sem clichês, Lobato investiga esses canais e como os jornalistas produzem seus programas.

Leitura obrigatória para entender também como o jornalismo funciona à margem dos sindicatos e dos grandes centros.

A jornalista Elvira Lobato | Foto: Wilton Junior/Estadão

Objetos de desejo

Li muito pouco de Joan Didion. Depois de ter assistido a um documentário na Netflix sobre a jornalista, fiquei com vontade não só de reler “O Ano do Pensamento Mágico”, mas, principalmente, de ler “Slouching Toward Bethlehem”, sua coleção de ensaios.

E os contos de Kafka (“Blumfeld, Um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias”) e “Borges Babilônico: Uma Enciclopédia” ainda estão na lista de compras.

Joan Didion, autora de “O Ano do Pensamento Mágico”

Uma história de Kobane — parte 1

Patrícia Campos Mello é uma das melhores jornalistas em atividade no Brasil. Suas reportagens feitas em zonas de conflito conseguem escapar dos relatos tradicionais de guerra e trazer um pouco do olhar humano, em um texto fluente e muito bem escrito.

Jornalismo de guerra bem feito como poucos conseguem produzir hoje no Brasil.

Em “Lua de Mel em Kobane” (Companhia das Letras), ela conta a história de um casal de curdos que se conheceram pela internet na época da guerra que tomou conta de uma região cara aos curdos. O conflito envolvia a Síria, Turquia e Iraque, além do Estado Islâmico.

Kobane, no norte da Síria, tornou-se um marco da guerra, pois conseguiu varrer do mapa os fundamentalistas do EI — as mulheres tiveram papel decisivo nesse combate.

Mas a jornalista não se resume a contar a história do casal. No livro, estamos diante de um relato de guerra, mas sob um olhar de quem conta os bastidores. Há detalhes sobre as viagens dos familiares, de sua estadia como estrangeira, da herança curda e de como, claro, o casal se conheceu.

Entrevistei a jornalista para o blog do BRIO. “Eu estou menos interessada nas especificidades técnicas e bélicas de uma guerra do que nas histórias e da vida das pessoas. Me interessa saber como é a vida apesar da guerra”, ela me contou.

E seu livro trata exatamente disso, da vida apesar da guerra.

Uma história de Kobane — parte 2

Aqui, a pegada é outra. Estamos em Kobane, mas não há história de amor. O que surge aqui é uma história de resistência.

A HQ do italiano Zerocalcare é uma pequena obra-prima. “Kobane Calling” (Nemo), além de evocar o disco clássico do The Clash, vai à guerra como Joe Sacco.

É clara a influência de Sacco no trabalho de Zerocalcare. Ele se coloca na história como Sacco, sua perspectiva é semelhante à do autor de “Palestina — Uma Nação Ocupada”, seu traço não é totalmente divergente e o livro é em preto e branco.

Mas, ao contrário de Sacco, que abre pouco espaço para o humor, Zerocalcare explora esse gênero enquanto conta a história de sua viagem a Kobane, com um grupo de jornalistas.

Então, acompanhamos a equipe pela Turquia, Iraque, a região do Curdistão sírio rumo a Kobane. No caminho, a história vai se construindo em meio ao terror de enfrentar zonas controladas pelo Estado Islâmico.

Eles conhecem as mulheres que resistiram e enfrentaram os radicais, expondo conflitos que raras vezes aparecem na grande mídia — algo que Patrícia Campos Mello também faz.

Zerocalcare impregna o livro com bom humor — algumas passagens cansam, mas no fim o conjunto salta com força das páginas. Essa pegada mais leve conduz a trajetória de forma a aliviar a tensão que a equipe de jornalistas enfrentava na viagem.

Mas o relato cru, amparado nesse bom humor, faz com que o leitor não só encontre empatia, como também procure se encaixar de alguma forma em mais um conflito.

O final é desconcertante.

Ilustração da HQ de Zerocalcare

Na onda dos serial killers

A TV vem explorando bem esses assassinos seriais. Além da já clássica “Criminal Minds”, a Netflix lançou “Mindhunter” e “Manhunt”, duas pequenas joias.

O cartunista americano Derf Backderf fez diferente. Jeff Dahmer, um dos assassinos em série mais violentos da história, já teve seus crimes dissecados em livros, reportagens e documentários. Na HQ “Meu Amigo Dahmer” (Darkside), o autor revisita a adolescência do criminoso.

Backderf foi colega de classe de Dahmer no ensino médio americano, e é a essa época que ele retorna. Com mais dois amigos, formavam um grupo que se enquadrava como popular, enquanto Dahmer fazia o tipo esquisito que arrancava gargalhadas, o que o fazia se sentir parte da turma.

Em casa, a situação era de desalento. Pais distantes não perceberam as tendências de Dahmer, que também lutava contra sua homossexualidade violenta.

Backderf reconstrói o período imediatamente anterior ao primeiro assassinato. E é impressionante como ninguém, à época, percebeu o monstro que crescia na pequena cidade — é a conclusão do leitor e do autor.

“Meu Amigo Dahmer” já virou filme também.

Jeff Dahmer na HQ que reconstrói sua adolescência

Leituras e outras indicações

No papel: A Zoeira como Arte, na “Quatro Cinco Um” de março. A jornalista Graciela Mochkofsky acompanha a trajetória polêmica de “Salão de Beleza”, livro do mexicano Mario Bellatin que se tornou uma espécie de marco nas disputas por direitos autorais.

On-line: “Conrad me salvó la vida”, entrevista feita por Ana Mendoza com o escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez para a revista eletrônica Zenda

Na TV: Halt and Catch Fire. A série já acabou, foram quatro temporadas de altíssima qualidade. Trata, basicamente, de como a tecnologia que temos à disposição hoje nasceu e se desenvolveu. Começa na metade final dos anos 80 e avança por uma década. Da criação do laptop a um site de buscas, está tudo lá. As tramas são bem desenhadas, com personagens tão bem construídos que até parece covardia comparar com qualquer série da HBO. Não, não é coisa de nerd. É daquelas séries que se instalam ao lado de The Wire, Sopranos, Mad Men. Mais. A trilha é magnífica: Buzzcocks, Joy Division, James, Echo & the Bunnymen, Talking Heads e obscuridades do punk e pós-punk. Coisa fina e linda. Escrevi uma nota no Facebook, em que me aprofundo um pouco mais sobre a série.

Nos alto-falantes: Tenho ouvido muito um álbum pirata do Prince, “Transcendence”, uma coletânea de gravações ao vivo feitas com o artista somente ao piano. Ele comanda a plateia, que se encanta com as performances de clássicos como “Raspberry Beret” e “I Could Never Take the Place of your Man”.

Cameron Howe é quem guia a trilha sonora de “Halt and Catch Fire”

Alta Fidelidade

Li o livro de Nick Hornby em 1998, e sou seu devoto. Quando escrevi uma coluna sobre música para um jornal, já há algum tempo, sempre achava um jeito de colocar um top 5. E aqui não vai ser diferente.

Para estrear, um top 5 de Paul Auster, sem ordem de preferência (sorry, Nick):

  1. Mr. Vertigo
  2. A Trilogia de Nova York
  3. A Invenção da Solidão
  4. A Música do Acaso
  5. Leviatã

Como é coluna de estreia, deixo um sexto, “Cortina de Fumaça & Sem Fôlego”, os roteiros dos filmes dirigidos por Auster e Wayne Wang.

Diálogos do Facebook

Dois amigos conversam sobre Philip Roth:

Ela: “Patrimônio” é um livro inesquecível. Pequeno e majestoso!

Ele: Na minha modesta opinião, o melhor dele.

Ela: Também acho!

Não participei dessa conversa, mas coloco “Patrimônio” entre os três melhores do Roth.

Uma abertura

“Caso tenha esquecido, egrégio senhor, permita-me recordar: sou a sua mulher. Sei que antigamente isso lhe agradava e agora, de uma hora para outra, já começou a aborrecê-lo. Sei que faz de conta que não existo e que nunca existi, porque não quer fazer feio diante da gente culta que você frequenta. Sei que ter uma vida regrada, ter de voltar para casa na hora de jantar, dormir comigo e não com quem lhe dá na telha faz com que se sinta um cretino. Sei que você tem vergonha de dizer: vejam, me casei no dia 11 de outubro de 1962, aos vinte e dois ano; disse sim na frente do padre, numa igreja do bairro Stella, e o fiz só por amor, não porque precisasse me proteger; vejam, tenho minhas responsabilidades, e se vocês não entendem o que significa ter responsabilidades é porque são mesquinhas. Sei disso, sei perfeitamente. Mas, quer você queira , quer não, o dado concreto é este: eu sou sua mulher e você é meu marido, estamos casados há doze anos — doze anos em outubro — e temos dois filhos, Sandro, nascido em 1965, e Anna, nascida em 1969. Preciso mostrar os documentos para refrescar sua memória?”

De “Laços” (Todavia), Domenico Starnone

*****

A coluna é dinâmica, vai mudar, certamente. Comente, sugira, critique, mande um oi, em quaisquer dos canais do Capítulo Dois.

A próxima sai no dia 7 de abril. Até lá, quem sabe não surge um texto esparso por aqui 🙂

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9 comentários em “Notas de um Leitor — edição 1

  1. Ballarine,
    Entrei no blog e dei uma olhada geral para ter uma ideia. Primeira impressão: achei longo. Mas comecei a ler e, quando vi, tinha acabado, não tinha mais texto. E eu queria ler mais! Muito bons seus textos! Vida longa!
    Abraço,
    Carla

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Carla, obrigado pelo comentário! Bom saber sua opinião. A coluna ainda está em formação, por isso, a extensão pode sofrer mudanças – para mais ou menos, a depender de algumas sessões fixas e de temas quinzenais. Obrigado, obrigado!

      Curtido por 1 pessoa

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