Em “A Noite da Espera”, Milton Hatoum entrega um romance sobre a memória e paciência

Milton Hatoum voltou ao romance depois de um bom par de anos. Seu novo livro, lançado na metade final de 2017, abriu espaço para uma temporada mais prolífera na vida do escritor. Afinal, “A Noite da Espera” (Companhia das Letras) é a primeira parte de uma anunciada trilogia, chamada de O Lugar Mais Sombrio.

Aqui, estamos em Brasília, mas também um pouco em Paris, São Paulo, Santos, Goiânia e algumas cidades de Minas Gerais. Não há mais a Manaus de Hatoum, nem a herança libanesa se faz presente.

Existe Martim, um rapaz que começa o romance em Paris, nos anos 1980, lembrando de sua adolescência dividida entre cidades, no meio de uma relação conturbada de seus pais, que se separam na virada da década de 1970.

Ele não sabe o motivo, ele que já tem 16 anos — mas talvez essa idade, lá em 1970, não fosse uma idade que permitisse saber o que de fato acontecia na família. Ele só sabe que o pai resolve deixar a casa da rua Tutoia depois de falar e ouvir alguma coisa na última conversa com a mãe.

Tutoia que foi um ponto expressivo da repressão, da violência da ditadura — lá, havia um prédio do DOI-Codi, de lembranças dolorosas, assim como Martim tem a sua.

O pai resolve ir para Brasília, a capital que vive dias conturbados e esperançosos, por mais contraditórios que sejam. Afinal, às vésperas do pior período da ditadura, ainda havia uma expectativa positiva com a nova capital, jovem, recém-inaugurada, com espaço para crescer, mesmo que de forma não muito racional — o que de fato acabou acontecendo.

Em Brasília, o pai quer não só esquecer da mãe, mas também aproveitar o bom momento da capital para crescer profissionalmente, engenheiro que é.

Martim vai porque não havia alternativa. A mãe ficou com o amante, relação reprovada silenciosamente pelos avós maternos, santistas e que lamentam a perda de Martim.

Na nova capital, Hatoum escapa das descrições do tédio que a geração 1980 ouvia das bandas de rock que de lá surgiam. O autor coloca Martim no meio de uma turma que procura contestar por meio da arte, no caso, uma revista, numa época em que era difícil para a juventude ficar calada ou se manter isolada.

No grupo, há de tudo, filho de embaixador, político, pobre, esquecido, cada um com seu drama particular, todos convergentes ao momento em que viviam: há o medo da repressão.

Martim cai no grupo meio que por acaso, como sua vida o conduzia até ali — uma passagem do livro é exemplar, em que ele vai passear de remo no lago e dorme, só acordado quando chega às margens do Palácio do Alvorada, já sob a mira de armas.

Martim se ressente da falta da mãe, só presente por meio de cartas e falsas promessas de encontro. Martim alimenta a esperança do encontro, enquanto vai se distanciando cada vez mais do pai, que não vê problema nem obstáculo em deixar Martim desgarrado. O pai que se volta mais intensamente à direita, defendendo a intervenção militar.

Martim vai trabalhar em uma livraria de “subversivos”, enquanto a Brasília da época começa a se descortinar pelas páginas. Hatoum vai tecendo suas memórias — ele diz que este é seu livro mais autobiográfico — enquanto Martim vai intensificando suas frustrações afetivas.

É esta longa espera que marca o personagem por todo o livro. A espera da mãe, da namorada, da compreensão do pai, da palavra dos avós, dos livros, da fuga. “Nem tudo é suportável quando se está longe” é o mantra de Martim, longe do que mais lhe pesa, à espera, contraditoriamente, suportando.

“A Noite da Espera” tem pouco mais de 200 páginas, todas elas de capítulos curtos, narrados por um Martim exilado na França, lembrando da sua passagem por Brasília, por meio de relatos ou cartas. A crítica o classificou como “romance de formação”. Não importa.

Então, o romance se transforma em um grande livro sobre a memória, a saudade, daquela que a gente tenta entender sem saber o que sente. Mesmo quando tenta negar, não consegue escapar do tom saudoso (“Esta é uma família de sumidos e desgarrados, que não sentem saudades”). O final é seco, pois toca diretamente com o sentimento de quem sabe exatamente o que significa ter saudade — vem tudo recheado de melancolia, desesperança.

Hatoum, elegantemente, não deixa rastros para os próximos livros. Podemos esperar a continuação da história de Martim, ou um entendimento da vida da mãe, personagem tão marcante quanto ausente deste livro 1.

E nada disso importa, pois, ao acompanharmos a trajetória de Martim, estamos também na rota da paciência, a única coisa que faz o personagem se manter de pé, seja atendendo clientes na livraria, nas reuniões dos amigos para discutir a revista, nos conflitos com o pai, nos encontros frustrados com a mãe, na espera da namorada, na espera do ônibus na rodoviária.

Paciência.

*****

Milton Hatoum entrega um romance em que seu texto está mais solto, menos afeito às técnicas narrativas. Sem longos parágrafos descritivos ou fluxo de memória, o livro é formado por recortes de memória e cartas, em capítulos que às vezes não ultrapassam dez linhas.

É um Hatoum nunca visto antes. Igualmente poderoso, com grande poder de imaginação e criação de cenários. A Brasília que aparece nas descrições, ainda que empoeirada pelo tempo, é tão real mesmo para quem não a conhece.

Em textos curtos, frases cortadas e uma cadeia de pensamentos que privilegia o diálogo, o livro vai se construindo para o leitor com força, enquanto se descortina a vida de Martim até então.

O autor se restringe ao tempo de Brasília, apesar de o narrador, Martim, abrir o livro em Paris. A capital francesa não importa neste momento, ainda que o desenrolar gere um desejo de saber mais sobre o que o protagonista pensa sobre aquela época.

Hatoum não entrega. O livro não era sobre isso — pelo menos não este primeiro volume.

*****

Um erro passou batido pela revisão, que poderia ter sido evitado com uma consulta simples no Google. Numa carta a Martim, o Nortista, seu amigo de Brasília, rememora uma noite de 1969, quando a turma ouviu um disco de Lou Reed.

Algo impossível, pois Lou Reed só lançou seu primeiro álbum em 1972 — dois, na verdade, “Lou Reed” e “Transformer”.

Em 1969, era possível ouvir três discos do Velvet Underground, isso sim. Não muda nada na trama, mas ainda é um erro.

Anúncios

Um comentário em “Em “A Noite da Espera”, Milton Hatoum entrega um romance sobre a memória e paciência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s