De Carlos Heitor Cony, restam as memórias de seus livros

Faz muito tempo que não leio nada de Cony. Sua coluna na Folha me desencantou há uns bons pares de anos, e seus livros não despertaram mais meu interesse.

Voltei a pensar nele neste sábado, quando li a notícia de sua morte.

Fui ler Carlos Heitor Cony, pela primeira vez, tardiamente, por conta de todo o barulho criado em torno de “Quase Memória”, seu primeiro romance publicado após 22 anos de silêncio. Lançado em 1995, cheguei a ele quando estava nos meus primeiros anos de Belo Horizonte, lá em 1997 ou 1998.

Comprei, confesso, impulsionado pelas leituras e críticas que ainda surgiam quase três anos depois do lançamento.

E aquele livro me impactou de tal forma que lembro que tive que, depois de terminá-lo, sair para comprar o que encontrasse pela frente. Vieram “O Ventre”, “Pilatos”, “Informação ao Crucificado”, “Matéria de Memória”, “Pessach”, “Antes, o Verão”, todos anteriores a “Quase Memória”, e “A Casa do Poeta Trágico”, que me causou a primeira decepção.

Li outro livro pós-“Quase Memória”, “Romance sem Palavras”, e, novamente, não me entusiasmei. Deixei de ler Cony, seus romances.

Abri espaço, então, para suas crônicas, reunidas nos livros “Posto Seis”, “O Harém das Bananeiras” e “O Ato e o Fato”, um portentoso documento contra a ditadura militar com textos publicados durante o regime.

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony

O texto de Cony marcou profundamente uma época da minha vida — li todos esses livros num recorte de tempo que dura no máximo dois anos.

Da mesma forma que chegou, Cony se foi. As decepções me fizeram desistir de continuar em seus livros, enquanto ele continuava a publicar romances, contos e crônicas.

Seu texto na página 2 da Folha me interessou por um tempo, mas sua autodepreciação acabou me cansando. Deixei de frequentá-lo, para voltar a ele vez ou outra.

Cony também se foi da minha biblioteca. Emprestei todos os meus livros a um colega, depois de uma conversa com ele sobre autores, livros e afins. Disse que ele iria ler um atrás do outro. Não sei se foi dessa forma, mas sei que nunca mais vi meus livros. Eram dias turbulentos, e a minha volta a São Paulo fez com que eu deixasse os livros por lá, sem resgatá-los

Esta é a primeira vez que Cony aparece neste blog. Lamento que o motivo tenha sido a sua morte. E lamento que meus livros não estejam mais comigo neste momento. Gostaria muito de folhear “Quase Memória”, as crônicas de “O Ato e o Fato”, “O Ventre” — talvez seu romance mais portentoso, uma estreia vigorosa.

Restam as memórias de suas leituras, o prazer em descobrir uma literatura tão forte e necessária.

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2 comentários em “De Carlos Heitor Cony, restam as memórias de seus livros

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