Da biblioteca de casa, Entre parêntesis

Um retorno um tanto confuso, dominado pela insônia e sem muita lógica

Não é diária, mas também não é rara.

A insônia chega de surpresa, mesmo depois de eu ter recebido todos os sinais de que iria dormir — cansaço, bocejos, pescadas. E vem com tudo o que se espera dela: uma certa impaciência, devaneios, olhos abertos e um leve desespero por ver as horas caminharem, sem solidariedade.

Posso desconfiar dos motivos de a insônia me abater e compreendo, sou talvez a vítima perfeita.

Depois de tentar enfrentá-la — e ela não seria insônia se não houvesse um combate —, nas primeiras vezes, me dirigia à sala para tentar forçar o sono assistindo ao catálogo da Netflix, séries já vistas e revistas, mas cujo conhecimento poderia despertar o conforto necessário para que o sono enfim surgisse.

Não foram todas as vezes que essa tática deu certo, nem quando ela foi necessária para aplacar uma dor que me levou ao hospital às 3h da madrugada.

Me perguntava, todas as vezes, por que não conseguia abrir um livro, para aliviar os efeitos da insônia. Este ano não tem sido frutífero, certamente foi o período em que menos li nos últimos, sei lá, 10, 15 anos — talvez mais ainda.

Mas eu não podia descartar a força da leitura para acalmar ânimos e reduzir a velocidade do cérebro. Nem que fosse para deixar os olhos longe de luzes.

E lembrei, em uma dessas noites que se prenunciavam como longas, de uma pérola do Alberto Manguel, “A Biblioteca à Noite” (Companhia das Letras), livro em que o autor, hoje diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, conta passagens das noites em que tentava arrumar as estantes de sua biblioteca particular, num vilarejo no interior da França.

Parte da biblioteca de Alberto Manguel

Entre conversas com livros e escritores, ele narra os encontros com velhos amigos e histórias, uma espécie de inventário de memórias de um leitor. Ao pegar livros por acaso, resgatava aquilo que vinha à sua lembrança.

Fiz diferente, mas inspirado por esse passeio noturno de Manguel. Minha biblioteca, uma infinitésima parte daquela que o escritor mantém, está relativamente em ordem, sem grandes sobressaltos em sua estrutura. Não era a ordem que procurava naqueles curtos passos.

Passeei por seu pequeno espaço em algumas noites, olhando lombadas e tirando o pó de alguns exemplares, com as mãos. De alguns, vasculhava suas páginas, para relembrar as marcações. Empilhava outros pensando em algum texto que poderia escrever. Tirei um ou outro das estantes para levar  ao quarto e tentar engrenar uma leitura que acalmasse a fúria.

O efeito, até recentemente, era cruel. Bastava deitar e logo o livro me desinteressava. Ficava lá, desprezado, ao lado de leituras interrompidas há alguns meses (nessa situação, encontram-se “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, e “A Guerra do Fim dos Tempos”, de Graeme Wood, sem contar a versão eletrônica de “Manual da Faxineira”, de Lucia Berlin; todos iniciados e, até agora, abandonados).

Mudei a tática e resolvi enfrentar a biblioteca digital, disponível no Kobo que repousa no criado-mudo. Algumas dezenas de livros estão lá sem serem percorridos. E resolvi encarar um que fazia tempo que queria ler: “E Não Sobrou Nenhum” (Globo), de Agatha Christie.

O efeito foi imediato. Logo na primeira noite, consegui avançar por quase 30% do livro até o sono chegar  — e tive, de forma meio inconsequente, de protestar contra ele, mas rendido. Esse é o livro que me recolocou no rumo novamente, imaginava.

Se antes não conseguia engrenar as leituras antes do sono e nem durante a insônia, agora me parecia que seria possível. Não foi simples, mas também não se revelou um tentativa frustrada. Pulando um dia ou outro, avançava tranquilamente pela história que consagrou a escritora britânica. Até chegar ao seu fim.

Pensei que enfrentaria uma ressaca, pois, após encerrar o clássico de Agatha, não conseguia voltar àqueles que estavam estacionados — Atwood, Berlin, Wood. Olhava para eles e nada me inclinava para buscá-los.

Tal como um velho treinador de prancheta das várzeas, repeti a tática que deu certo anteriormente e voltei ao Kobo. E encontrei “O Quarto Azul” (Companhia das Letras), de Georges Simenon, outro livro do escritor belga sem o comissário Maigret. Já havia lido com prazer “A Neve Estava Suja” e guardava este novo na lista das prioridades policiais. Ao passar por ele, nem titubeei.

Assim como aconteceu com o livro de Agatha, avancei bem pela primeira noite, mas não consegui voltar. E, na última insônia, não dei chance para ela rir da minha cara ao me ver rolando de um lado para o outro. Ao primeiro sinal de que não conseguiria dormir, não pensei no Kobo e fui à biblioteca — hoje, ele faz par ao seu colega digital da Lucia Berlin.

Vasculhando suas estantes, puxei uma pequena raridade do meu acervo, adquirida lá em 1997, há 20 anos, logo na chegada à Belo Horizonte, por onde ficaria sete anos. Trata-se de uma coletânea: “A Primeira Antologia — 30 Anos do The New York Review of Books”, lançada pela Paz e Terra.

Esgotado na editora, nem aparece nas buscas das principais livrarias — na Estante Virtual, constavam cinco exemplares, com preços entre R$ 14 e R$ 35.

O livro é uma delícia, com textos de Auden, Susan Sontag, Bruce Chatwin, Joseph Brodsky, Oliver Sacks, Joan Didion, Gore Vidal e Primo Levi, entre outros. Ficcionais ou não, os textos primam pela excelência. Mais até do que uma viagem, o livro proporcionou o prazer do reencontro, com histórias que tinham sido lidas há duas décadas e voltavam aos poucos, à medida que avançava nas páginas.

Esse livro, tenho que confessar, foi o que me motivou a escrever este texto, longo, confuso e permeado de mais confissões.

Ele ficou ao meu lado por mais duas noites. Não li toda a seleção, mas não precisava. Ele já tinha me proporcionado mais do que precisava naquela madrugada.

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4 comentários em “Um retorno um tanto confuso, dominado pela insônia e sem muita lógica”

  1. Não poderia deixar de saudar a volta, ainda que titubeante, do Capítulo Dois. No meu caso, 2017 está sendo um ano prolífico em leituras. Tenho essa Primeira Antologia também, um dos últimos livros que comprei em São Paulo, pouco antes da volta, e lembro de ter lido boa parte embora não lembre mais de nada. Só uma coisa me deixou preocupado: a tal dor que motivou uma ida ao hospital. Se cuide, meu amigo. Quero (e estou longe de ser o único) ver você bem sempre.

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