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Uma crônica bissexta sobre alguns livros

Já faz mais de um mês desde a última postagem neste blog, um canal que vem titubeando neste 2017. A frequência é tão irregular que talvez passe a impressão de fim. Ao mesmo tempo em que os textos rareiam, não posso dizer que acabou.

Enxergo motivos para tal cenário — do fim —, e muitos deles não cabem neste espaço. Não é o caso, também, de fazer uma lista dos fatos que me levaram a cair nesta encruzilhada. De qualquer forma, pouca coisa vem me entusiasmando nos últimos meses. Até autores incensados me causaram profunda decepção, como Paul Beatty, uma das estrelas da última Flip e autor de “O Vendido” (Todavia).

Houve muita hype em torno dele. Começou pela editora, novata, de ex-editores da Companhia das Letras. Já era saudada como um marco antes mesmo de ter um título divulgado. Confesso que tenho extrema preguiça desse tipo de comportamento de quem cobre literatura e do povo que vive em torno de livros, essa babação desconexa, exagerada, boba, simplesmente.

Tal qual uma Rádio Londres, mas, ah, essa é outra história, o leitor contumaz do blog sabe do que estou falando

Então, voltemos a este “O Vendido”, uma distopia de raça que usa da sátira para tratar da discriminação contra negros. Venceu o Man Booker Prize — o primeiro americano a ganhar o prêmio inglês — e foi considerado como um dos grandes livros dos últimos anos.

Como disse a “Folha”, ele lança uma sátira cáustica sobre os Estados Unidos apartados, por meio da história de um homem que vira proprietário de um escravo idoso, Hominy. Importante dizer, e isso o livro pontua, que Hominy se torna escravo por vontade própria e age como se estivesse na América dos assentos para brancos e negros.

Então, ele vai destilando sarcasmo e bom humor para destrinchar essa história. As primeiras cem páginas são monumentais, mas depois o livro se tornou o melhor remédio para insónia dos últimos anos.

Como também aconteceu com outra autora que esteve na Flip, a sul-africana Deborah Levy. Pedi uma indicação para a curadora da Flip, Josélia Aguiar, e ela me sugeriu “Nadando de Volta para Casa” (Rocco), livro do ano pelo “New York Times Book Review”. Indicada ao Man Booker Prize, ela conta a história de vários personagens que circundam uma piscina de uma casa na Riviera Francesa.

Li muitos adjetivos sobre o livro, a autora e a trama, mas, igualmente a “O Vendido”, Levy e sua obra me causaram profunda decepção. Como contraponto, vou lançar um adjetivo também para definir “Nadando de Volta para Casa”, pois não sou crítico literário e me permito abusar de recursos menos nobres: pretensioso.

Adjetivo que fica longe de ser aplicado a “Múltipla Escolha” (Tusquets), do chileno Alejandro Zambra, autor já entrevistado pelo blog. O escritor está construindo uma obra coerente e reflexiva, uma das mais importantes da América do Sul.

Este é seu quinto livro lançado no Brasil. Como os outros, “Múltipla Escolha” é curto (pouco mais de 100 páginas), só que este sugere infinitos caminhos para a leitura, que acaba se desdobrando tal como um “Jogo de Amarelinha”, de Cortázar. Zambra propõe uma leitura baseada em um teste semelhante ao vestibular, no caso do livro, a Prova de Aptidão Verbal, exame aplicado no Chile de 1966 a 2002.

A política chilena, e falamos aqui dos anos duros de Pinochet no comando do terror, emerge com força máxima dos exercícios propostos por Zambra — este é o livro mais forte sobre o tema que o autor escreveu. A ditadura sempre esteve de alguma forma presente na sua obra, mas aqui ela ganha contornos mais vívidos ao propor inventários que alcançam o cotidiano dos chilenos à época.

A melancolia, em algumas questões, é insuportável, assim como a indignação. Certamente, é um dos livros do ano.

Ainda na categoria dos que valeram as horas dedicadas, está o terceiro volume da saga “O Árabe do Futuro” (Intrínseca), HQ do cartunista Riad Sattouf. Neste, acompanhamos o período de 1985 a 1987, quando, pouco antes de entrar na adolescência, ele começa a frequentar a escola na Síria.

Seu pai insiste em permanecer no país, enquanto sua mãe quer voltar para a França. O conflito começa a se instalar de forma mais clara e vai refletir nos passos seguintes da famílila. É uma crônica extremamente bem humorada e que leva para o leitor um olhar crítico e carinhoso sobre o pai, dividido entre a religião, costumes familiares e sua ideologia e a própria família.

Escrevi no blog sobre a parte 1 e a parte 2. O fim deixa aberta a porta para um quarto capítulo. É uma bela aposta da editora, que poderia caprichar mais na edição, que não tem nem texto na orelha.

Foi leitura compulsiva, daquelas que terminam no mesmo dia, assim como “Comer Animais” (Rocco), de Jonathan Safran Foer — apesar de este não ter sido leitura de uma noite só. Misto de ensaio com reportagem, o livro narra com detalhes cruéis, em muitos casos, como é feito o abate de animais para produção de carne nos Estados Unidos.

Foer não tenta convencer ninguém a ser vegetariano como ele, o que já é algo a ser comemorado. Afinal, nada mais chato do que um livro doutrinário. Suas descrições conseguem, em alguns casos, até carregar um bom humor, sem apelações.

No fim, o que resta ao leitor, é uma sensação amarga de que o sacrifício dos animais não vale o prazer de saborear um corte de carne.

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2 thoughts on “Uma crônica bissexta sobre alguns livros”

  1. Muito bom ver uma nova postagem por aqui! ;D
    Sobre “O Vendido”, eu fiquei interessado em ler o livro e foi bom ter uma perspectiva crítica diferente do mesmo, já que todo mundo anda elogiando…

    Comecei a ler o “A vida privada das árvores” do Zambra, mas não me encheu os olhos e desisti. Vou tentar lê-lo novamente pra, quem sabe, ler outras coisas dele.

    O que você tá achando do “Guerra e Paz”? Chance de termos breves notas sobre ele aqui no blog? hehehehe

    Abraços

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    1. Pois é, Mozart, aconteceu a mesma coisa comigo quando li o livro do Zambra pela primeira vez. Deixei ele quieto por uns dias e voltei. E aí veio potente.

      Sobre Guerra e Paz, é uma leitura, como poderia dizer, sem destino. Ela começou, mas sabe-se lá quando vai terminar. Vou lendo outras coisas em paralelo, mas acho que vai demorar muito para chegar ao fim. Mas, certamente, quando terminar, pretendo escrever sobre Tolstói.

      Grande abraço

      Curtido por 1 pessoa

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