Entre parêntesis

Um blog em busca da reinvenção

Há exatos quatro anos, eu inaugurei este blog. Era uma tentativa de ocupar um espaço na rede, pequeno, infinitesimal, mas que daria voz a um exercício: escrever sobre livros.

Por cinco anos, de 2007 a 2012, eu mantive outro blog, Verbo Transitivo, desativado e trancado. Nele, havia espaço para livros, filmes, séries, música, devaneios e opiniões. Chegou um momento em que aquilo se esgotou.

Este Capítulo Dois vem cumprindo seu papel, de acordo com o planejado desde 2013. Nunca imaginei um público grande, nunca trabalhei para isso. Não impulsionei publicações nas redes sociais, não me preocupei com escaneabilidade do texto, palavras-chave, SEO.

Tampouco me preocupei em agradar editoras, tal qual outros blogueiros que viraram críticos de grandes jornais traçando um caminho meio obscuro. Isso desanima, pois sou, antes de autor deste blog, leitor de jornais e revistas, em qualquer plataforma. E sei que encontro nesses textos assinaturas que construíram um caminho duvidoso. Não leio o que escrevem, pois não sei se estão falando em nome de editoras ou expressando uma opinião. Mas isso fica para outro post.

Mantenho uma página no Facebook, para divulgar os posts publicados e, eventualmente, compartilhar informações sobre literatura.

Sei que tenho alguns raros leitores fiéis, e quase todos eles me incentivam a continuar com o blog. Durante esses quatro anos, estabeleci um bom diálogo com eles e escritores entrevistados pelo blog. Surgiram novas relações, com pessoas que compartilham interesses.

Quando 2017 começou, o recesso, que normalmente ocupa as semanas das festas de fim de ano e mais alguns dias de janeiro, se prolongou por mais tempo. Afora questões pessoais, eu não encontrava um rumo para escrever. Não sabia o que, como e por onde.

O tempo foi passando, o recesso tomou janeiro e fevereiro inteiros. No início de março, voltei a publicar, sem ainda uma ideia de como prosseguir com regularidade. Abria uma possibilidade de manter o blog por mais tempo, sem descartar a ideia de desistir e encerrá-lo.

Desde então, há uma tentativa de deixá-lo firme, ativo, coerente. Mas novamente me pego numa encruzilhada, sem saber o que escrever. Há ótimos livros que li nos últimos meses e que não ganharam espaço por aqui. Em julho, foram apenas duas postagens, uma queda que se acentuou depois dos meses anteriores, já titubeantes.

Tanto que a maior parte das postagens deste 2017 foi tomada por Notas de Leitura, um texto que reúne três livros em três pequenos comentários. Não havia força física ou justificativa intelectual que fizesse transpor a ideia para o tela em branco, em um texto maior.

Eu estava como nove livros à espera de alguma inspiração ou vontade para levá-los ao blog. O tempo foi passando e leituras acumuladas por meses foram me incomodando. Podia simplesmente deixar de lado. Mas o que pegava, na verdade, era o fato de existir um espaço, nesse período, não ocupado.

Os livros ficaram empilhados na mesa. Era um pequeno momumento que mirava meus movimentos diariamente.

Falo, por exemplo, de “A Fome” (Bertrand Brasil), um estupendo ensaio do argentino Martín Caparrós, que percerreu o mundo para retratar como países, comunidades e empresas tratam essa questão. São relatos duros, narrados pelo fígado do autor. Um livro tão forte que demorei um ano para terminá-lo. Passou batido pela imprensa e pelos blogs.

Li também, e gostaria muito de ter escrito sobre eles, dois livros do espanhol Javier Cercas: “O Ventro da Baleia” e “Anatomia de um Instante“, ambos da Biblioteca Azul. O primeiro é da fase inicial do escritor, uma obra em que as situações narradas não nos convencem muito, mas cujos estudos de personagens são primorosos. Já havia ali a predileção para entender o humano, que chega a um ponto alto no segundo livro.

“Anatomia” trata do golpe aplicado na Espanha em 1982, um ensaio narrado como romance. Esse é um exercício que Cercas aplicou em “O Soldado de Salamina” e “O Impostor”, todos com resultados impressionantes. Estes três livros deveriam fazer parte dos cursos de jornalismo.

Passei por mais um espanhol nesse tempo — esse mergulho na literatura espanhola daria um bom tema de post, mas que nunca consegui formatar.

Depois de muito tempo na fila de espera, tirei da estante “Os Enamoramentos” (Companhia das Letras), de Javier Marías. Esse é um autor que sempre me exigiu muito. Tentei passar pela trilogia “Seu Rosto Amanhã”, mas empaquei no primeiro volume (“Febre e Lança”) e nunca mais tentei.

Tenho vontade de ler “Assim Começa o Mal”, mas a experiência com “Os Enamoramentos” confirma que talvez este seja um escritor que não funciona na minha sintonia. O começo é primoroso, com a história da jovem que observa um casal diariamente num café até descobrir o porquê do sumiço deles. Da metade para frente, o livro cansa, se arrasta, aparentemente sem rumo.

Retomando a não ficção, a Companhia das Letras foi feliz no lançamento de “A Árvore de Gernika“, do sul-africano de nascimento George L. Steer. Jornalista, viveu boa parta da sua vida na Inglaterra. Este livro-reportagem trata da Guerra Civil Espanhola, vivenciada pelo autor. A obra faz parte da coleção Jornalismo Literário, apesar de não ter um texto que se aproxime do gênero. Suas histórias sobre os avanços alemães, os destroços da guerra e questão da identidade do País Basco, entretanto, transformam o livro num monumento da não ficção.

Outro bom exemplo de não ficção é “Prisioneiras” (Companhia das Letras), a terceira parte da trilogia sobre o sistema carcerário escrita por Drauzio Varella — as anteriores são “Estação Carandiru” e “Carcereiros”. Aqui, ele retoma o modelo do primeiro livro para contar as histórias das mulheres que vivem atrás das grades.

Mesmo com a proposta de dar voz às mulheres, o livro não consegue deixar de lado o papel masculino, tão essencial para a construção das personagens e da vida delas. Livro importante para entender o Brasil.

Para ficar ainda no gênero, “Virada no Jogo” (Intrínseca) é daqueles livros que você pode percorrer numa noite só, apesar das suas 460 páginas. Escrito pelos jornalistas norte-americanos John Heilemann e Mark Halperin, o livro refaz o caminho das eleições dos EUA em 2008 para mostrar como Barack Obama chegou à Presidência.

Com histórias saborosas de bastidores, que recuam até as primárias do ano anterior, e narrado em ritmo vertiginoso, o livro é um exemplo do quanto falta para o jornalismo brasileiro amadurecer — e a classe política também. Os autores revelam disputas intestinais entre Obama e Hillary Clinton e depois entre o futuro presidente e John McCain. Esta foi das leituras mais prazerosas do ano.

Para fechar a lista de leituras, dois autores brasileiros. A primeira é Maria Valéria Rezende, de quem percorri “O Voo da Guará Vermelho” (Alfaguara), com a história de Rosálio e Irene. Descobri a escritora recentemente, e este é o terceiro título que leio da sua bibliografia. Aqui, neste seu primeiro romance, o passado dá as cartas na vida das suas personagens, um tema que vai rondar seus livros posteriores. É uma autora que precisa ser lida.

Por último, é necessário abrir um parêntesis neste longo texto, pois tenho relação indireta com o livro. Reli as crônicas de “Erguer e Destruir” (Penalux), do jornalista Paulo Sales, companheiro de velha data. Sou o autor do prefácio do livro, por isso, desconfiar da minha opinião é um ato bem-vindo. Mas não vou omitir que os textos são uma bela reflexão de um autor em relação a fatos cotidianos. Além disso, seus textos memorialísticos dialogam abertamente com qualquer leitor.

O texto ficou longo, mas era necessário colocar um ponto final nestes livros que se somam na mesa, à espera de encontrar espaço no blog. Isto foi o que consegui, pois não queria adiar mais.

Como jornalista tem mania de efemérides, este 29 de julho me pareceu uma data perfeita para fazer o balanço e dizer que o blog precisa se reiventar para continuar. Não sei o que pode ser feito, mas é fato que não é possível continuar como está — pois quase não está.

As postagens podem ficar raras, como já estão, enquanto busco uma alternativa para dar sequência ao Capítulo Dois. Foi a solução que encontrei, provisoriamente, para não encerrá-lo.

Se vou encontrá-la, prefiro não apostar. Posso dizer que estes quatro anos me fizeram muito bem.

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4 thoughts on “Um blog em busca da reinvenção”

  1. Acompanho seu blog faz alguns meses somente, mas já conheci vários autores novos. Falo por mim: prefiro ter uma postagem esporádica, mas com conteúdo, do que não ter mais nenhuma. Não se cobre tanto.

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  2. só espero que o blogue não decline. é um dos poucos que ainda não misturam política – a partidária, a baixa, a nojenta – com literatura e só isso é um alento.

    é isso. seja firme.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Não está nos planos entrar nesse maniqueísmo. Sobreviver falando de um assunto só, livros, neste caso, já é difícil, incluir outro, qualquer que seja, tornaria inviável a manutenção. Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Já tem muita gente falando de política por aí.

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