Brasil, Entrevista, Memórias

Luiz Fernando Vianna: “Dar a cara a tapa me parece importante em obras pessoais”

“Meu Menino Vadio” é daqueles livros que você começa a ler e não para até chegar à última página. História da relação do pai com seu filho que tem autismo, a obra do jornalista Luiz Fernando Vianna transborda sentimentos e não deixa o leitor imune a eles.

Gana, raiva, pena, solidariedade são algumas das sensações que saltam a cada página. A narrativa é cruel, sem receios ou vergonhas de expor fatos pouco lisonjeiros. Mas se engana quem espera encontrar sentimentalismos baratos ou aforismos de autoajuda.

O capítulo de abertura descreve um telefonema da mãe de Henrique a Vianna e culmina com a viagem dela e de seu novo marido para a Austrália, levando o filho, já diagnosticado com autismo, sem autorização ou conhecimento do pai.

O autor então retrocede para contar como ele chegou a essa situação. Descreve as tentativas de diagnóstico de Henrique e os périplos por médicos e especialistas elevaram a tensão dos pais, ainda mais que não encontravam resultados nos tratamentos. Enquanto isso, o filho demonstrava cada vez os sintomas do autismo.

Ao chegar no dia da viagem de Henrique, sem ter conhecimento dos planos da ex-mulher, Vianna já havia passado por tormentos, que aumentariam a seguir. Advogados e viagens minariam a comodidade financeira, o que o levou a outros problemas, narrados com intensidade.

A referência para escrever “Meu Menino Vadio” veio de “Aonde a Gente Vai, Papai?” (os dois da Intrínseca), de Jean-Louis Fournier. Para Vianna, a história do seu filho “merecia ser compartilhada com outras pessoas, até para que o autismo seja mais conhecido”. Por isso, “o livro se impôs como o meio mais adequado”.

Luiz Fernando Vianna é jornalista com passagens pela “Folha” e “O Globo”. Hoje, coordena a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles. Já escreveu livros sobre o samba, João Nogueira e Aldir Blanc.

O jornalista Luiz Fernando Vianna
O livro de Luiz Fernando Vianna me fez lembrar de “A Noite da Arma”, de David Carr. São narrativas diferentes, mas que revisitam o passado e os problemas que enfrentaram e causaram. A sinceridade empregada em ambos os textos transborda das páginas com um vigor que emociona. E não pense o leitor que vai encontrar um pedido de clemência ou uma justificativa pelo que os dois autores fizeram. Muito menos terá pela frente a queda pela piedade.

Pelo contrário. Os dois autores abrem a caixa para expor fragilidades com coragem, sem armadilhas por trás da narrativa. “Não vejo como poderia fazer um livro sincero sobre meu filho sem me expor. Henrique se tornaria uma espécie de objeto observado por um sujeito pairando sobre a realidade. Minha vida é a vida dele, nossos problemas se complementam”, diz Vianna, em entrevista ao Capítulo Dois.

O que pode surgir então é um questionamento: por que abrir uma históra tão particular, num momento em que todos são especialistas e o tribunal da internet é implacável? “Eu quis que fosse um livro sincero e, até por isso, sabia que eu poderia ser alvo de críticas por expor meu filho. Dar a cara a tapa me parece importante em obras pessoais”, afirma o autor.

A percepção de que o livro exigiu coragem não incomoda Vianna. Ciente de que era preciso uma catarse para chegar ao objetivo, ele não poupou segredos e situações que facilmente seriam condenáveis num tom mais superficial, como rejeição e raiva. O leitor raramente fica imune ao texto, mas saber reagir cabe mais a quem está de frente às páginas do que a quem escreveu. “Acho que falar dos erros que eu cometi pode ser uma forma de os eventuais leitores também refletirem sobre as próprias vidas. É bom quando os livros nos permitem fazer isso.” Vianna é preciso.

Em “Meu Menino Vadio”, estão expostas situações de alcoolismo, traições, problemas financeiros, a incomunicabilidade com o filho, o questionamento da paternidade. Culmina com o anúncio pessoal, de alguém que está morando na casa da mãe depois dos 40. Essa autodepreciação do anúncio era necessária, para Vianna, para que ele pudesse entender o caminho que o levou até aquela situação. No momento da leitura, a primeira impressão resvela no humor, que se dissipa logo em seguida, para entregar uma melancolia imensa. Tal qual um choque térmico. “Eu gostaria que o humor ficasse mais ressaltado, porque ele está lá. Mas acho que minha melancolia foi mais forte e suplantou o humor, infelizmente. E a autodepreciação é um traço meu, não forcei. Não deixa de ser uma forma de vaidade, acredito, porque falar mal de si mesmo é uma forma de cabotinismo. Ainda assim, é sincero.”

Da mesma forma que a autodepreciação surge naturalmente para Vianna, como um componente da narrativa e do autor, o arrependimento não faz parte do vocabulário do livro. “Arrependimento é um sentimento inútil, não refaz as coisas destruídas. Gostaria de não ter feito mal às pessoas, inclusive meu filho, mas não tenho como recuar no tempo.”

Se não há pelos fatos, não há pelo livro também: “Arrependimento pelo que escrevi no livro, até agora não. Fiz o que achei que devia fazer.”

Hoje, Henrique continua sua vida nômade, agora entre os Estados Unidos e o Brasil. Vianna viaja em janeiro para buscar o filho, que passará o ano de 2018 na casa do pai. O medo do futuro ainda permeia a vida do jornalista. “Como digo no livro, é uma alternância nociva para ele. Mas não posso modificá-la sozinho.”

Depois de enfrentar o despreparo de especialistas em relação ao autismo, Vianna diz que a situação no Brasil melhorou desde o início da busca por um diagnóstico de Henrique (de 2002 a 2004). Apesar da percepção de melhora, ainda há problemas que prejudicam pais e filhos. “Autismo é um assunto mais comentado na imprensa e pelas pessoas em geral. E os médicos estão um pouco mais atentos. Ainda assim, continuo ouvindo relatos sobre pediatras que subestimam a preocupação dos pais. Essa ignorância é terrível. No país, graças ao empenho dos pais, foram aprovadas leis que preveem direitos para pessoas com autismo. Mas parte das escolas, todos os planos de saúde e as instâncias de governo continuam lutando contra.”

*****

“Esta não é uma história de mocinho e vilão. Henrique não é vítima de um destrambelhamento unilateral, mas de duas pessoas com fraturas psíquicas e de caráter. Esse encontro geológico não deveria ter acontecido. Mas, se aconteceu, foi exatamente por causa das fraturas, da dificuldade de ambos para julgar o que é certo ou errado.”

“O discurso da benção costuma descambar para o da superação, esse conceito que a imprensa, sobretudo televisiva, transformou em um pegajoso clichê. Exaltam-se as vitórias individuais, aquelas que ocorrem contra tudo e todos, como se bastasse força de vontade para conquistar qualquer coisa. Fica parecendo que cuidar de um filho com autismo é um sacríficio que fazemos. Qual seria a alternativa? Entregá-lo a um orfanato após receber o diagnóstico? Sou pais da mesma forma que milhões de pessoas são. Nem mais nem menos. Nunca fui santo em nenhum aspecto da vida. Não posso ser canonizado apenas porque calhou de eu produzir um menino que tem alguns problemas. Gerar um filho com deficiência é jogar na loteria genética e perder. Os céus não têm nada a ver com isso. Não estamos sendo castigados. Tampouco ungidos.”

“Jó era um fraco. Se Deus quisesse mesmo pô-lo à prova, teria lhe dado um filho autista. Sua paciência bíblica talvez não resistisse. Preciso fazer um permanente esforço para entender meu filho. Não num sentido amplo (como ele enxerga a vida, o que quer fazer dela), mas o básico: o que deseja comer, onde está doendo, por que morde o próprio braço até sangrar. Observá-lo com atenção e saber um pouco sobre o transtorno me permite, muitas vezes, identificar o que se passa, como nas tais descargas sensoriais que o deixam em ebulição. No entanto, nem sempre a resposta vem rápido. Às vezes chega depois de eu sentir seus dentes afiados. E lá se vai uma lasca do meu braço ou, pelo menos, a calma. Se algum pais jamais bateu em seu filho autista, dou os parabéns com a mais sincera das invejas.”

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