Colaboração, Comentário, Ficção, França

Michel Houellebecq: um autor movido a niilismo e compaixão

Por Paulo Sales

Misantropo. Misógino. Repetitivo. Preconceituoso. Islamofóbico. Obcecado por sexo.

Muitos adjetivos poderiam ser usados para definir Michel Houellebecq. Não estariam de todo incorretos, mas, juntos, formam um conjunto reducionista, que deixa de lado o essencial do autor francês, o mais polêmico e provavelmente o mais lido na atualidade em seu país. Houellebecq parece destinado a descrever sem matizes a decadência do homem médio ocidental, dando forma a personagens homogêneos, muito semelhantes entre si: solitários, sem ambição, quase sempre em torno dos quarenta anos, muitas vezes retirados da inércia apenas quando tomados pelo desejo sexual.

Nos últimos seis meses, li os cinco livros do autor disponíveis no Brasil, com exceção de “A Possibilidade de uma Ilha” (Record), esgotado na editora e nas livrarias e vendido a exorbitantes R$ 199 na Estante Virtual. Ando ansioso para tê-lo em minhas mãos, desde que consiga por um valor digno. Até porque os demais — “Partículas Elementares” (Sulina), “O Mapa e o Território” (Record), “Submissão” (Alfaguara), “Plataforma” (Record) e “Extensão do Domínio da Luta” (Sulina) — entregaram muito. Mesmo sendo desiguais, irregulares, assimétricos, imperfeitos. Houellebecq me diz algo, a verdade é essa. Sua angústia, sua inadequação e seu desnorteio calam fundo no meu córtex cerebral.

Sua visão de mundo é antes de tudo niilista. Incomoda, e ao mesmo tempo nos lança contra nossos medos mais profundos: a solidão, o envelhecimento, a extinção, a infelicidade, os sentimentos em frangalhos, a falta de afeto, o medo da perda. Farpas são lançadas também a todo momento contra o turismo de massa, a sociedade de consumo, a religiosidade que produz seres obtusos e brutalizados. Seu estilo é sarcástico, direto, elegante, com uma linguagem que transita entre o erudito e o pornográfico quase entre uma frase e outra. Muitas vezes, também, a narrativa deixa entrever um profundo domínio do pensamento filosófico ocidental. Houellebecq é culto, e isso faz toda a diferença.

Dos cinco romances lidos, os meus preferidos são “Partículas Elementares” e “O Mapa e o Território”, embora “Plataforma”, do meio para o final, atinja o mesmo nível de excelência. Os dois (e também “Submissão”) apresentam um mundo distópico, visto retrospectivamente de um ponto futuro. Neles, a decadência da sociedade ocidental é exposta com um determinismo fatalista, como se fosse impossível refrear o fim do homem como o conhecemos e tudo que ele representa: o conhecimento, a liberdade individual, as conquistas sociais, as benesses da tecnologia.

Em “Partículas Elementares”, por exemplo, ele prevê a extinção do ser humano, substituído por um híbrido, fruto de um experimento científico. Já “Plataforma”, escrito na virada do século, revela-se visionário, descrevendo a escalada do fundamentalismo islâmico que hoje assola o mundo. A disseminação da barbárie, na visão de Houellebecq, é quase inevitável. Porém, o que torna seus romances uma leitura essencial são mesmo as reflexões agudas sobre o papel do indivíduo moderno dentro de uma civilização despreparada para lidar com os dramas desse mesmo indivíduo.

Discordo quando definem o autor como misantropo ou misógino, embora em muitos trechos particularmente desbocados ele dê razão a quem o critica. É que, por outro lado, há em seus romances momentos de tamanha compaixão e afeto pelo ser humano – sejam eles homens ou mulheres – que não consigo enxergá-lo como um lobo solitário incapaz de sentir empatia pelo outro. Reproduzo alguns desses trechos abaixo, que considero de uma beleza dilacerante. É pura alteridade o trecho de “Partículas Elementares” em que fala da senhora que, depois de uma vida dedicada a uma rotina penosa e inútil, aceita cuidar do neto. Ou outro, de “O Mapa e o Território”, no qual imagina o cotidiano medíocre de um padre.

Houellebecq não é um Céline, este sim um misantropo legítimo, com quem poderia até ser comparado se não fossem tão diferentes, já que ambos são desbravadores de forma e conteúdo e miram sua pena na direção do status quo. Às vezes ele me lembra um Bukowski nos seus melhores momentos, duro e terno. Outras, como em “Plataforma”, me remete ao Mario Benedetti de “A Trégua”, que vê na felicidade apenas um hiato entre momentos de profunda apatia.

Mas Houellebecq talvez esteja além: é provavelmente o mais importante, influente e instigante escritor contemporâneo. Descobri-lo representou para mim mais ou menos o que disse Faulkner naquela frase definitiva sobre o mundo dos livros: “O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”. Não é pouco.

O escritor Michel Houellebecq | Miguel Medina/AFP

*****

“Aquela mulher tivera uma infância atroz, com os trabalhos da granja desde a idade de sete anos, no meio de semibrutos alcoólatras. A adolescência fora demasiado breve para que guardasse uma verdadeira lembrança. Depois da morte do marido, trabalhara numa fábrica enquanto criava os quatros filhos; em pleno inverno, buscava água no pátio para a higiene da família. Com mais de 60 anos, recém-aposentada, aceitara tomar conta de uma criança pequena – o filho de seu filho. Não lhe deixou faltar nada – nem roupas limpas, nem bons almoços dominicais, nem amor. Fizera tudo isso na vida.
Uma análise, por pouco exaustiva que seja, da humanidade deve levar em consideração esse tipo de fenômeno. Tais seres humanos que trabalhavam duro toda a vida unicamente por devoção e por amor, dando literalmente a própria vida aos outros, num espírito de devoção e de amor, sem, entretanto, nenhuma impressão de sacrifício; sem pretender, em realidade, outra maneira de viver que não fosse a de dar a vida aos outros num espírito de devoção e de amor. Na prática, tais seres humanos eram, em geral, mulheres.”

(de “Partículas Elementares”)

“De volta a Paris, passaram momentos felizes, semelhantes às publicidades de perfume (descer correndo, juntos, as escadarias de Montmartre; imobilizar-se, abraçados, no Pont des Arts, repentinamente iluminado pelos faróis dos barcos de turismo fazendo meia-volta). Tiveram também os momentos de briguinhas de tardes de domingo; os momentos de silêncio em que o corpo se dobra sob os lençóis; as faixas de silêncio e de tédio em que a vida se desfaz. Escuro, o apartamento de Annabelle obrigava a acender as luzes desde as quatro horas da tarde. Às vezes tristes, eram, sobretudo, sérios. Sabiam que viviam a última relação de fato humana, sensação que dava a cada minuto algo de dilacerante. Sentiam, um pelo outro, um grande respeito e uma imensa piedade. Certos dias, porém, passavam por instantes de ar fresco, de forte sol tonificante. Mas, em geral, sentiam que uma nuvem preta estendia-se sobre eles, sobre a terra em que pisavam. Em
tudo, pressentiam o fim.”

(de “Partículas Elementares”)

“É falsa a ideia de que o seres humanos são únicos e têm em si uma singularidade insubstituível; no que me concerne, pelo menos, eu não percebia nenhum traço dessa tal singularidade. Quase sempre é inútil querer distinguir destinos individuais, caracteres. Em poucas palavras, a ideia da unicidade da pessoa humana não passa de um absurdo pomposo. A gente se lembra da própria vida, escreveu Schopenhauer, um pouco mais do que lembra de um romance que leu no passado. É, é isso mesmo: apenas um pouco mais.”

(de “Plataforma”)

“Pode-se habitar o mundo sem entendê-lo, basta arranjar alimento, carícias e amor. Em Pattaya, o alimento e as carícias são baratos, segundo os critérios ocidentais, e até mesmo asiáticos. Já no que diz respeito ao amor, é difícil falar. Agora estou totalmente convencido: para mim, Valérie foi uma exceção resplandecente. Ela era um desses seres capazes de dedicar a vida à felicidade de alguém, fazer disso seu objetivo direto. Este fenômeno é um mistério. Nele residem a felicidade, a simplicidade e a alegria; mas não sei como nem por que ele acontece. E se não entendi o amor, de que me serve entender o resto?”

(de “Plataforma”)

“Vivi tão pouco que tendo a imaginar que não morrerei. Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. A gente imagina, apesar de tudo, que algo, cedo ou tarde, acontecerá. Profundo engano. Uma vida pode ser muito bem, ao mesmo tempo, vazia e curta. Os dias passam pobres, sem deixar rastros nem lembranças; depois, de um golpe, acabam.”

(de “Extensão do Domínio da Luta”)

“Herdeiros de uma tradição espiritual milenar que ninguém mais compreendia efetivamente, outrora instalados no topo da sociedade, os padres acabaram relegados, ao termo de estudos terrivelmente longos e difíceis que pressupunham o domínio do latim, do direito canônico, da teologia racional e de outras disciplinas quase incompreensíveis, a subsistir em condições materiais miseráveis, pegando o metrô em meio aos outros homens, deslocando-se de um grupo de estudo do Evangelho para uma oficina de alfabetização, declamando a missa todas as manhãs para um rebanho escasso e envelhecido, toda alegria sensual lhes era vedada, sem esquecer os prazeres elementares da vida em família, e, a despeito de tudo, viam-se obrigados pela função a manifestar diariamente um otimismo indefectível.”

(de “O Mapa e o Território”)

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