Argentina, Ficção, Itália, Japão, Notas de leitura

Notas de Leitura — Piglia, Ferrante e Endo

“O Caminho de Ida” (Companhia das Letras), de Ricardo Piglia
Último romance do escritor argentino morto no início de 2017, “O Caminho de Ida” é um tratado sobre a paranoia dos Estados Unidos . Aqui, Piglia retoma seu alter ego Emilio Renzi, professor que vai a uma universidade norte-americana ministrar um curso a convite da chefe do departamento de literatura, Ida Brown. Em sua vida pacata na pequena cidade onde está instalado, surgem pequenas desavenças que culminam na morte de Ida. Entre teorias conspiratórias, a suspeita de um ataque terrorista, repetido em várias partes do país. Estamos em 1990, antes da onda vigilante que dominou a América pós-11 de Setembro.

Mesmo assim, Piglia imprime um tom ficcional que reflete com vigor o retrato que enxergava à época em que lançou o livro (2013). Renzi quer entender o que aconteceu naquele pacato lugar, onde os moradores se conhecem e trocam amenidades. Vai investigar o suposto assassino, trabalho que guarda paralelos não só com a vida de Ida, mas também com o destino dos Estados Unidos. Entre política, crimes e conspirações, Piglia constrói um romance profundo, que antecipa em alguns anos o que estamos vendo atualmente, sem falar que faz uma interpretação das mais instigantes do que acontecia até então.

“Um Amor Incômodo” (Intrínseca), de Elena Ferrante
Primeiro romance da escritora italiana, lançado em 1992, este é também seu livro mais fraco entre os que já li — “Dias de Abandono” e “A Filha Perdida” são exemplares mais sólidos e inteiros da prosa de Ferrante. Em “Um Amor Incômodo”, a autora narra a história de Delia, que volta à sua Nápoles para enterrar a mãe, encontrada morta numa praia com apenas o sutiã. A imagem é perturbadora, descrita logo na abertura.

Delia vai se deparar com memórias e descobertas dos últimos dias de sua mãe, quando começa a investigar o motivo da morte e o porquê daquelas circunstâncias. Três homens surgem: o irmão de sua mãe, o ex-marido e Caserta, uma figura grotesca. Diante desse trio masculino, Delia também revive seu passado, parte dele doloroso.

Ferrante não constrói com a mesma fluidez de seus romances posteriores. Sua carpintaria de texto demorou mais dez anos até alcançar um patamar louvável — o romance seguinte, “Dias de Abandono”, só saiu em 2002. Um hiato que ajudou a formar uma das melhores escritoras da atualidade, mas que entregou na estreia um livro menor.

“Silêncio” (Tusquets), de Shusaku Endo
O filme de Martin Scorsese inspirado no romance do escritor japonês provocou o relançamento do título no Brasil. Sua edição anterior era de 2011, pela Planeta Literário. Agora, chega pelo selo Tusquets, da mesma Planeta, com capa que reproduz cena da produção.

“Silêncio” não teve tradução direta do japonês. A editora preferiu a indireta, do inglês, feita por William Johnston, um jesuíta que ajudou a divulgar a obra de Endo e autor de uma introdução primorosa, que explica e reforça a importância do livro.

No século 17, o jesuíta português Sebastião Rodrigues embarca para o Japão para ajudar os cristãos reprimidos e um teólogo que teria optado pela apostasia. Ele mesmo vai ter que enfrentar tempos depois o questionamento da sua fé e o silêncio de Deus diante da sua dúvida. O livro se baseia em fatos reais do período dos seiscentos aos setecentos.

Entre a perseguição religiosa e o conflito cultural, pousa a elegância do texto de Endo. O dilema que se instaura no livro é transformado em sequências narrativas primorosas, em que os conflitos surgem como forma de alívio, disputa e tentativa de sobrevivência.

Talvez seja o melhor livro de 2017.

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