Brasil, Entrevista, Ficção

Maria Valéria Rezende: “O retorno é sempre uma reinvenção da memória”

Demorei a chegar até Maria Valéria Rezende. Fui ler um primeiro livro da autora no início do ano, “Quarenta Dias”. E desde então fiquei incomodado com a obra da escritora santista que desde 1986 mora em João Pessoa (PB).

Incomodado pois sua prosa não permite ao leitor ficar inerte. Ninguém sai de um livro de Maria Valéria Rezende da mesma forma que entrou.

 “Quarenta Dias”   é um livro que planta a resistência por meio da personagem Alice, uma professora aposentada obrigada pela filha a sair de sua João Pessoa e se mudar para Porto Alegre. Lá, vai se confrontar com um lugar inóspito e mergulhar nas ruas.

Maria Valéria Rezende incorporou Alice antes de transformá-la em personagem. Morou nas ruas para se perder, como ela diz na entrevista ao Capítulo Dois, e ser invisível.

Esse confrontamento de sua cria literária é semelhante ao que viveu nos anos 1970. Depois de entrar para a Congregação de Nossa Senhora — Cônegas de Santo Agostinho, tomou o caminho da educação popular. Começou em São Paulo e seguiu para o Nordeste.

Seu engajamento a levou para o mundo, onde foi difundir seus projetos sociais. Essa doação chegou tardiamente à literatura. Sua primeira obra foi lançada em 2001, a coletânea de contos “Vasto Mundo”, aos 59 anos. E hoje avança por prosa e literatura infant0juvenil.

As experiências por vezes invertem o caminho de “Quarenta Dias”, como no estupendo “Outros Cantos” (Alfaguara), lançado em 2016. Neste, ela emprega sua experiência como professora para contar a história de Maria, professora do extinto Mobral no vilarejo Olho d’Água, que retorna ao Nordeste de ônibus.

Militante de esquerda, aproveitou o chamado do governo militar para educar os sertanejos e conscientizá-los. Enquanto viaja e observa a estrada pela janela do ônibus, rememora aqueles momentos e reavalia sua vida, desde o tempo em que se engajou no cotidiando do povoado.

Na entrevista a seguir, a autora fala de “Quarenta Dias” (Jabuti de 2015) e “Outros Cantos” (Casa de las Américas de 2017), do seu trabalho como educadora e do novo livro, ainda sem data de lançamento.

*****

No nosso primeiro contato, você logo me avisou da sua rotina intensa e improgramável. Li numa entrevista que você diz que não tem mais obrigação de fazer nada. É possível descrever um dia típico da Maria Valéria Rezende?
Não, não é possível descrever minha rotina. Mesmo que eu tente “me disciplinar”, como me aconselham facilmente, só posso dizer que minha rotina é uma sucessão de imprevistos. Tenho uma família, como quase todo o mundo, grande e espalhada pelo mundo, tenho uma outra família que nem todos têm, que é minha congregação religiosa, e vivo numa comunidade com outras irmãs, e nossa casa é um ponto de referência para muita gente. Faço parte de mais de uma rede de relações de amizade e de trabalho. É do meu temperamento e da minha formação tentar atender a tudo o que me pedem. O que é impossível. mesmo para explicar que não posso, há que atender ao telefone ou à porta ou responder aos e-mails e mensagens. A alternativa, de criar um escudo defensivo contra os chamados dos outros, é inaceitável para mim. Então, quando e como escrevo? Quando dá!

Incomodam as referências mais usadas pela imprensa: freira e moradora da Paraíba? O que pensa sobre essas caracterizações?
Não me incomodam em nada. Ao contrário: foram minhas escolhas, não me arrependo de nenhuma delas. A vida religiosa deu um sentido claro para minha vida, me libertou para ir aonde me chamassem e fazer o que me parecesse ter sentido. Com isso, passei a vida adquirindo experiência direta do mundo e suas diferenças, transitando entre vários países, culturas, classes sociais, climas e, principalmente, gente de todo jeito. Posso dizer que passei a vida e ainda continuo sempre atravessando fronteiras. A Paraíba é também minha terra, a da minha escolha, terra onde nasceu a literatura que hoje publico, creio que por osmose, pelo riqueza cultural que me cerca aqui. Espanta-se e insiste nessas minhas características como algo estranho quem não conhece a Paraíba e tem na cabeça estereótipos sobre freiras, colhidos de fontes parciais e fora de tempo.

A escritora Maria Valéria Rezende | Foto: Adriana Franco

Seus dois últimos livros foram premiados (“Quarenta Dias” e “Outros Cantos”). Qual o significado desse reconhecimento para a sua literatura?
Para o que eu escrevo, não sei dizer se isso terá alguma importância. O que estou escrevendo agora já vem sendo ruminado na minha cabeça há muitos anos, assim como os livros anteriores. Os prêmios creio que me trazem mais alguns leitores, o que me faz sentir mais responsabilidade quanto à qualidade do que escrevo, e me trazem mais solicitações, tornando ainda mais lento o processo de escrita nessa minha não-rotina.

Sobre “Quarenta Dias”, o que a levou a se passar por Alice e viajar a Porto Alegre?
Havia muito tempo que eu tinha esboçado o plano de um romance em que uma mulher se tornasse socialmente “invisível” e passasse a explorar as rachaduras de uma cidade, caindo e descobrindo seu avesso. Não tinha graça fazê-lo descrevendo “de fora” uma cidade que já conhecesse, ou pensasse que conhecia. Minha fonte de narrativas é mais que tudo o que me entra pelos meus cinco sentidos. Precisava fazer uma experiência semelhante para verificar suas possibilidades. Porto Alegre me veio por um acaso, era uma cidade da qual eu só conhecia a “sala de visitas”, e eu ali podia me perder. Então fui e fiz o livro.

A Maria de “Outros Cantos” e Alice mergulham em viagens, uma pelo Nordeste, outra em direção ao Sul e pelo Sul. Qual a importância da estrada na sua vida e na sua literatura?
Fui andarilha a vida toda, desde criança vivendo a experiência da viagem e de como o mundo a nossa volta vai se tornando outro. A gente mesmo muda quando viaja. Desde a infância, vivida entre o porto de Santos e as montanhas de Minas, para lá e para cá a cada ano, sabia que isso era uma maravilhosa chance de viver mais num mesmo tempo. Não tenho experiência de vida sedentária, e a gente acho que escreve mais ou menos com os mesmos gestos e movimentos com que vive.

Esses dois romances trabalham a ideia do retorno: de Alice, que quer voltar à sua Paraíba, e de Maria, que volta ao interior nordestino. Normalmente, a volta é ação que serve para acerto de contas ou redenções. Como o retorno se apresenta na sua literatura?
Sou migrante, inicialmente nadando contra a corrente que ia do Norte para o Sul. Convivi e convivo com pessoas e populações inteiras em situação de migração, saudades, insegurança quanto ao futuro. Acompanhei e fiz também muitos retornos. Acho que, para mim, o retorno é sempre apenas uma reinvenção da memória.

Seu novo romance será “Carta à Rainha Louca”? Pode falar um pouco mais sobre ele? 
Estou trabalhando no livro. É difícil agora dizer quando e até se será lançado, inclusive porque isso não depende só de mim, depende de editoras. Eu me pus um desafio que torna a escrita mais lenta porque, além da plausibilidade histórica, para a qual já tenho pesquisa suficiente, é escrito na primeira pessoa por uma mulher do século 18 e tento escrever numa linguagem rigorosamente plausível para minha narradora e legível para o século 21. Isso significa rever e rever, conferir, encontrar as palavras certas a cada parágrafo. Quando comecei o livro, pretendia tê-lo pronto, com folga, no final de maio (2017). Mas mudou a vida e mudei eu. Depois dos 70, a gente não pode garantir quase nada do que será capaz de fazer no ano seguinte. Fui otimista demais quando me dei esse prazo, que, evidentemente não vou conseguir cumprir.

Você tem uma história ligada à alfabetização popular e à educação. Qual é a realidade da educação no Brasil? 
É muito difícil falar generalizadamente dos problemas da educação no Brasil. As fontes de informação são incertas e ideologicamente enviesadas e já não posso ir verificar pessoalmente. Prefiro falar dos avanços que eu vejo aqui à minha volta, vividos por gente que conheço e acompanho há décadas. Assisti a uma mudança que parecia impossível há 20 anos. Quando eu vivia no campo e trabalhava com jovens de familias de agricultores, num trabalho de formação que os fazia avançar, sonhar e preparar-se para estudos universitários, muitas vezes tive de ir convencer os pais para que permitissem que a jovem ou o rapaz fosse para a cidade maior estudar, com as pequenas bolsas que tínhamos conseguido para eles. Tive que enfrentar em muitos casos a convicção dos pais de que filho de pobre trabalhador nunca vai poder ser “doutor”, “isso é desculpa de preguiçoso pra não ir trabalhar”. Hoje, dificilmente alguma família diria isso aqui porque a mudança na realidade educacional foi tão grande nos últimos anos que se crê que, sim, se quiser, filho de pobre é capaz de ser “doutor”. E isso não vai voltar atrás.

Li que você é uma leitura compulsiva. Quais foram suas últimas leituras e o que você destaca positivamente?
Continuo a ser compulsiva, mas não mais competente, por causa de um problema com meus olhos, que se agrava. Leio muito mais lentamente agora. Por isso, já não me exijo reler nada do que já li, prefiro ler o que estão escrevendo hoje os mais velhos ou muito mais jovens do que eu, com prioridade quase absoluta para a litaratura brasileira. Minhas últimas leituras têm sido de originais de amigas ou amigos que me pedem uma orelhinha ou um comentário, e não posso ainda dizer quais são.

O crítico Alfredo Monte escreveu numa resenha que você tem um “lado utópico gritante”. Concorda? Onde está a sua utopia? Como esse lado se reflete na sua literatura?
Se eu não tivesse minha utopia — que não vejo como um projeto preciso a ser posto em prática tal qual, mas sim como a estrela para onde se aponta o astrolábio para encontrar o próximo porto possível —, é provável que nunca tivesse escrito nada. Eu escrevo para buscar que novas faces e possibilidades, que nós humanos podemos ter, ofereçam esperança.

*****

“Por que invento agora ilusões para convencer-ne de minha volta a um daqueles exílios que ofereceram e não reconheço que estou neste lugar, escondido e descorado, escolhido por mim como meu próprio deserto? Eu me perguntava, confusa. Quando reabri os olhos, os matizes pareciam ainda mais vivos.”

“De tudo, guardei muito mais a beleza das formas e movimentos essenciais do que o custo da aprendizagem, a dor dos músculos, dos pés, a exaustão do calor. Naquele mundo de escassez, a força e a beleza do trabalho humano saltavam aos olhos, eu aprendia a viver ali, retomava esperanças, ia, aos poucos, deixando descansarem em paz os meus mortos e perguntando-me quando seria capaz de saber o que fazer para transformar em nova vida as injustiças e dores. Aprontava-me para ficar por longo tempo.”

“Quando a melancolia me pegava, pela saudade, pela falta de bússula que apontasse norte certo para minha vida, pela sensação de que o mundo lá fora havia desaparecido, ou o tempo deixara de passar e o dia da grande transformação jamais haveria de chegar, quando a tentação da desistência esgueirava-se por entre minhas tarefas cotidianas, eu pedia a Fátima para me contar de novo como tinha sido o milagre do cinematógrafo, tantas vezes que hoje ainda posso ouvir sua voz e sua linguagem, e matava-me de risso, ríamos as duas, minha amiga exagerando, inventando detalhes, imitando novas vozes e falas para fazer-me rir ainda mais, sabendo muito bem que me restaurar o ânimo era tarefa sua de seu imbatível senso de humor, indispensável à sobrevivência naquela aridez.”

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