Argentina, Brasil, Ficção, Notas de leitura, Policial/Suspense, Suécia

Notas de Leitura: sobre a fúria da internet, um complô internacional e 36 vidas inventadas

“O Tribunal da Quinta-Feira” (Companhia das Letras), de Michel Laub

O sétimo romance do escritor teve boa acolhida da crítica quando foi lançado, em 2016. O livro fecha a trilogia que investiga comportamentos de uma geração. Se em “Diário da Queda” ele revisitava os anos 80 e “A Maça Envenenada” se passa nos 90, agora, chegamos ao novo século e com tudo o que ele traz de bom e ruim. Ao mesmo tempo, Michel Laub não esquece a herança das décadas passadas, no caso deste “Tribunal”, a Aids, doença determinante para o rumo da trama.

O livro conta a história de José Victor, publicitário bem sucedido de 43 anos, casado com Teca e amigo de Walter, que tem o vírus. Em algum momento, vai se envolver com a estagiária da agência em que trabalha. A partir daí, surgem os nós complexos que o escritor tenta desatá-los ao longo da narrativa: vazamento de mensagens nas redes sociais, patrulhamento, ataques pessoais, o inventário da Aids no Brasil, crise da meia idade. Lembra vagamente o romance “Divórcio”, de Ricardo Lísias, mas Laub tentou abraçar mais temas de uma vez só.

Dessa ambição talvez tenha nascido o baixo impacto que o livro produz ao final. Faltou densidade para o narrador, José Victor, um personagem que beira o superficial, enquanto a questão dos ataques virtuais ficou razoavelmente bem representada. A melhor solução está em Walter e como o personagem provoca uma reflexão sobre a doença. Mas só.

“A Leoa Branca” (Companhia das Letras), de Henning Mankell

Outro ótimo romance policial do autor sueco. O blog já tratou de “Um Passo Atrás” e “O Homem que Sorria”, além de já ter lido “O Homem de Beijing” e “O Guerreiro Solitário”. O inspetor Kurt Wallander é um dos favoritos da casa, com sua relação conturbada com o mundo. Não se entende com a família, tem métodos nem sempre éticos e vive ao redor da bebida. Apesar dos clichês, é um personagem que consegue driblar a obviedade dos detetives.

Neste livro, que antecede os acontecimentos de “Um Passo Atrás”, Mankell não se detém em uma trama policial ao propor a investigação do assassinato de uma corretora de imóveis num vilarejo afastado. O escritor agora explora temas caros à época em que foi lançado (1993, na Suécia). Ele debate o racismo na África do Sul, que havia pouco tempo tinha libertado Nelson Mandela, e conspirações que poderiam eliminar um líder no país africano. Para completar, mercenários da ex-União Soviética, recém-destruída então, completam o quadro, um dos mais complexos apresentados a Wallander.

Como todos os outros, é um livro em que você começa e não sabe como parar. Literatura compulsiva, bem tramada, com reviravoltas inteligentes e personagens carismáticos. Mankell é um dos grandes autores do romance policial.

“A Sinagoga dos Iconoclastas” (Rocco), de J. Rodolfo Wilcock

Mais um livro da excepcional coleção Otra Língua, já percorrida em sua totalidade pelo blog. É um dos melhores trabalhos de curadoria da literatura, pena que sem regularidade. Neste volume, o escritor argentino imagina a vida de 36 personagens e perfila cada um deles, em uma série de retratos que têm em comum o apoio em questões científicas e discliplinas bem estruturadas.

Juan Rodolfo Wilcock promove uma espécie de resgate da história para esses personagens esquecidos de toda a parte do mundo. Joca Reiners Terron, organizador da coleção, define o trabalho do escritor desta forma no posfácio: “A plausabilidade existente no grotesco para testar os limites tênues entre a ciência e a loucura através da arte”.

O argentino viveu boa parte da sua vida no exílio, na Itália. Era amigo de Borges, Casares e Silvina Ocampo. O livro foi publicado originalmente em italiano, em 1972, e se insere numa tradição em que estão Borges, Cabrera Infante, Roberto Bolaño e Marcel Schwob. No Brasil, Mario Prata fez algo semelhante, mas criou perfis satíricos a personagens reais da história.

O que Wilcock fez foi criar um universo mais vigoroso, raivoso e recheado de discussões que superam os perfis imaginados.

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