Colaboração, Comentário, Estados Unidos, Ficção

Sonata de Outono

Por Paulo Sales

Ao me embrenhar no mundo do casal de velhos Louis e Annie, de “Nossas Noites” (Companhia das Letras), muitas vezes me vieram à mente as desventuras outonais de Florentino Ariza e Fermina Daza em “O Amor nos Tempos do Cólera”, enfim juntos após a separação da vida toda. Mas, enquanto o caudaloso romance de Gabriel García Márquez se lança na exuberância das paixões caribenhas, a pequena novela do norte-americano Kent Haruf deixa entrever, como através de uma cortina entreaberta, uma amargura contida.

Um dia, Annie bate na porta de Louis convidando-o a passar as noites com ela. Até então, mal se conheciam para além da relação cordial de vizinhos de décadas. Moram em uma cidadezinha do Colorado, onde cada passo é vigiado silenciosamente por olhares sorrateiros. Mas, ambos viúvos e com filhos criados já longe do ninho, dão uma banana para tudo isso. As noites, até então vividas na mais absoluta solidão, passam a ser um alento. As manhãs e tardes também.

É comovente acompanhar esses momentos. Quando o mundo lhes reservava apenas a derrocada sem sentido rumo à inconsciência, eles descobrem a bela frivolidade dos dias: passeios a parques florestais, piqueniques, idas ao teatro em Denver e, principalmente, amizade, carinho, cumplicidade e amor. Mas há um peso que eles são incapazes de sustentar: o papel a eles destinado por uma sociedade que prioriza as convenções em detrimento dos sentimentos.

Annie e Louis viveram provavelmente o melhor ano de suas vidas justo quando não esperavam mais nada delas. Fico imaginando quantos idosos como eles em todos os cantos do mundo renunciam a hiatos de felicidade como esse por receio da desaprovação de filhos e vizinhos. Ou por se sentirem cansados, embora a solidão seja maior e mais dolorosa que a exaustão causada pelas perdas e frustrações. Annie e Louis são pequenos e frágeis heróis, que ousaram dar um cavalo de pau na própria trajetória e percorrer outras estradas, desbravando o outono da vida como se fosse primavera.

*****

“Estou brincando com você, sua boba.

Sei que está. Mas me diga a verdade.

A verdade é que estou gostando. Gostando muito. Eu sentiria falta se não pudesse mais vir. E você?

Estou adorando, disse ela. Está sendo melhor do que eu esperava. É uma espécie de mistério. Eu gosto da amizade que estamos criando. Gosto do tempo que passamos juntos. De ficar aqui no escuro da noite. Das conversas. De ouvir você respirar ao meu lado quando eu acordo.

Eu gosto disso tudo também.

Então fale comigo, disse ela.

Você tem alguma coisa específica em mente?

Fale mais sobre você.

Você ainda não se cansou sobre isso, não?

Ainda não. Eu aviso quando cansar.”

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