Comentário, Crônicas, Peru

“Prosas Apátridas”, um manual da observação cotidiana

Não sou partidário da briga entre livros físicos e eletrônicos. É uma discussão besta, pois esconde vantagens e desvantagens de ambas as plataformas. Sem contar que os argumentos beiram o nonsense, pois tocar e cheirar ou ter a possibilidade de ter 1 milhão de livros num dispositivo de 300 gramas snao desculpas que revelam mais o alcance do leitor do que qualquer benefício de um ou de outro.

Uma plataforma não elimina a outra, há quem prefira, por questões totalmente idiossincráticas, o livro em papel, e aqueles que adotaram o digital. Como complemento, existem os seres que leem os dois formatos – caso deste leitor.

Na lista de vantagens, o livro de papel tem uma insuperável que o digital não consegue resolver: o abrir aleatoriamente numa página para ler um trecho, por exemplo. Essa experiência fica burocratizada no leitor eletrônica, pois esse abrir ao acaso depende agora de alguém digitar um número de página para ser levado a ela.

No papel, basta o folhear para chegar a qualquer página. Isso é um recurso bastante útil para releituras soltas, por exemplo, quando há o desejo de voltar a um livro para lembrar de recortes e trechos.

prosas-apatridasÉ o caso de “Prosas Apátridas” (Rocco), do peruano Julio Ramón Ribeyro, lançado pela coleção Otra Língua. Li no formato digital, mas a versão em papel seria ideal para voltar e rever as ideias do autor.

O livro reúne 200 fragmentos, textos curtos e desconectados, como se fossem entradas de um diário, um fluxo de ideias que traduzem o que Ribeyro pensava e como trabalhava seu texto. A maioria ocupa uma página, raros ultrapassam a segunda página. É o espaço suficiente para que o escritor transfira suas ideias, travestidas de aforismos turbinados.

Ribeyro observa e trata do cotidiano nesses fragmentos. Relações sociais, afetos, consumo, cultura, a profissão de escritor, a vida em Paris, sua Lima natal, tudo é transformado em minicrônicas profundas e cheias de sutilezas.

Ribeyro, que viveu em Paris boa parte da vida como exilado, trabalhando na agência France Presse, ficou muito tempo ofuscado pela figura de Mario Vargas Llosa e nunca conseguiu alcançar o sucesso de crítica e público. O tempo encarregou-se de considerá-lo um dos melhores contistas da América Latina, o que é possível de ser comprovado no belo volume “Só Para Fumantes” (Cosac), o outro único livro traduzido para o português.

Ler estas “Prosas Apátridas” é marcar compulsivamente trechos e trechos, voltar páginas, avançar e recorrer a elas dias depois. Não há qualquer lição, apenas um mergulho, muitas vezes bem-humorado, no profundo eu.

*****

“Quantos livros, meu Deus, e quão pouco tempo e às vezes quão pouca vontade de lê-los! Minha própria biblioteca, onde antes cada livro que entrava era previamente lido e digerido, vai ficando infestada de livros parasitas, que chegam lá muitas vezes não se sabe como, e que por um fenômeno de imantação e de aglutinação contribuem para cimentar a montanha do ilegível e, entre estes livros, perdidos, estão os que escrevi.”

“Entrar em uma livraria é pavoroso e paralisante para qualquer escritor, é como a antessala do esquecimento: em seus nichos de madeira, os livros já estão se preparando para dormir seu sono definitivo, muitas vezes antes mesmo de ter vivido. Qual foi o imperador chinês que destruiu o alfabeto e todos os vestígios da escrita? Não foi Eróstrato quem incentidou a biblioteca de Alexandrina? O que talvez pudesse nos devolver o gosto pela leitura seria a destruição de tudo que já foi escrito e o fato de partir inocente, alegremente, do zero.”

“A dúvida, que é a marca da inteligência, é também a tara mais execrável do meu caráter. Ela me fez ver e não ver, agir e não agir, impediu em mim a formação de convicções duradouras, matou até mesmo a paixão e, no fim das contas, me deu do mundo a imagem de um redemoinho onde se afogam os fantasmas dos dias, sem deixar outra coisa além de fragmentos de acontecimentos loucos e gesticulações sem causa nem finalidade.”

“Os velhos deuses, depois de mortos pela razão, renasceram multiplicados nas divindades mesquinhas das repartições públicas. Em seus guichês gradeados, parecem que estão em altares de araque, esperando que venhamos venerá-los.”

“Um autor latino-americano cita quarenta e cinco autores em um artido de oito páginas (…) Em minha opinião, a maioria dessas citações era desnecessária. A cultura não é um depósito de autores lidos, e simuma forma de raciocinar. Um homem culto que cita muito é um ignorante.”

“A partir de certa idade, que varia de acordo com as pessoas mas que se situa em torno dos quarenta, a vida começa a parecer-nos insulsa, lenta, estéril, sem atrativos, repetitiva, como se cada dia fosse apenas o plágio do anterior. Algo  em nós se apagou: entusiasmo, energia, capacidade de fazer projetos, espírito de aventura ou simplesmente apetite de prazer, de invenção ou de risco. É o momento de fazer uma parada, reavaliar nossa vida sob todos os seus aspectos e tentar tirar partido de suas fraquezas. Momento de suprema escolha, pois se trata, na realidade, de escolher entre a sabedoria e a estupidez.”

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