Índia, Comentário, Poesia

A forte e crua poesia de Rupi Kaur transforma versos em palavras de sobrevivência

Um dos mais recentes fenômenos literários é a poeta indiana Rupi Kaur, radicada no Canadá. Desta vez, o burbuinho vem ancorado em um trabalho vigoroso, uma poesia que retrata a mulher e a violência com palavras que atingem sem dó a quem lê.

Kaur nasceu na internet. Seu trabalho começou a circular e ganhar as redes com os poemas que postava no seu perfil do Instagram. Já o livro “outros jeitos de usar a boca” (Planeta) (milk and honey, no original) foi publicado de forma independente na Amazon, até que uma grande editora resolveu imprimir uma segunda edição nos Estados Unidos.

Toda sua arte respeita a sua cultura, e a forma de escrever, somente com minúsculas e ponto final, honra a tradição da escrita gurmukhi. Ela diz que seu tema é o empoderamento.

Um dos seus trabalhos mais polêmicos foi a série de fotos sobre menstruação, principalmente a imagem em que aparece deitada numa cama com uma mancha de sangue, censurada pelo Instagram, que se viu obrigado a recolocá-la no perfil após a fotografia viralizar no Facebook.

Seu livro, o primeiro, é dividido em quatro partes: A Dor, O Amor, A Ruptura e A Cura. Em cada uma, observamos etapas da vida de uma mulher, narradas em um poesia carregada de crueza. A primeira trata principalmente de uma criança que vê e sofre abuso. É o capítulo mais forte e contundente, com descrições que não são explícitas, mas que carregam um simbolismo arrebatador.

(Ao ler essa parte, lembrei de uma das cenas de estupro mais violentas que já vi no cinema, a de uma criança no filme “Paisagem na Neblina”, do grego Theo Angelopoulos.)

Quando começa O Amor, surge uma mulher feliz e satisfeita com seu par, ao mesmo tempo em que a poesia de Kaur perde um pouco a força, ao retrabalhar clichês. Retoma o caminho aberto em A Dor quando mergulha novamente com vigor n’A Ruptura e em A Cura.

Estamos diante de uma tentativa de sobrevivência à violência, ao abuso, à perda. Sem meias palavras, é um livro que encarna a voz deste feminismo que grita “chega”. Por isso e por todas as palavras que carrega, é um livro obrigatório.

*****

“é seu o sangue
nas minhas veias
me diz como eu
poderia esquecer”

“você tinha tanto medo
da minha voz
que eu decidi
ter medo também”

“acredite quando eles dizem
que você não é nada
vá repetindo
como um mantra
eu não sou nada
eu não sou nada
eu não sou nada
tão concentrada
que o único jeito de saber
que você ainda existe é
o seu peito ofegante”

“eu tive que ir embora
eu estava cansada
de deixar que você
me fizesse sentir
qualquer coisa
menos que inteira”

“o jeito como
vão embora
diz
tudo”

“quero pedir desculpas a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso”

“se você não é suficiente para você mesma
você nunca será o suficiente
para outra pessoa”

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