Comentário, Ficção, Holanda

Notas sobre “Tirza”

1
É difícil encarar um livro que foi tão falado e hypado. Gostar ou não acaba fazendo parte da pré-leitura. Quando o livro aparece bem criticado em lugares que costumam elogiar para se dar bem com amigos, editoras e jornalistas, a tendência é que haja um predisposição, contrária ao título.

2
Tenho que levar em conta ainda que toda vez que abro um livro da Rádio Londres penetro num território desconhecido e perigoso.

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Depois de um início desastroso, a editora Rádio Londres dá a entender que se enquadrou naquilo que chamamos de padrão mínimo de qualidade: bom repertório, tradução adequada, revisão acima do razoável, acabamento acima da média – mas vez ou outra ainda recebo comentários de leitores que dizem que encontraram títulos com péssima revisão.

E “Tirza” talvez tenha se tornado a grande prova de fogo da editora após “Stoner”, mesmo com um catálogo de bons títulos, como “Viva a Música!” e “Estação Atocha”. O livro do escritor holandês Arno Grunberg chegou ao Brasil com boa reputação no exterior e saudado como um dos mais importantes lançamentos do século. Era o que poderia receber mais atenção depois daquele começo errático com um título igualmente fundamental.

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“Tirza” consegue se sair bem. Escorrega uma vez e outra, com uma revisão falha ou uma tradução inaquedada, mas nada que comprometa ou que não se repita em títulos de editoras mais bem conceituadas no mercado. No final das contas, a preparação do livro ficou acima da média. Ponto para a Rádio Londres.

5
O romance é daqueles que avançam em tensão, mas não de forma súbita. Grunberg arquitetou com maestria o andamento do livro, ao criar dois atos que se opõem no quesito dramaticidade. E conseguiu imprimir ao seu personagem principal uma capacidade de encarar os fatos que se divide em duas, diametralmente opostas.

6
Tirza é filha de Jörgen Hofmeester, editor de livros em fim de carreira que foi abandonado pela mulher e teve que cuidar de duas crianças – além de Tirza, Ibi. Somos apresentados a um homem aparentemente de bem com a vida, daqueles que gostam de cozinhar e tomar vinho, sem maiores preocupações.

O primeiro ato começa com uma festa de despedida para Tirza, que vai tirar um ano sabático na África logo depois da formatura na faculdade. Quase dois terços das 500 páginas do romance se passam nesse ambiente e durante o período da confraternização. Mas a sensação ao final dessa parte é que o leitor percorreu um épico, tamanha a força que Grunberg imprime à sua história.

Pois ele não se restringe apenas aos fatos que acontecem na festa, que já seriam suficientes para uma carga de alta tensão, mas intercala flashbacks para estruturar seus personagens. Então, durante a festa, a mulher de Hofmeester reaparece depois de anos, de repente, com o aviso de que iria ficar por lá. Isso destrói o equilíbrio da casa, notadamente apoiado na relação do pai com Tirza, sua filha preferida.

Vamos entender essa preferência numa lembrança que explica o que aconteceu com Ibi, que saiu de casa cedo e mantém uma relação protocolar com o pai. Tudo isso vai acontecendo enquanto Hofmeester emplaca discussão atrás de discussão com sua mulher, que quer participar da festa a todo custo.

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A relação de pai e filha vai se descortinando aos poucos. O protagonista era daqueles que via na filha uma superdotada. Lia, à noite, na cama, Tolstói para ela. Depositou todas suas expectativas de sucesso em Tirza. Aos poucos, a obsessão vai ganhando contornos dramáticos, numa construção escalável.

8
Em certos momentos, os diálogos de Hofmeester e sua mulher evocam as discussões homéricas de Elizabeth Talyor e Richard Burton em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, tal a brutalidade e sinceridade que os dois casos despejam.

9
Uma ou outra solução da trama não convence, e Grunberg poderia ter explorado melhor. Caso do fracasso financeiro de Hofmeester, que perdeu todo seu investimento na crise de 2008. Ficou inverossímil um professor universitário, bem informado, não saber que seu dinheiro estava derretendo no banco. Na época, tanto ele não se interessou pelo que poderia acontecer como o banco se omitiu. O autor não oferece uma saída inteligente, compatível com  o personagem e seu perfil.

Um segundo problema é quando Grunberg experimenta descrever cenas de sexo. Ainda que não sejam tão explícitas, pecam pelo artificialismo e pela ingênua associação com o trabalho do editor de livros.

10
A festa é o pretexto para muitos saírem da linha, inclusive o pai, agoniado com a ausência de Tirza, que foi buscar o namorado e demora a voltar para casa, mesmo com a confraternização já bem adiantada. Tudo ajuda a construir um grade de alta tensão entre Hofmeester e a vida. Nesse ponto, o leitor já desconfia de que alguma coisa vai dar muito errado.

Piora quando Tirza reaparece com seu namorado, que o pai enxerga como a figura de um terrorista. Se antes as brigas pouco importavam a Hofmeester, pois com pessoas que não significavam muito a ele, agora, quando entre em choque com Tirza, ele sai do controle e entra num estado de perturbação. Grunberg aumenta a tensão.

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O segundo ato começa logo após o fim da festa. Tirza viajou para a Namíbia com o namorado, mas não ligou para o pai informando sua chegada. Os dias passam e a angústia toma conta de Hofmeester, que decide então seguir para a África a fim de encontrar a filha.

É uma viagem que poderia ser redentora, mas que acaba se tornando um mergulho no caos. Ao contrário da festa, quando Hofmeester discutia energeticamente e pensava com serenidade, agora, o leitor encontra um personagem com ações externas calmas, mas com um interior em ebulição – algo que Grunberg não deixa claro, deixando a conclusão se apoiar nos atos e nas decisões de seu protagonista.

Aquele falso autocontrole vai revelar desejos reprimidos, e as últimas 50 páginas são das melhores coisas já escritas neste século.

12
A conclusão é desconcertante. Assutadora e desconcertante.

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2 thoughts on “Notas sobre “Tirza””

  1. Ricardo, ótima análise. Eu li o livro no ano passado e o achei incrível. Concordo muito com você, as últimas 30, 50 páginas estão entre as melhores coisas escritas nos últimos anos. Você REALMENTE não espera pelo impacto! Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Alisson, obrigado. O texto estava na gaveta desde o início do ano. Também li no ano passado e demorei para publicar. Confesso que fui meio reticente por conta dos motivos que expus no blog, mas o livro é muito bom. Bem construído, bem escrito, com boas ideias. É um livro muito forte. Abraços!

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