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Notas de Leitura: crônica de alguns fracassos

Ler passa, em vários casos, pelo fracasso de não chegar ao final de um livro. Já cheguei a sofrer ao enfrentar essa situação. Antes, me forçava a seguir até o final, o que arrastava a leitura além do tempo que normalmente levaria para completá-la. O prazer era nenhum.

Depois, comecei a abandonar a leitura, com algum sofrimento. Ficava incomodado com a desistência, desenvolvia uma relação conturbada com o objeto largado. Olhava para ele num canto da estante sem saber se dava a ele uma segunda chance no futuro ou acabava com aquela angústia e o entregava a algum sebo.

Hoje, abandono sem dó. Não sofro e nem prolongo a leitura. Não me importa quem seja o autor. Estes são os exemplos mais recentes de fracassos.

“Arrecife” (Companhia das Letras), de Juan Villoro

As referências eram as melhores. Comprei o livro num daqueles saldões de livraria, há uns dois anos, antes da minha última mudança. Quando comecei a ler, esperava um romance que retratasse o México refém dos cartéis, ambientado num resort, com personagens originais e bem estruturados.

Tem tudo isso, mas a prosa de Villoro, tratado como um dos grandes autores mexicanos da atualidade, não me convenceu. Achei o livro esquemático, como uma aventura pretensiosa e sem boas soluções, tanto no desenvolvimento como na narrativa – em várias passagens, simplistas, como em um romance barato.

Há mexicanos que tratam da questão das drogas no México com mais competência, como Juan Pablo Villalobos, já entrevistado pelo blog. Villoro entrou na categoria que o encaminha para um sebo.

“Um Homem Apaixonado” (Planeta), de Martin Walser

Mais um daqueles livros abandonados num canto de livraria a um preço de liquidação. E outro que não alcancei o final. O autor alemão lançou o livro em 2008 e se tornou sensação em seu país. Afinal, ele inseria Goethe, uma instituição, como personagem. Tinha mais.

O romance romanceava a relação do escritor alemão com uma garota. Tratado como ficção, a crítica especializada enxergou tons autobiográficos, fato que ele se recusou a comentar. Seria uma coincidência com o que aconteceu com seu personagem principal.

O livro toma como ponto de partida o poema “Elegia”, que Goethe escreveu aos 74 anos, quando se apaixonou por uma menina de 19 anos.

A linguagem de Walser é excepcional. Mas no momento da leitura não estava na sintonia adequada para seguir com a leitura. Portanto, este permanece na estante, naquele canto dos livros a serem lidos.

“História do Pranto” e “História do Dinheiro” (Cosac Naify), de Alan Pauls

São dois títulos da trilogia sobre a Argentina dos anos 70 – o terceiro é “História do Cabelo –, comprados numa liquidação que antecipava o fim da editora. Já tive dificuldade com o escritor argentino, com o seu “Wasabi”. Essa experiência me impediu de ler mais de Pauls.

A resistência foi quebrada com “A Vida Descalço”, ensaio que trata da infância em balneários. Foi o gatilho que me levou a comprar esses dois livros. Vieram duas novas decepções.

Uma prosa que se assemelha ao ensaio, com longos parágrafos que se estendem não raramente por páginas, me levou várias vezes a perguntar para onde Pauls estava me levando, mas não de uma forma intrigante. Era tomado pela impaciência, pois tentava me entregar aos seus exercícios de estilo e não conseguia sair do seu labirinto de vírgulas, orações subordinadas, apostos sem-fins.

Tinha esperança de encontrar em Pauls um escritor a ser lido regularmente, integrante de uma das literaturas que mais admiro – a argentina. Mas este é mais um que vai descansar na lista dos meus fracassos.

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