Brasil, Ensaio, Estados Unidos, Ficção, Notas de leitura, Policial/Suspense, Suécia

Notas de Leitura – Gordon Lish, Mankell e ensaios sobre violência policial

capa-gordon-lish“Coleção de Ficções 1” (Numa Editora), de Gordon Lish
O autor foi editor de Raymond Carver, responsável direto pelo estilo seco e objetivo, de poucas palavras, extremamente econômico na prosa, mas que buscava obter nessa concisão o máximo de sensações para descrever a América profunda e seus medos. A sua experiência como escritor ampliava o trabalho de editor. Neste seu primeiro livro publicado no Brasil, encontramos um texto que possui as características que exigia dos seus autores, mas ele modifica seu tema preferido. Se em Carver, por exemplo, os medos eram universais, aqui, eles são particulares. Caso dos contos “Duas Famílias” e “Medo: Quatro Exemplos”, sufocantes. Há ainda duas referências a J.D. Salinger, “Para Rupert – Sem Promessas” e “Para Jeromé – Com Amor e Beijos”, este último uma paródia a “Para Esmé – Com Amor e Sordidez”. São 19 textos curtos que exigem do leitor uma entrega completa à leitura. Lish impõe narrados em primeira pessoa, em diálogo constante com o leitor, modificando a relação de interlocução. É uma experiência literária. A Numa vai lançar mais três volumes da obra ficcional de Lish. O volume dois já está traduzido e deve sair em julho, segundo a editora.

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“Bala Perdida” (Boitempo), vários autores
Este livro faz parte da coleção Tinta Vermelha, que trata de temas atuais com a proposta de intervenção. Já foram lançados título sobre o legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas, as manifestações de 2013, as ocupações de 2011 e a crise política que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. Este quinto volume estuda a violência policial nos grandes centros em 17 textos de autores como Maria Rita Kehl, Jean Wyllis, Laura Capriglione (jornalista de A Ponte), Luiz Eduardo Soares, Tales Ab’Saber, entre outros. O espectro é amplo o suficiente para dar uma boa visão do cenário atual de como a Polícia Militar atua hoje nos Estados e como isso reflete na vida dos cidadões, principalmente aqueles que vivem nas periferias dos grandes centros. É contundente o artigo assinado pelas Mães de Maio, associação criada após os ataques do PCC em São Paulo, em 2006, que atingiu cidadãos inocentes na retaliação policial. É um livro necessário. Desnecessário, talvez, o conto que fecha o volume, “A História de Tadeu”, de Bernardo Kucinski. Fraco e previsível, uma tentativa pueril de tratar da violência policial. Para reduzir o preço do livro, os autores cederam seus direitos à editora. O físico custa R$ 15, mas algumas livrarias oferecem por até R$ 12. Já o ebook sai por R$ 5 – na Amazon, por R$ 2,75.

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“O Homem que Sorria” (Companhia das Letras), de Henning Mankell
Este é um dos meus autores policiais favoritos. Nesta história, Kurt Wallander volta de uma licença de 18 meses para investigar a morte de dois advogados, pai e filho, assassinados misteriosamente. Seu escritório tinha como cliente o empresário Alfred Harderberg, daquelas figuras misteriosas, dono de um império que ultrapassava fronteiras. Mankell aplica uma crítica à Suécia, país do bem-estar social, mas que mesmo assim trata seus poderosos com certas regalias. À medida que a trama avança, nos deparamos com os percalços da investigação, pistas que vão se somando, sem que o leitor depois descubra que são falsas – esse é um dos méritos do escritor sueco, não iludir o leitor com pegadinhas. Em meio a névoas e um tempo frio que domina o inverno europeu, a cidade de Ystad serve como ambientação para este romance policial que, como em outros livros de Mankell, é impossível de largar antes do final.

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