Comentário, Ficção, Itália

“A Filha Perdida” reforça vigor narrativo de Elena Ferrante

a-filha-perdidaEste “A Filha Perdida” é o segundo livro que leio de Elena Ferrante, um fenômeno editorial que, no Brasil, quase se assemelha à onda de fanatismo que cerca youtubers, harrypotters e afins, tal a infantilidade com que sua obra é reverenciada.

Talvez eu me colocasse no grupo dos que não suportam determinado autor após tentar ler um livro – no meu caso, “A Amiga Genial”, o primeiro volume da tetralogia napolitana publicada pela Biblioteca Azul. Mas, por algum motivo, cedi ao hype e li, no final do ano passado, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), o que me fez rever minha avaliação sobre a autora.

Questões como a identidade real da autora e a febre que reduz a força da prosa de Ferrante a uma seita devem ficar à parte. Outro ponto que não deve ser considerado é fato de que “A Filha Perdida” foi publicada pela Intrínseca, o que gerou, na época do anúncio, uma comoção besta, colocando em xeque a qualidade da edição e da tradução antes mesmo de os detalhes serem finalizados. Coisa de seita mesmo.

O fato é que Ferrante é uma autora maiúscula. Este ‘A Filha Perdida” é seu terceiro romance, publicado originalmente em 2006. Antecede a tetralogia napolitana, que começou sua carreira em 2011. Mas, de alguma forma, serve de prológo à série, se não baseada em seus personagens, mas nos temas que foram aprofundados nos quatro livros.

Aqui, acompanhamos as férias de Leda, uma acadêmica que vai para o litoral sul da Itália. Seu papel como mãe está resolvido, as filhas estão encaminhadas e vivem com o pai no Canadá. Ela busca o sossego numa casa alugada num vilarejo.

Num dia na praia, encontra uma família napolitana que a lembra de sua própria infância. Grande, desordenada, de certo modo grosseiro, com crianças e falatório. Fica a observá-la durante alguns dias, principalmente depois de encontrar seu ponto de referência favorito, a pequena Elena, filha de Nina, mãe jovem que vive às turras com a família.

Cresce entre elas uma relação fundada no diálogo, na conversa que Leda já não tem mais com sua própria família, tão distante desse tipo de assunto. Essa proximidade vai despertando em Leda a memória dos seus dias de mãe, de suas escolhas, da disputa entre a maternidade e a vida profissional, da separação do marido e das filhas. E é nesse ponto que Ferrante explode em vigor narrativo.

Ela mergulha sua personagem nas angústias da maternidade, a vivida anos atrás e a vislumbrada em Elena. Sua narradora consegue enfrentar com certa lucidez, mas cede a alguns impulsos – se em “Dias de Abandono” o limite encontra espaço no cão Otto, deixado pelo marido quando saiu de casa, aqui, Leda vai viver esse momento intempestivo com um objeto importante para a menina Elena.

Nesse momento de tensão, a virada cresce ainda com a aproximação de outros personagens do vilarejo e da família. Leda consegue, então, superar o limite, ainda que deixe vestígios nas suas férias. Ferrante impõe uma solução tão real quanto uma vida pode ser. E coloca o homem em perspectiva, disponível para que a mulher assuma a posição de questionadora.

E é desse trato com os limites impostos à mulher, da forma como suas personagens lidam com seus próprios temores e afetos, que Ferrante tira a força da sua narrativa. Talvez uma das melhores deste século.

*****

“Fiquei olhando ironicamente enquanto, com movimentos precisos, ele extraía as entranhas daquela criatura sem vida e, depois, jogava fora as escamas como se quisesse arrancar de seus corpos o brilho, as cores. Pensei que, provavelmente, os amigos estavam esperando no bar para saber se sua empreitada tivera êxito. Pensei que já havia cometido o erro de tê-lo deixado entrar e que, se minha suposição tivesse fundamento, de qualquer forma ele ficaria ali o tempo necessário para tornar plausível aquilo que contaria em seguida. Os homens sempre têm alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma arrogância frágil, uma audácia pávida. Hoje, não sei mais dizer se alguma vez me suscitaram amor ou apenas uma afetuosa compreensão pelas suas fraquezas. Giovanni, pensei, a despeito do desfecho, iria se gabar de uma ereção prodigiosa com a forasteira, sem remédios e apesar da idade.”

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