Brasil, Comentário, Não ficção

“Tempos Instáveis”: textos fundamentais da “Piauí”, mas a edição tem um porém

Não sou exatamente um fã de livros que reúnem textos publicados originalmente em jornais e revistas – as crônicas são as preferidas. Na maior parte, é uma coleção datada. Há exceções, como os textos selecionados de Rubem Braga, por exemplo, já comentados no blog.

Nesse grupo de exceções, é possível incluir os livros que agrupam as reportagens publicadas na revista “Piauí”. Em 2010, saiu o primeiro dele, “Vultos da República” (Companhia das Letras), uma seleção organizada por Humberto Werneck dos melhores perfis políticos.

Alocado na coleção Jornalismo Literário, tem pérolas como “O Caseiro”, assinado por João Moreira Salles, que perfilava Francenildo dos Santos Costa, que ajudou na queda do então ministro Antônio Palocci.

No final de 2016, a editora lançou, pelo mesmo selo, um segundo volume, desta vez dedicado às reportagens. “Tempos Instáveis” reúne 21 textos, todos memoráveis. Divididos em quatro seções – Cartas do Mundo, Questões Brasileiras, Perfis e Anais da Imprensa –, eles dão cara e nome aos últimos dez anos, o período de existência da revista.

Estão lá o acidente ecológico de Mariana, as operações contra a corrupção, a crise de 2008, tragédias como o assassinato de 43 estudantes no México e o perfil que considero o melhor já publicado pela revista, o do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, escrito por Daniela Pinheiro. 

Os textos são impecáveis e fazem justiça à coleção. Só que esta edição tem um mas.

Um dos charmes da série Jornalismo Literário são os prefácios ou posfácios que cada título traz junto do texto principal. Vou citar alguns:

  • Ruy Castro em “Operação Massacre”, de Rodolfo Walsh
  • Fernando Morais em “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”, de Joel Silveira
  • João Moreira Salles em “O Segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell
  • Sérgio Augusto em “Na Pior em Paris e Londres”, de George Orwell
  • Davi Arrigucci Jr. em “Filme”, de Lilian Ross
  • Joaquim Ferreira dos Santos em “Radical Chique e o Novo Jornalismo”, de Tom Wolfe

São textos complementares ao principal, mas que contextualizam e acrescentam informações sobre o conteúdo e seu autor. Até 2015, esses prefácios e posfácios eram coisa fina. Desde então, a editora parece que ligou a inércia e não dá mais atenção a esse detalhe.

A análise sem distanciamento

É o caso deste “Tempos Instáveis”. Sim, tem um prefácio. É de Fernando de Barros e Silva, que também foi o organizador. Ele é diretor de Redação da “Piauí”. Ou seja, perde-se em perspectiva de análise, no distanciamento da avaliação e até na seleção dos textos.

Não questiono a qualidade de Barros e Silva. O ponto não é esse. A questão é que, por mais que uma seleção como essa seja de alta qualidade, é preciso oferecer ao leitor uma visão distante de quem a produz. Não há espírito crítico, ainda que seja elogioso – e neste caso, do chefe que escreve sobre seu produto, como não ser elogioso?

É mais um trabalho preguiçoso da editora, hoje a maior casa editorial do Brasil. Já relatei casos semelhantes no lançamento de “Obra Completa”, de Raduan Nassar, e de outros dois livros da coleção Jornalismo Literário, “41 Inícios Falsos”, de Janet Malcolm, e “O Voyeur”, de Gay Talese.

Mesmo esse tratamento desleixado não desqualifica “Tempos Instáveis”. Quem não leu as reportagens na revista tem uma ótima oportunidade para se deliciar nessa coleção. Para quem já leu, a chance de reler promove novos prazeres, principalmente quando há um distanciamento do fato – para citar minha reportagem preferida, reencontrar a arrogância de Ricardo Teixeira, depois da sua queda brusca, é alvissareiro.

Distanciamento que um prefácio como o selecionado para este livro não permite. É o ponto baixo desta obra fundamental para entender o Brasil da última década.

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2 comentários em ““Tempos Instáveis”: textos fundamentais da “Piauí”, mas a edição tem um porém”

  1. A Piauí tem um nível de excelência incomparável no Brasil, embora eu nem sempre tenha paciência para ler todas aquelas reportagens enormes. Lembro de uma sobre a queda do voo da Tam em São Paulo, que também era um perfil da então chefe da Anac, Denise Abreu, que era um exemplo de bom jornalismo, assim como a de um outro desastre, o da Air France. Tinha um perfil de um gênio da matemática que era lindo também, assim como é imperdível esse de Ricardo “caguei montão” Teixeira a que você se refere.

    Uma fortuna crítica é sempre bem-vinda. Acabei de ler Carta ao Pai, de Kafka (que ao contrário de você e do meu amigo Italo não me disse muita coisa ou quase nada) e o melhor do livro foi a contextualização da obra feita pelo próprio tradutor, Modesto Carone. O livro, por sinal, é da Companhia das Letras.

    Você citou Operação Massacre. Venho paquerando esse livro há um tempo. Puta história trágica desse autor.

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    1. Também não leio tudo. Nem tudo me interessa, mas, como você mesmo disse, a excelência é incomparável. Quanto ao Carta ao Pai, as edições de Kafka são muito bem feitas, mas não sei como seriam hoje. E o livro do Rodolfo Walsh vale a leitura, é forte, bem escrito e revelador sobre a ditadura argentina.

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