Comentário, França, Literatura infantojuvenil

“This Is a Poem That Heals Fish”: um livro que respeita a criança

Já há algum tempo me tornei fã das newsletters. Foi a melhor forma que encontrei de organizar minhas fontes e separar o lixo do conteúdo que realmente me interessa. Do noticiário diário a leituras segmentadas, o conteúdo entregue diretamente no email é a melhor solução atual.

No meio da bagunça que as redes sociais promovem, com algoritmos que às vezes dão a sensação de que são burros como portas, a gente acaba encontrando coisas poderosas. Uma delas é a newsletter da Brain Pickings, semanal e dedicada à cultura, com mais ênfase à literatura.

Assim se define: “An inventory of the meaningful life”. E é deliciosa. Não espere textos curtos com links para outros locais e propaganda invasiva. Assine e saberá.

Na edição de 26 de março, o principal texto da newsletter tratou de um livro (picture book) para crianças chamado “This Is a Poem That Heals Fish” (não vou traduzir o título nem os trechos que citarei). Escrito pelo francês Jean-Pierre Simeón e ilustrado por Olivier Tallec, o livro é de uma sensibilidade ímpar, envolvente e que promove a imaginação sem recorrer a recursos fáceis e banais.

Na história, Arthur é o garoto que vê seu peixe Leon apático e ouve da sua mãe o conselho de dar um poema para melhorá-lo. O menino então começa sua busca do poema, sem saber o que é e onde encontrá-lo.

Ele vai ao bicicleteiro Lolo, aquele que sabe de tudo. Assim ele responde:

“A poem, Arthur, is when you are  in love and have the sky in your mouth.”

Em seguida, ele passa na padaria da senhora Round, que fala:

“A poem? I don’t know much about that.

But I know one, and it is hot like fresh bread.

When you eat it, a little is always left over.”

Então, Arthur segue até a casa do velho Mahmoud, que veio do deserto e rega suas azaleias pontualmente às 9h.

“A poem is when you hear the heartbeat of a stone.”

O livro passa pela lúdico quando um pássaro numa gaiola na verdade é uma mulher ruiva, que diz para Arthur:

“A poem is when words beat their wings.

It is a song sung in a cage”

A avó de Arthur chega e responde:

“When you put your old sweater on backwards or inside out, dear Arthur, you might say that it is new again.

A poem turns words around, upside down, and — suddenly! — the world is new”

Sua avó fala também para Arthur procurar seu avô, que costuma escrever poemas em vez de consertar canos. E a resposta vem:

“A poem? grandpa says, tugging on his mustache and looking worried. A poem, well… it’s what poets make. Even if the poets do not know it themselves!”

Frustrado por não ter encontrado uma resposta, Arthur volta para casa e vai falar com Leon. Pede desculpas e diz que a única coisa que descobriu foi:

“A poem
is when you have the sky in your mouth.
It is hot like fresh bread,
when you eat it,
a little is always left over.

A poem
is when you hear
the heartbeat of a stone,
when words beat their wings.
It is a song sung in a cage.

A poem
is words turned upside down
and suddenly!
the world is new”

O peixe abre seus olhos e pela primeira vez fala:

“Then I am a poet, Arthur.”

E termina com esta imagem.

O livro dá a sensação de que não é difícil escrever para crianças, tal a simplicidade de suas soluções. Sem invencionices, os autores exploram a imaginação dentro de um cotidiano possível para todo garoto: o amigo sabichão, a moça da padaria, o velho da esquina, os avós.

Não foi preciso recorrer a personagens de games, superheróis e lutadores de MMA para falar com uma criança de forma inteligente. Ao mesmo tempo, não apelou para coisas infantis demais que subestimam a inteligência da criança. É uma pequena obra-prima.

Não foi lançado no Brasil, e nas lojas online só encontrei por encomenda na Livraria Cultura. Pena.

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