Ficção, Japão, Notas de leitura

Notas de Leitura – Três autores japoneses


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“Guerra de Gueiras (Estação Liberdade), de Nagai Kafu
Este livro foi censurado até os anos 1960, quando circulava sem os trechos considerados eróticos. Mas não espere nada explícito, está tudo nas entrelinhas e no entendimento que o leitor faz da vida das gueixas. Além disso, nem é o principal deste romance de Kafu. Estamos diante de um jogo entre duas gueixas envolvidas com um homem que tenta “comprar” o passe de uma delas, ou seja, quer exclusividade no antendimento. Kafu explora a subserviência das gueixas quando uma delas rejeita a proposta, decisão que deixa seu antigo amante desconcertado.

O leitor encontra no romance um relato da vida das gueixas, das relações entre os japoneses e essa profissão mal compreendida, tudo ambientado em Shinbashi, o bairro da perdição em Tóquio. Esse mergulho nas relações estabelecidas entre homens e mulheres japoneses no início do século 20 é de uma delicadeza impressionante, pois, ao aprofundar o estudo das personagens, consegue extrair a humanidade de cada uma delas. Envolvente, o livro revela a falabilidade, a zona cinzenta que domina o ser humano.

3

“A Gata, Um Homem e Duas Mulheres seguido de O Cortador de Juncos” (Estação Liberdade), de Jun’Ichiro Tanizaki
Este é um dos autores japoneses preferidos do blog. Dele, escrevi sobre “Diário de um Velho Louco”, seu melhor livro, “Voragem” e “Há Quem Prefira Urtigas”. O livro reúne duas novelas do escritor, da década de 1930, que mantêm em vista seus temas preferidos: personagens perturbados, triângulos amorosos e casamentos em crise. O que muda aqui, principalmente na primeira, é outro vértice da obra de Tanizaki. Se em outros romances a mulher é subserviente, agora ela reduz a figura do homem, sempre o protagonista e a ditar o rumo das ações.

A história trata de Shozu, o marido, Fukuko, sua atual mulher, e Shinako, a ex, que, na abertura do livro, envia uma carta para pedir que o casal ceda a posse de uma gata, Lily. Verdadeira obsessão e motivo de ciúmes das mulheres, a gata é quem conduz a narrativa. Todas as ações das personagens são apoiadas no desejo de, primeiro, recuperar o bichono, depois, de se livrar dele, como prova de amor. A condução de Tanizaki é primorosa, intercalando na narrativa em terceira pessoa enxertos de fluxos em primeira de cada um dos protagonistas. A novela é primorosa.

Já “O Cortador de Juncos” explora a linguagem, ao inserir tramas dentro da principal, evocando o teatro nô. O acaso dita o rumo de um homem, após um encontro com um desconhecido. As histórias contadas recuperam o passado afetivo. Acompanhamos dois planos narrativos, cada qual com seu desenvolvimento e suas memórias. É uma novela mais contemplativa, em oposição ao drama da primeira do livro. Em ambos os casos, Tanazaki busca o escuro do homem com maestria.

4

“Rashômon e Outros Contos” (Hedra), de Akutagawa
Contemporâneo de Tanizaki, Ryûnusoke Akutagawa é considerado o mestre do conto moderno japonês. Dois dos seus contos serviram de base para o clássico filme de Akira Kurosowa, “Rashômon” – o conto homônimo e “Dentro do Bosque”, presente na coletânea com outros oitos títulos. Ambientados na antiga Quioto, eles retratam a cultura da cidade e de uma época, como na história que dá título ao livro, em que um servo se vê preso sob o portal Rashomon, na entrada da cidade, por conta da forte chuva, enquanto medita sobre sua recente demissão e o futuro incerto à sua frente. A segunda história é genial, ao contar a história de um assassinato sob a perspectiva de sete personagens. O leitor fica perdido em meio a tanta informação desencontrada, enquanto o autor vai desenvolvendo a trama. Magnífico conto, que por si só vale o livro inteiro.

Outro tema forte dos contos de Akutagawa é a crítica ao cristianismo, que chegou ao Japão no século 16 com os jesuítas – história aprofundada por Shusako Endo em “Silêncio”, em breve comentado aqui no blog. Em “Memorando ‘Ryôsai Ogata” e “Ogin”, o escritor japonês vai fundo na influência religiosa na tradição local.

Em “O Baile”, Akutagawa evoca o romance europeu, ao contar a história de um oficial francês que flerta com uma japonesa nos oitocentos. Reflexo de seu estudo da literatura inglesa, o conto se desenvolve como se estivéssemos lendo um ocidental. Ele consegue tranpor as culturas e entrega algo universal.

Para fechar, “A Vida de um Idiota” é uma espécie de testamento literário, em 51 trechos que descrevem diversas passagens da vida do autor – encontros com afetos, a tentativa frustrada de suicídio, problemas financeiros, a relação com Tanizaki. Tocante e vigoroso, é um conto que expurga suas entranhas. Um mês depois de finalizá-lo, Akutagawa se matou.

O livro está disponível para download nesta página do UOL. É uma pequena obra-prima.

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