Brasil, Comentário, Crônicas

Nova antologia reforça a falta que Paulo Francis faz ao jornalismo cultural

Houve uma época em que os grandes jornais influenciavam seus leitores, especialmente os que liam seus cadernos culturais e colunistas. Comentei recentemente no Facebook que a “Ilustrada” passa atualmente por sua pior fase, com aquele que talvez seja seu pior editor. Previsível, sem criatividade, com raros arroubos jornalísticos aqui e ali.

É um exemplo, mas perfeitamente aplicável a outros jornais e cadernos culturais. Talvez seja mais um efeito da crise que atinge os meios de comunicação, talvez seja causa – acredito numa mescla, esse jornalismo ruim ajudou à queda e foi prejudicado pela fuga de leitores.

O jornalista Paulo Francis | Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress
O jornalista Paulo Francis | Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Sem querer ser saudosista, mas essa influência era exercida com vigor nos anos 1980, a época em que posso analisar com mais propriedade. Os cadernos culturais eram lidos porque tinham o que falar, havia um gana jornalística que hoje se transformou num tom blasé – esse tom blasé antes se restringia aos jornalistas, não nas matérias. Agora, ambos, repórter e seu texto, carregam um viço tão fora da realidade e preguiçoso que acabam por aprofundar o caos.

E, quando se tratava de influência, talvez o principal jornalista tenha sido Paulo Francis. Hoje, contestado pela esquerda, a que ele também renunciou, mais lembrado por embates pessoais e eventuais erros de seus textos, Francis era uma bússola numa época em que ter esse instrumento era fundamental para se alimentar. Sem internet e redes sociais, a cultura era consumida nos jornais e revistas, e Francis foi quem mais influnciou esses leitores.

a-segunda-mais-antiga-profissao-do-mundo“A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo” (Três Estrelas) é a segunda coletânea de colunas publicada pelo selo da “Folha”, organizada por Nelson de Sá, que foi pupilo de Francis em Nova York. A primeira, “Diário da Corte”, era mais generalista, com textos de política e cultura, de tons pessoais e que chegavam até sua briga histórica com Caio Túlio Costa, na época ombudsman do jornal.

Este novo volume foca em jornalismo, política e cultura, especialmente, cinema e literatura. Ele faz análises metódicas sobre a cobertura jornalística dos meios norte-americanos, trata da política dos anos 70 e 80 com o cinismo característico e apresenta autores e diretores com entusiasmo ou total aversão. Era Paulo Francis no auge.

Para o bem e para o mal, Francis criou cópias que mal conseguem chegar aos seus pés. Da mesma forma, criou aqueles que o renegam por posições políticas, o que é uma bobagem imensa. O Brasil não só não encontrou um jornalista autoral como Francis, com todas as suas qualidades e seus problemas, como sente falta de alguém com esse perfil.

Raro é o texto que não tenha uma opinião interessante e original, textos bem construídos com sacadas inteligentes. É leitura para se deliciar e ser influenciado.

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