Bielorrússia, Comentário, Não ficção

Anotações sobre “O Fim do Homem Soviético”

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Este é o terceiro livro que leio da autora Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch. Até início de 2016, era uma escritora inédita em português, e aqui há de se elogiar o trabalho da Companhia das Letras, sua editora no Brasil. Em pouco mais de nove meses, temos três livros traduzidos e publicados: “Vozes de Tchernóbil” e “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, que se somam a este “O Fim do Homem Soviético”.

A lamentar apenas o fato de que foi preciso uma condecoração para que alguma editora se predispusesse a publicar a autora no Brasil. Ao que consta, ainda há mais um livro de Aleksiévitch a sair. Ela é necessária.

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Neste, como nos outros, estamos diante do gênero polifônico que marca o trabalho da escritora bielorrussa. Ela dá voz a seus entrevistados, praticamente sem intervenção, exceção em algumas contextualizações. Os livros são compostos pelas narrativas de pessoas comuns, estas que vivem a história e suas consequências sem a presença dos grandes atores. O olhar de Aleksiévitch se concentra nesse anônimo, e é a partir dessas particularidades que ela enxerga o mundo.

Lemos sobre o cotidiano banal, aquele desenrolar da vida que acomete a todos. A diferença é que essa banalidade está inserida em algum fato histórico, de virada. Se antes conhecemos a tragicidade que atingiu as vítimas de um acidente nuclear e os enfrentamentos que as mulheres tiveram que passar na 2ª Guerra Mundial, agora mergulhamos na União Soviética e na derrocada de um sistema. Mais importante. A vida das pessoas que vivenciaram a esperança comunista se abre diante do leitor de forma abrupta, sem censura, sem medos.

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Aleksiévitch recorta a história soviética e aborda o período de 1991 a 2012. Mas, para tratar desse intervalo, seus personagens voltam aos tempos de Stálin, do pós-guerra, da Guerra Fria, pois impossível rever e avaliar o que aquele momento transmitia sem compreender de onde surgiu aquele país. E isso os próprios entrevistados o faziam, ao recorrer à memória para comparar, reclamar, xingar ou simplesmente lembrar de uma época.

A autora não promove nenhum julgamento, deixa para a história, neste caso, relatada por suas testumunhas, avaliar e sentenciar.

O ponto de partida do livro já inclui a queda do Muro de Berlim e o desmanche do bloco oriental da Europa. Vislumbra o desmonte das repúblicas soviéticas, o fim de Gorbatchóv, subida de Ieltsin e a chegada do capitalismo, agora, à Rússia de Putin.

Ela conduz suas pesquisas de forma a mapear este homem soviético, criado sob a perspectiva de um Estado comunista, mas que é tombado com a abertura política e econômica. Como um ser à beira da extinção, esse homem soviético teve, até então, sua vida regida por uma sociedade ideológica e que, de repente, desmorona sem deixar formas de reconstrução.

São esses personagens, encarnados na figura do homem soviético, que tratam de reconstruir nos relatos suas vidas e como eles existiram e sobreviveram. A escritora, para isso, senta-se à mesa com eles para ouvi-los.

Gorbatchóv chega ao poder, em março de 1985 | Foto: Getty
Gorbatchóv chega ao poder, em março de 1985 | Foto: Getty

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Em algum momento, este livro pareceu enfadonho. Provocou um ponto crítico na cabeça. Li e li dezenas de páginas de relatos transcritos, sem intervenção, apenas a reprodução de suas entrevistas. E aquilo, de alguma forma, incomodou em certo instante. Após dois livros com o mesmo estilo, questionei se a autora não se tornara refém de uma fórmula.

Fórmula que investigava um aspecto fundamental da história, assim como nos seus livros anteriores, mas ainda assim fórmula. Parei de ler por alguns dias, pois aquilo não mais me convencia. Onde estava a autora naquelas relatos? Onde estava o texto, a prosa não ficcional, a autoria? Em algum momento, tive a sensação de estar lendo um relatório jornalístico. Era preciso parar.

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Quando, dias depois, me senti impelido a voltar a ler o livro imediatamente. A ausência me intrigava, estava completamente envolvido com aquela tom monocórdico, uma clara contradição com a proposta polifônica da obra de Aleksiévitch.

Queria ler mais, saber mais, conhecer mais aquelas pessoas, aquele homem soviético. O que identifiquei como monotonia se revelou aquilo que a escritora faz com sabedoria e talento, emergir a vida de anônimos para tratar da História. E a vida dos comuns é monótona, chata, entendiante. Como a minha vida. Provavelmente, como a sua. A diferença é que a bielorrussa buscou essa monotonia para montar um painel de vozes que, juntas, traduzem um país exterminado.

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Então, avancei sem parar até o final, até encontrar o último capítulo, “Observações de uma cidadã”.

*****

Sinapses

  • Este é o ano do centenário da Revolução Russa, que as editoras vão explorar ao máximo. Entre os títulos anunciados, o que mais me chamou a atenção foi “O Túmulo de Lênin”, escrito por David Remnick, que sairá pela Companhia das Letras. Desde já, é leitura imperdível
  • “Morte de um Dissidente” (Companhia das Letras) trata de um fato na era Putin, o envenenamento de Alexander Litvinenko, que lembrou procedimentos e estratégias da KGB
  • “Dez Dias que Abalaram o Mundo” (Penguin) é um indicação clássica, banal, mas necessária. Esta edição tem um curto prefácio de Lênin, apêndices do autor, John Reed, e introdução do historiador A.J.P Taylor
  • “Imperium” (Companhia das Letras), de Ryszard Kapuscinski. Relato de 50 anos de viagens pela União Soviética, uma grande reportagem sob o olhar particular do jornalista. Está fora de catálogo, o que valeria uma atenção da editora para este título, ainda mais neste ano. Na Estante Virtual, há poucos exemplares disponíveis, entre R$ 42 a R$ 75.
  • Na TV, vale assistir à série “The Americans”, que aborda a vida de dois espiões soviéticos vivendo em Washington
  • Lembrança mais que bem-vinda de Paulo Sales: “O Homem que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura, que ficcionaliza a morte de Trótski. Um livro a ser lido, como ele bem escreveu na lista de fim de ano
Cena de “The Americans”
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8 thoughts on “Anotações sobre “O Fim do Homem Soviético””

  1. Ricardo e Paulo, comentários perfeitos! A maioria de nossa esquerda (e direita) estão como o cadáver embalsamado de Lênin. Uma outra boa (porém manjada, vá lá) dica é “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Solzhenitsyn. Abraços

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  2. boas anotações. ainda li a mulher e devo começar pelo “Vozes de Tchernóbil”.

    aproveitando a deixa do Paulo, tomo a liberdade de sugerir também os seguintes livros: 1) pensadores russos do Isaiah Berlin; 2) anna, a voz da russia do lauro machado coelho; 3) os dois livros da grandíssima anne appleubam – gulag e a cortina de ferro; 4) terra negra – uma viagem pela russia pos-comunista do jornalista Andrew Meier; 5) os escombros e o mito do boris schnaiderman; 6) por último, no campo da ficção: casa de encontros do martin amis.

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    1. O Gulag, de Anne Applebaum, eu tenho em casa mas nunca li. Vou incluir na lista de leituras. O novo de Julian Barnes, O Ruído do Tempo, também é ambientado no universo totalitário da URSS. É o meu próximo.

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  3. Preciso ler Svetlana, embora a Rússia seja para mim um enigma. Um país cujo povo frio embebido em vodka e as paisagens geladas não me empolgam.

    No tópico Sinapses lembrei de O Homem que Amava os Cachorros, de Padura. Embora não trate apenas da Rússia, mas também da Espanha da Guerra Civil e da Cuba pós-revolucionária, tudo começou ali, em 1917. Inicialmente como algo que justificaria a esperança e a utopia nela depositadas e depois como tragédia, que levou a reboque milhões de pessoas, não apenas na Rússia.

    Stálin, sempre ele, que junto com Hitler foi provavelmente o indivíduo mais nocivo do século 20. Impossível não analisar a maior parte dos acontecimentos geopolíticos desse século sem a presença da Rússia e sem a máquina de espionagem, repressão e extermínio montada por Koba e sua turma.

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    1. Esse livro aquece um pouco esse cenário que você descreveu sobre a URSS. São os anônimos falando, e isso gera uma certa simpatia.
      Quanto ao livro do Padura, vou inclui-lo na lista. Muito bem-vinda sua lembrança.
      A Revolução Russa tem certamente sua importância na história, não há discussão, mas me parece que falta perspectiva nessa adoração sobre o movimento e suas consequências. Não consigo entender exatamente o que celebrar positivamente em 2017.

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      1. Não há mesmo o que celebrar. Essa adoração – assim como a repulsa do lado oposto – mostra que ainda não deixamos o século 20. Impressionante como a esquerda ainda se pauta pelo marxismo e releva as atrocidades cometidas pelos regimes comunistas. E como a direita ainda usa o termo “comunista” como uma ofensa. É como se toda a segunda metade do século passado não tivesse existido, muito menos a social-democracia de inspiração keynesiana, que tornou os países da Europa verdadeiros estados de bem-estar social. Esse sim é o grande avanço econômico e social que deveria servir de modelo. Mas talvez Cuba tenha mais charme.

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