Brasil, Comentário, Não ficção

“À Sombra do Poder” escancara bastidores do fim do governo Dilma

a-sombra-do-poderApós ler “À Sombra do Poder” (Leya), a primeira coisa que me veio à cabeça era que seria muito difícil escrever sobre ele aqui no blog. Primeiro, porque a ideia de manter este espaço ainda era uma incógnita. E segundo, porque escrever sobre política, um livro que trata da queda da então presidente Dilma Rousseff, poderia gerar impressões equivocadas.

Bem, o blog voltou, e eu tirei a dúvida da cabeça. Porque espero que o raro leitor entenda que este texto não se trata de ato político ou de defesa partidária/ideológica, esse maniqueísmo besta que domina o país há mais de uma década e que, neste momento, só o leva ao abismo.

O livro é um relato dos últimos 13 meses de Dilma na Presidência da República, o período em que o jornalista Rodrigo de Almeida trabalhou como assessor de imprensa do Ministério da Fazenda e secretário de imprensa da Presidência. Ele escreve sobre os bastidores desse recorte histórico, acompanhando da crise econômica ao impeachment.

Esse olhar interno não deixa escapar críticas, mas também não é tão isento nem distante quanto alguns leitores destacaram. É um documento fundamental para entender como funcionava o mecanismo interno do governo na época, especialmente a relação do então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que ocupa boa parte do livro, com a presidente e o PT – leia-se Lula, principalmente.

Almeida parece querer dizer que esse foi o ponto que levou à quebra de confiança do partido com Dilma e, depois, de Dilma com sua base política. Se o país já estava rachado depois da eleição de 2014, a essa quebra se somou esses dois fatores que fragilizaram ainda mais o segundo mandato da petista. O autor não é claro nas suas intenções, mas o espaço dedicado sugere ao leitor que a economia foi determinante para a queda.

Mas não só. A forma como Dilma se relacionava com a base política do governo, PMDB à frente e partidos de aluguel acompanhando, também ajudou a destruir o pedestal para onde o PT foi levado em 2002. Almeida vai construindo seu relato com as miudezas que dominavam a gestão de Dilma e como isso batia na imprensa e no estafe do governo.

Nem sempre consegue se manter isento, mas quando assume um lado não o faz de forma figadal, mas como alguém que estava de um lado e enxergava os fatos sob esse viés. Natural, mas bem contido, o que não transforma o livro num acerto de contas, muito menos num exemplar de ato político. Se não é uma peça jornalística, pode-se considerar um relato que ajuda a entender como um governo se desmanchou mesmo tendo 54 milhões de votos.

A ex-presidente Dilma Rousseff lê discurso após anúncio do Senado | Foto: Exame/Ueslei Marcelino/Reuters
A ex-presidente Dilma Rousseff lê discurso após anúncio do Senado | Foto: Exame/Ueslei Marcelino/Reuters

Ao chegar à época do impeachment, Almeida escancara a inabilidade política de Dilma, enquanto Lula vigiava, às vezes à distância, às vezes bem próximo de sucessora, os passos do processo. Numa espécie de cabo de guerra informal e nunca assumido, ambos perderam naquele momento.

Quem espera grandes revelações vai se decepcionar. Até porque não era esse o objetivo de Almeida, é a sensação que passa desde a sua abertura. O livro é uma radiografia de quem tinha olhos especiais, que estava nas engrenagens de um governo que enfrentou uma crise econômica e não soube lidar, enfrentou uma crise política interna e também não soube lidar e, por último, enfrentou uma crise política externa, com uma país dividido e em fúria, um Legislativo refém da opinião pública e de manobras não muito republicanas.

Desse retrato traçado por Almeida, emerge o impeachment, o único resultado possível que as crises que Dilma enfrentou desde sua reeleição vislumbraram.

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