Brasil, Comentário

Como escolher Daniel Galera e ignorar Elvira Vigna? O Prêmio Bravo! responde

“Prêmio de amigos para amigos. Todos homens, brancos. realmente não é nada representativo.”

“Um prêmio 100% para homens não diz sobre a literatura brasileira. Não contou com nenhuma mulher no júri, muito menos como finalista. Este prêmio deveria ser revisado. Um desrespeito em pleno mês de março termos algo assim circulando.”

“Nenhuma mulher no júri. Nenhuma mulher finalista. Cartas marcadas das editoras. Homem branco premiando homem branco. Nenhuma mulher escreve. Nenhuma mulher publica.”

“O fato de só serem escritores homens não surpreende quando o júri também é 100% masculino. Depois são as mulheres as cheias de panelinhas. Vergonhoso.”

“Só homens na lista de jurados, só homens indicados, só homens premiados em TODAS as edições. Cadê que existe literatura na mão de mulheres pra vocês? Em plena semana da mulher.”

Estes são alguns comentários deixados no anúncio do Prêmio Bravo! 2016 de Melhor Livro, publicado no perfil da revista no Medium e Facebook. Aos fatos.

O júri é composto por três homens: o escritor André Santanna, o crítico e professor de literatura Luís Fischer e o jornalista e ex-curador da Flip Paulo Werneck.

A tal banca da Bravo! escolheu três livros para o turno final da eleição: “O Livro das Postagens”, de Carlito Azevedo, “Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los”, de Evandro Affonso Ferreira, e “Meia-Noite e Vinte”, de Daniel Galera. Todos homens.

Tanto no Medium como no Facebook  não vi resposta da revista aos comentários até o momento em que publico este post.

Evidentemente, essa seleção revive o velho clubinho dos homens machos alfas intelectuais que se fazem de sensíveis mas que no fundo apenas repetem comportamentos machistas e parciais.

E há um agravante.

O ano de 2016 foi pródigo em livros lançados por mulheres, livros de qualidade inquestionável que deveriam estar em qualquer lista de melhores do ano. Ainda mais numa lista que seleciona um livro de Daniel Galera.

Não li o de Carlito Azevedo nem o de Evandro Affonso Ferreira – deste, conheço suas obras anteriores, soberbas. Mas li o do Galera, para ninguém falar que critico esse escritor sem ter lido nada dele. Li, como li seu anterior, “Barba Ensopada de Sangue”. Ambos ruins, fracos, esquemáticos, com personagens rasteiros, soluções bobas. Enfim, mal escritos.

O júri assim justificou a seleção do livro de Galera:

“Novela muito bem realizada, com uma trama nítida e personagens sólidos, envolvendo além de tudo algumas dimensões fortes da vida contemporânea — de violência urbana banalizada a uso de aplicativos, passando por aspectos muito vivos do feminismo — , e ainda com um desfecho muito bacana”.

Aspectos muito vivos do feminino? Sei.

Galera participou de uma mesa na Flip-2015 , ao lado de outros machos, como Ronaldo Bressane e Joca Reiners Terron, e debateu literatura feminina. Talvez essa mesa o tenha credenciado a discutir aspectos vivos do feminismo e ser reconhecido por isso. Muito bacana. Afinal, ele cravou, no encontro de amigos: “Ideia que existe literatura feminina é forte e errada”, disse o homem, cercado pelos companheiros.

Parêntesis

Esse é um dos grandes males das artes brasileiras, essa ação entre amigos, que se protegem e promovem em meio a discursos que se erguem contundentes e modernos, mas que no fundo não passam de disfarce para uma masturbação conjunta e celebratória.

Outro exemplo: o Sesc-SP promove entre março e junho o Laboratório Secreto (Invenção na Literatura Hispano-Americana). Sabe quem comanda? Joca Reiners Terron – justificável pela sua curadoria da coleção Otra Língua. Quem ele chamou para ser debatedor? Ronaldo Bressane e outros dois homens. Tudo igual, sempre os mesmos.

São machos de talento questionável, que por algum motivo encontram boa recepção na crítica, entre jornalistas, editoras e, claro, blogs amigos.

Na descrição dos módulos desse Laboratório, só são citados autores homens. Claro. Ignoraram completamente as mulheres, relegando-as à expressão “entre outros”. E assim a carruagem continua.

Voltando

O livro de Galera é ruim. Não para em pé e não poderia nunca ter sido selecionado para esse prêmio – ou para qualquer outro. Mas a cada lançamento Galera é levado a premiações, feiras literárias nacionais e internacionais, sempre rodeado dos amigos da imprensa, de editora e de profissão.

Não sei como o júri da Bravo! conseguiu selecionar o livro de Galera e deixar de lado livros infinitamente superiores ao dele. Vou citar alguns:

A escritora Elvira Vigna, autora de “Como se Estivéssemos num Palimpsesto de Putas”

Citei três livros, três livros escritos por mulheres. Esses três são infinitamente melhores que o do Galera, incomparavelmente melhores. Um leitor recém-alfabetizado conseguiria perceber a diferença – e exagero para reforçar a ideia de discrepância entre os títulos.

É um equívoco. Daqueles que não encontram justificativa.

Pois, mesmo se considerarmos que a premiação é um clube exclusivo para machos, nem assim a escolha de Galera se sustenta. “A Vista Particular”, de Ricardo Lísias, é também infinitamente superior a “Meia-Noite e Vinte”. Mas, nesse caso, talvez fosse uma resposta esperada, já que Lísias é constantemente ignorado em premiações nacionais, apesar de qualidade indiscutível de sua obra. Sim, o meio literário (imprensa, curadores e júris) deve se tratar urgentemente e superar o romance “Divórcio”, um dos maiores injustiçados da literatura contemporânea.

Quando o Prêmio Bravo! ignora aquele que foi o melhor livro nacional de 2016, o de Elvira Vigna, para colocar um autor que brinca de ser escritor junto a seu clubinho de caubóis barbudos, passa uma mensagem bem objetiva, sem entrelinhas.

Há motivo para incluir Daniel Galera na lista do Prêmio Bravo!. Certamente, não é literário.

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2 thoughts on “Como escolher Daniel Galera e ignorar Elvira Vigna? O Prêmio Bravo! responde”

  1. É bem notório que entre os atuais escritores brasileiros prevalece uma ideia de gangue, em que um membro protege e divulga o outro. Também questiono bastante o porquê querem promover o Galera a todo e qualquer custo. Digo, dentre tantos escritores atuais, bons ou ruins, pq ele, especificamente, foi escolhido para ser transformado em “fenômeno”? E olha que não acho, por exemplo, o Barba Ensopada de Sangue um livro tão ruim assim, embora esteja muito, mas muito longe de merecer o hype que recebeu.
    Enfim, que texto, Balla! Bem mais necessário que muitas obras que andam lançando por aí.

    Curtido por 1 pessoa

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