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“Quarenta Dias”: a literatura de resistência e confronto de Maria Valéria Rezende

quarenta-dias“Quarenta Dias” (Alfaguara) é o primeiro livro que leio de Maria Valéria Rezende, escritora com forte atuação na literatura infantil e que venceu o Jabuti de 2015 com esse título. Era uma autora que eu namorava havia tempos, desde que li um texto do crítico Alfredo Monte sobre “O Voo do Guará-Vermelho”.

Sua prosa é política, mas sem ideologias baratas ou pregação para convertidos. É marcante pois ativista, com olhos para o ser humano. Com uma vida dedicada à educação popular, principalmente no Nordeste, é religiosa, e aos 74 anos encontra reconhecimento no seu trabalho literário.

Neste livro, acompanhamos Alice, uma feliz professora aposentada que vive na Paraíba – assim como a autora. Leitora de Elvira Vigna, aproveita sua vida no Nordeste até que recebe a visita de sua filha, que mora em Porto Alegre. Ela quer que a mãe se mude para o Sul, pois ronda a maternidade e gostaria de ter a ajuda da futura avó. Promete tudo de melhor para Alice, que, de certa forma envergonha, cede e deixa sua vida e amigos para trás.

A vergonha aumenta quando descobre que a filha e seu marido precisam se mudar para o exterior e a largam sozinha numa cidade desconhecida, fria, solitária. Vai viver num apartamento insípido, como se tivesse que recomeçar a vida à força, refugiada de sua Paraíba por causa de laços sanguíneos.

Valéria Rezende trabalha bem a ideia dos opostos geográficos e culturais do Brasil e transforma Alice numa desbravadora, uma personagem que vai enfrentar a traição da filha à sua maneira – é a postura política que importa neste momento.

O porteiro, as domésticas, os atendentes, todos distantes da loirice sulista, acabam por se transformar num porto seguro, ainda que Alice não esteja disposta a se ancorar nesse conforto. Ela quer o confronto, marcar posição. Se for para mudar de vida, que seja, mas haverá resistência.

O ponto de ruptura chega quando recebe um telefonema da Paraíba, e uma conterrânea pede ajuda para encontrar o filho, Cícero, que viajou a Porto Alegre para trabalhar e nunca mais deu notícia. De posso de poucas informações, ela assume a tarefa e se embrenha pela cidade. Nesse momento, o leitor entende a referência do título, quando vai descobrindo o diário que Alice escreveu sobre sua busca.

Ela vai viver nas ruas, desenhando uma roadtrip interna para conhecer suas rachaduras, com a desculpa de estar de pé no chão em busca do filho da amiga. Valente, determinada, que para a filha lembra teimosia, Alice conduz sua epopeia com vigor, apoiada numa narrativa firme de Valéria Rezende.

Não há busca por redenção. Até porque a vida real não abre espaço para esse tipo de coisa frequentemente. Há os fantasmas que nos são legados durante a trajetória, por conveniência ou contingência. Há a mulher, vivida e sofrida, levada para um local inóspito, que tenta superar a condição subserviente e resistir. São essas memórias que insistem em permanecer, que nos tornam caçadores de sumidos, como ela escreve.

Maria Valéria Rezente, assim como Elvira Vigna, é uma escritora a ser lida.

*****

“Não sei o que disse Norinha nem o que respondi. Devo ter grunhido com bocejos e monossílabos, aos poucos tomando  um tom mais amargo, na medida em que vinha à tona, aos pedaços, a lembrança de todo o meu percurso até aquele quarto sem nenhum caráter, mal reconhecendo minha própria figura, fora de lugar, refletida numa estreita parede coberta de cima a baixo por um incontornável espelho bem em frente à cama. Leventei-me zonza, saí zanzando pelo apartamento, tentando me orientar naquela espécie de tabuleiro, eu, peão movido pela mão de outra pessoa, uma rainha louca com a cara da minha filha passando, num átimo, pela minha imaginação.”

“Seguimos todos os conselhos, encontramos baianas, marenhenses, sergipanos e potiguares, duas mulheres da Paraíba, notícia de um chamado Cícero que era cearense e tinha mais de setenta anos, piauienses e alagoanos, aqui e acolá um filho de outros homens de ‘lá’ que apenas semearam cá seus bruguelos e foram-se embora, eles também, sem mais dar notícias. Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida, gente que não deu mais notícia e gente desesperada atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos.”

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