Colômbia, Crônica

A volta passa pelos 90 anos de Gabo

Li meu primeiro Gabriel García Márquez talvez tardiamente, aos 23 anos. Estava na minha segunda faculdade e me vi impelido a ler o colombiano. Não me recordo do motivo de até então não ter entrado na obra do colombiano, tanto que o exemplar de “Cem Anos de Solidão”, o Gabo inaugural, uma edição antiga da Record, da velha capa branca, nem era meu, pertencia ao meu irmão.

Exemplar que agora não está com ele e muito menos comigo. Perdeu-se. Tenho outros quatro exemplares do livro, reedições nacionais, uma comemorativa pelos 40 anos do livro, lançada pela Real Academia Espanhola, e uma que simula o original, publicado pela editora argentina Sudamericana. Mas aquele primeiro livro do Gabo que eu li, aquele eu não tenho mais.

Gabriel García Márquez e o exemplar da primeira edição de "Cem Anos de Solidão"
Gabriel García Márquez e o exemplar da primeira edição de “Cem Anos de Solidão”

Era, naquela época, leitor assíduo de Paul Auster. Bem, leitor do que era possível ler em 1993, no Brasil, do autor norte-americano. Caçava seus títulos pelas livrarias e sebos – a Estante Virtual eliminou esse bater de pernas, mas também acabou um tanto com esse prazer da busca. Auster era editado pela Best Seller, e não era assim tão fácil encontrar seus livros.

Li tudo o que estava disponível: “Mr. Vertigo”, “A Música do Acaso”, “No País das Últimas Coisas” e “A Trilogia de Nova York”. Sabia de outros títulos de Auster pela lista impressa nas orelhas dos livros – “O Palácio da Lua” foi o único livro que nunca encontrei, uma espécie de fracasso na época. Fracasso que deixei sem resolver, pois até hoje nunca comprei o livro, disponível a alguns cliques na Estante Virtual.

Anos depois, Auster começou a ser editado pela Companhia das Letras, que, exceção à “Trilogia”, esqueceu desses outros livros do escritor e nunca os relançou.

Antes de Gabo, já era um leitor de Borges, daquelas edições da Globo, volumes simples, de seus pequenos livros, como “Aleph”, “História Universal da Infâmia” e “Ficções”. Hoje, me pergunto, sem encontrar resposta, por que fui primeiro a Borges e não a Gabo.

Passara por Guimarães Rosa e seus “Sagarana”, “Grande Sertão: Veredas” e “Primeiras Estórias”, todos lidos num período difícil do fim da adolescência. Outro latino que li antes de Gabo, desta vez contemporâneo: Mario Vargas Llosa e seu “Batismo de Fogo”. Enfrentara os contos de Dylan Thomas em seu “Retrato do Artista Quando Jovem Cão” e “Uma Temporada no Inferno”, de Rimbaud.

Mas até aquele ano não tinha lido ainda Gabriel García Márquez.

Os cinco livros da Obra Jornalística de Gabo
Os cinco livros da Obra Jornalística de Gabo

De “Cem Anos de Solidão” passei imediatamente a “O Amor nos Tempos do Cólera”, um clichê necessário, agora já na nova edição da Record, com a sobrecapa azul. E avancei rapidamente por todo sua obra, por diversas edições e também pelo seu idioma original. Li tudo, desde então, inclusive os cinco volumes da Obra Jornalística, que ultrapassam as 3.500 páginas.

E, ao contrário da minha porta de entrada no mundo Gabo, todos os livros estão comigo.

Gabo era uma espécie de porto seguro. Quando passava por algum problema ou enfrentava um momento difícil, escolhia um livro dele para ler. Era uma espécie de ritual. Seu universo era capaz de me abstrair para, depois, reunir condições de encarar o que precisava ser encarado.

Já faz um tempo que não volto à sua obra, ao seu universo fantástico e seus personagens, sejam reais ou ficcionais. Posso dizer que sinto saudade de (re)descobrir seus livros, e este talvez seja um bom momento para reabrir um volume qualquer, como fazia há 20 anos.

Escrevo sobre Gabo pois neste 6 de março ele completaria 90 anos. E, em maio, “Cem Anos de Solidão” faz 50 anos de sua primeira edição. Achei que seria um bom tema para a volta do blog, depois de pouco mais de dois meses de inatividade, o mais longo hiato desde que comecei a escrever este Capítulo Dois, em julho de 2013. Já se vão três anos e meio, e um certo cansaço se faz presente.

Este não é um texto exclusivamente sobre Gabo, acabou por se transformar numa cartografia resumida da minha experiência como leitor até chegar a ele. Mas o colombiano é quem me fez, certamente, entrar, reentrar e me aprofundar, muitas vezes de forma atabalhoada, na literatura de muitos, na troca com outros leitores e na formação de uma biblioteca razoável. Devo muito a ele.

*****

O blog volta depois de 60 e poucos dias de inatividade, que começou no recesso de fim de ano e se ampliou por conta da necessidade de revê-lo. Confesso que não cheguei a uma conclusão sólida, se devo realmente continuar ou interromper este canal.

Tomei a decisão de continuar me equilibrando em terreno arenoso, ainda. Mudei a cara, numa tentativa de recobrar o fôlego. Reafirmo que este não é um blog de crítica literária. Trato da experiência da leitura, e isso é extremamente pessoal.

Espero chegar no mínimo a maio, para escrever sobre os 50 anos de “Cem Anos de Solidão”. Espero que com uma frequência de textos que justifique manter o blog no ar. Depois, entrego nas mãos de Arcadio, Aureliano e Amaranta.

A primeira edição que li de "Cem Anos de Solidão" e a comemorativa dos 40 anos
A primeira edição que li de “Cem Anos de Solidão” e a comemorativa dos 40 anos
Anúncios

9 thoughts on “A volta passa pelos 90 anos de Gabo”

  1. Ricardo, não pare não. Seus textos são uma presença muito legal. Quem sabe escrever textos menores, que deem menos trabalho? É estranho sugerir isso quando seus textos já são perfeitamente “pequenos” (e isso, você sabe, eu acho o máximo).
    Sei muito bem como é cansar de um blog. Mas não delete nada daqui se for abandonar o navio kkk.
    To tentando elaborar e te sugerir uma nova forma de continuar… Quem sabe o youtube? Aí você atualiza o blog com videos : )

    Enzo

    Curtir

    1. Oi Enzo, confesso que a questão não passa pelo tamanho do texto. Estou analisando com calma e vou diluir o pensamento nos próximos três meses. Enquanto isso, vou escrevendo e postando. Se tiver ideias, fique à vontade para sugerir. Mas vídeo não é uma que me apetece, não tenho esse perfil e nem é isso que penso para o blog. 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. Vou dar o meu pitaco aqui também: o barco tem que continuar navegando, mesmo com as correntezas traiçoeiras do rio. Como leitor assíduo, considero o Capítulo Dois uma luz no horizonte, onde encontramos um hiato de encanto e serenidade. Mas sei bem o que é esse cansaço.

    Li Gabo bem cedo, a partir dos 15 anos. Primeiro O Amor…, logo depois o Cem Anos… e o resto é história. Não li tudo dele, ao contrário de você. Mas há três anos me dei de presente a releitura de Memória de minhas putas tristes, que ganhou uma nova dimensão, e Erendira, que continua com lugar cativo no lado esquerdo do peito.

    Que maio seja apenas uma rápida parada no porto, para depois o barco voltar a águas profundas.

    Curtir

    1. Você foi quem me obrigou, praticamente, a ler Gabo. E isso diz muita coisa. Talvez seja uma boa ideia esse tipo de presente, rever Gabo e suas histórias, algo que venho pensando há algum tempo. Sobre a revisão do blog, sua opinião tem muitíssimo valor. Até maio, eu sigo, com, confesso, esperança de prosseguir.

      Curtir

  3. Puxa, descobri há pouco o blog e adorei. Que pena que agora corre riscos (risos). Estou ansiosa para ler suas colocações sobre o Cem anos, meu livro favorito, de meu autor favorito.
    Se os retornos dos leitores pesarem em sua decisão, lhe digo: continue!
    Abraço

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s