Brasil, Entrevista, Ficção

Julián Fuks: “A melhor maneira de resistir aos fatos é começar por assumi-los sem meias palavras”

a-resistencia“A Resistência” (Companhia das Letras) chega ao fim de 2016 consagrado. Venceu o Prêmio Jabuti de Livro de Ficção do Ano e ficou em segundo lugar no Prêmio Oceanos.

No livro, Julián Fuks trata do irmão adotado e da vida dos pais, que lutaram contra a ditadura militar na Argentina e se exilaram no Brasil.

O irmão mais novo narra o romance, que cai no gênero autoficção, ao misturar fatos reais à invenção literária.

Com uma linguagem seca, sem excessos, introspectiva, lembra um pouco “Lavoura Arcaica”, mas desprovido da poesia da prosa de Raduan Nassar. Os capítulos curtos completam a sensação – mas essa é uma sensação deste leitor.

Fuks transfere para as páginas a dualidade do narrador. Quando escreve: “Não consigo decidir se isto é uma história”, dialoga com a própria obra e coloca em perspectiva o papel do escritor/narrador. A linguagem se torna fundamental para o desenvolvimento da história, ainda que ele próprio se questione se há valor ou não.

Então, em meio a uma genealogia familiar, em que afetos, relações familiares, objetos e histórias se debatem constantemente na voz do irmão, procurando entender o “meu irmão” adotivo e a vida conturbada dos pais, em dois países, com uma luta política a definir comportamentos, Fuks leva o leitor a um corpo a corpo com o texto, a um encantamento misturado com uma busca pelo entendimento dos fatos narrados.

Fuks não deixa de lado a herança política. Na entrega do Prêmio Jabuti, fez referência ao impeachment de Dilma, ao dizer que “fomos feridos” e proclamar a expressão-chave “Fora, Temer”. No vídeo, reproduzido logo abaixo, muitos se levantaram para aplaudir, mas parte da plateia permaneceu sentada.

É dessa resistência que Fuks trata. Enfrentar. “É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir”, como escreve.

O escritor conversou com o blog e falou do processo de escrever o premiado “A Resistência”, de fuçar o passado e mexer em afetos, de tratar do medo dessa busca e do Brasil atual.

*****

julian-fuks
O escritor Julián Fuks

Seu livro aparece classificado como autoficção em críticas e blogs. Como você vê esse tipo de rotulação? Acha que o rótulo acaba por reduzir a importância da linguagem?
Por vezes esses conceitos podem ser um pouco estéreis, reduzir a literatura a fórmulas, ou simplificar demais a compreensão dos livros. Mas, outras vezes, podem ser interpretações perspicazes de certas tendências do momento. O conceito de autoficção, em especifico, traz à tona algo do hibridismo dos nossos tempos, a impossibilidade de uma distinção precisa entre realidade e fabulação, entre memória e invenção. Não me parece indicar um empobrecimento da literatura, e sim um ganho de complexidade, mais uma volta do parafuso que faz rodar o romance.

No discurso na entrega do Jabuti, você disse que o livro tocou em muitos pontos íntimos e difíceis de lidar. Como foi o processo de criação do livro? 
A escrita desse livro teve algo de peculiar porque esteve sempre marcada por essa atenção ao real, uma atenção às diversas reverberações de histórias verídicas de um passado familiar. Como trata de uma história de adoção, e como tem como pano de fundo uma trajetória de enfrentamento contra a ditadura militar, toca inevitavelmente em alguns pontos delicados, pontos sensíveis que era preciso tratar com todo cuidado. Havia uma duplicidade na escrita desse livro: eu escrevia para leitores quaisquer, mas escrevia também para o meu irmão, escrevia para os meus pais.

E qual a sensação quando terminou de escrever?
Depois de um processo desses, acho que a sensação não podia ser outra senão de alguma apreensão. Me preocupava se tinha feito jus à magnitude daquela história, se meus pais a considerariam rica o bastante, precisa o bastante, se meu irmão sentiria aquele ato como um ato de carinho e proximidade. E, para além desses âmbitos mais íntimos, sentia alguma apreensão por não ter certeza de que aquele livro tão pessoal faria sentido para outros leitores, se seria recebido de fato como uma narrativa pertinente, como literatura.

O que mais o incomodava quando pensou em escrever o livro?
Bom, a exposição de uma intimidade me preocupava o tempo todo. O esforço era por encontrar o tom certo para tratar daquelas questões, uma forma de escrever que não se tornasse destrutiva ou corrosiva, pelo contrário, que aproximasse os envolvidos, que me aproximasse também dos leitores.

Em vários momentos da leitura, senti uma presença de “Lavoura Arcaica”, ainda que distante (a relação dos irmãos, a presença do pai, a linguagem). O livro de Raduan Nassar tem alguma participação na sua formação como leitor? Ou a relação é própria deste leitor?
Interessante essa relação. Não foi algo buscado, de nenhuma maneira, mas o Raduan é um autor que eu admiro muito, e me identifico com seu modo de fazer literatura. Aprecio em particular a musicalidade da escrita, a métrica rigorosa na composição de sua prosa, as rimas internas. Se pareço minimamente influenciado por esse cuidado com a linguagem, já fico muito contente.

“Meu irmão” é uma expressão repetida com intensidade ao longo do livro. Quase um mantra, como se fosse necessário lembrar não somente ao leitor, mas ao narrador também da relação fraterna. Como isso se formou no seu texto?
Curiosamente, bem no princípio, enquanto não passava de um conto, o título que eu cogitava para esse texto era “Meu Irmão”. A proposta era que se estabelecesse ali uma afirmação, como você sugere, a ideia de que a fraternidade se constrói gesto a gesto, na delicadeza das relações.

Você se refere muito ao passado, às rotinas e lembranças. Como elas se relacionam com a resistência?
O livro é em grande medida a reconstituição de um passado, a um só tempo próprio e alheio, mas esse passado se converte inevitavelmente em discurso, em uma reflexão que se dá no presente. O passado se faz, então, um emaranhado de visões que se afirmam e se negam, se reforçam ou se cancelam – é um passado em disputa, basicamente. Nessa disputa de versões sobre o passado incide muito do pensamento que podemos ter sobre o presente, e assim relembrar se converte numa forma de refletir, e numa forma de resistir também.

Você fala da necessidade de isolamento para escrever. Como foi se preparar para escrever “A Resistência”? 
Havia momentos de aproximação e momentos de afastamento. Como era um livro permeado de muitas conversas, era importante que eu estivesse perto dos meus pais e dos meus irmãos para travar esses diálogos. Mas era importante também que eu me isolasse por algum tempo, para assimilar tantas ideias, para fazer com que se decantassem em algo estético.

Você evita o epílogo da história política dos seus pais. O que o levou a tomar essa decisão?
O que eu quis dizer ali é que nenhuma história política jamais se encerra, que todas as fases da vida têm seu elemento de política. É uma compreensão mais ampla do que a política pode ser, o modo como ela se reflete nas relações cotidianas, nos afetos, nos corpos. Em meus pais sempre senti que a política se processava muito mais no ato de questionar, no ato de refletir sobre as insensatezes do mundo, do que numa militância mais rígida, mais própria daquele combate à ditadura. Essa foi, creio, a militância que mais permaneceu neles.

“Sei que escrevo meu fracasso”. Mas “A Resistência” se tornou um sucesso, pelo menos de crítica e premiações. Como lidar com esses dois extremos?
Eu não esperava toda a repercussão que o livro teve, temia, como disse, que algo tão pessoal não alcançasse o interesse de muitos leitores. De qualquer forma, não me referia nessa passagem a esse fracasso menor, ao livro que não chega a ser lido, ou que não ganha algum prêmio. Me referia, sobretudo, ao fracasso incontornável de toda escrita, a deturpação que lhe é própria, a impossibilidade de cumprir um programa prévio, a inacessibilidade absoluta da experiência. Nisso a literatura fracassa sempre, e esse talvez seja seu maior valor. Talvez não estamos no campo da contradição, então, e sim do paradoxo.

No mesmo parágrafo, você escreve que não sabe bem a quem escreve. O leitor te assombra durante o processo de criação, ele é algo presente?
Bom, esse é um dos pontos críticos com que o escritor tem que se haver. Sabemos bastante bem que o gosto do leitor não pode ser o objetivo supremo, que é preciso esquecê-lo em nome de alguma autenticidade, da preservação de certos princípios do projeto, mas ainda assim não podemos ignorá-lo completamente, sob o risco de produzir um discurso fechado e indiferente ao que lhe é externo. Encontrar esse equilíbrio é sem dúvida um desafio grande, hoje e sempre.

O escritor Julián Fuks discursa na entrega do Prêmio Jabuti
O escritor Julián Fuks discursa na entrega do Prêmio Jabuti

Ainda no discurso do Jabuti, você disse que fomos feridos com o que aconteceu neste ano. Como resistir aos fatos? Ou como aprender a resistir?
Penso que a melhor maneira de resistir aos fatos é começar por assumi-los sem meias palavras, sem eufemismos ou abrandamentos: o que se deu foi uma ruptura da ordem democrática, instaurando um regime ilegítimo no poder. Diante disso, talvez caiba não sucumbir à normalidade, apontar sempre que possível que houve de fato uma quebra, e que tudo o que dela resulta está marcado por essa ilegitimidade. Cada um dos retrocessos que temos visto, cada acinte contra os direitos mais elementares, deve ser pensado nesse contexto, e também por isso rechaçado com veemência.

No final, você escreve que nada poderá ser restituído. Como essa sensação te atinge diante do Brasil atual?
Difícil saber se há uma restituição possível da ordem democrática no nosso país. Em curto prazo essa solução não se vislumbra, mas acho que a política sempre ganha quando pensada com algum otimismo, com alguma crença de que poderemos sair dessa situação lamentável. Algo desse movimento positivo já dá as caras: vemos a resistência que se manifesta em ocupações por todo o país, em tantos órgãos públicos, em escolas e universidades. Vemos uma juventude forte que não parece disposta a calar diante do despautério. À literatura, neste momento, talvez caiba a mesma juventude e a mesma força.

*****

“Na minha lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio, turvado já por algum remorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava, decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos; ou voltava o rosto para a janela, extraviava a vista em presumíveis pedestres. O caso é que não me olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os olhos lacrimosos.”

“Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa.”

“Por que tanto apego ao passado, para que depurar velhos dias naqueles relatos sem sul e sem norte, era uma pergunta que nenhum de nós fazia, uma entre muitas indagações que nos faltavam. Esta noite creio entender por que meus pais jamais encontrariam respostas. Se me sento à mesa às nove horas, sem jantar, sem fome, se esta noite minha solidão ganha a forma dessas quatro cadeiras vagas, é porque queria poder ouvir, ainda uma vez, essas histórias.”

“Não, não tem um epílogo a história política dos meus pais. Seu inconformismo tem contornos mais discretos e a um só tempo mais nítidos: sua militância sempre se manisfestou no hábito de questionar, disputar, discutir. Agora que assim os vejo, sinto que não me diferencio, ou que neste momento não o desejo. Agora que a descrevo assim, sem a ficção que a enleve, a arma volta a perder qualquer fascínio. Estou com meus pais enquanto deixam o parque, deixo para trás o que não conheci. Que se limite a insubordinação ao ato reflexivo, tudo bem, à mesa da sala tomo um gole do chá que tanto revolvi. Jamais quereria ter uma arma nas mãos, e dizê-lo é também uma ação, também constitui uma história política.”

Anúncios

Um comentário em “Julián Fuks: “A melhor maneira de resistir aos fatos é começar por assumi-los sem meias palavras””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s