Argentina, Colômbia, Comentário, Ficção, Notas de leitura

Notas de Leitura: Sobre Samanta Schweblin e Juan Gabriel Vásquez

Das boas leituras que tive neste final de ano, a argentina Samanta Schweblin (1978) e o colombiano Juan Gabriel Vásquez (1973), praticamente contemporâneos, reforçam a ideia de que há uma literatura vigorosa no continente.

Seus livros recuperam a tradição narrativa de seus conterrâneos e trazem algo com uma lufada de urgência, ao recuperar gêneros e temas caros ao imaginário e à realidade de cada país.

distancia-de-resgate“Distância de Resgate” (Record) é o segundo livro da escritora publicado no Brasil – o primeiro é “Pássaros na Boca” (Benvirá), coletânea de contos. Sua força literária se concentra no esforço em criar um novo panorama do realismo fantástico tão impregnado na Argentina e na prosa de Adolfo Bioy Casares e Júlio Cortázar.

Neste romance, ela avança um pouco e roça a obra de Juan Rulfo, especialmente seu “Pedro Páramo”. Mas suas influências e sombras não interferem no resultado e se restringem a ser o que são, exatamente. Não há pastiche nem homenagens aos estilos dos mestres.

Pelo contrário, o romance transpira novidade, com uma narrativa de impacto. Curta – são 142 páginas, que poderiam se transformar em 100 facilmente, caso diagramação e corpo de fonte fossem padrão -, este livro é intenso e navega com uma dramaticidade do início ao fim, ao começar com lacunas e ir preenchendo aos poucos, sem deixar espaço para que o leitor divague – ao mesmo tempo, nem tudo se fecha.

Temos uma mãe, Amanda, e sua filha, Nina, numa viagem a uma cidade do interior quando conhecem Carla. Num ritmo de volta ao passado, Amanda narra a história desse encontro e da mulher que encontrou.

Aos poucos, o leitor recebe informações da trama, como a morte do filho de Carla, David, vítima de alguma doença da terra, uma metáfora da praga agrícola. Carla acredita que a alma do filho tenha se alojado em outro corpo, como forma de sobreviver. David, então, participa da narrativa, ao dialogar com Amanda.

Schweblin vai avançando sobre a história sem deixar espaço para uma leitura religiosa ou redentora. Nem busca na esperança de Carla de encontrar o espírito do filho uma forma de transformar o romance naqueles livros açucarados. Esqueça também o terror psicológico. Não há nada disso.

“Distância de Resgate” é tenso na medida em que uma narrativa entrega para o leitor suas recompensas aos poucos. É tenso porque é bem conduzido em seu mistério, não porque há algo para esconder. Schweblin exige contrapartida do leitor, sem transformar o fantástico em algo belo ou misterioso. Aqui, o fantástico ilude e revela mais do leitor do que da imaginação que carrega. Estamos mais perto dos mistérios das personagens e nos tentamos a entendê-las, sem espaço para pensar em como a fantasia é bela. Claro, pode haver essa leitura, mas nesse caso o leitor se entregará ao mais fácil e perderá a chance de conhecer uma grande autora.

O ruido das coisas ao cairJá Juan Gabriel Vásquez e seu “O Ruído das Coisas ao Cair” estão mais próximos do romance político de Gabriel García Márquez.

Este é o segundo livro do autor lançado no Brasil (2011). Antes, veio “Os Informantes” (L&PM, 2010), ambos sucedidos por “História Secreta de Costaguana” (L&PM, 2012) e “As Reputações” (Bertrand, 2016). Em comum, todos tratam da história colombiana, especialmente o período marcado pelo Cartel de Cali e Pablo Escobar.

Neste, o impacto da violência e o trauma gerados por Escobar está mais à superfície. Um professor passa seu tempo jogando bilhar quando conhece Ricardo Laverde. Vai descobrir que ele foi presidiário, culpado de um crime que envolvia o tráfico de drogas.

Antonio Yammara, o professor, torna-se amigo de Laverde, uma relação comum entre dois desconhecidos até então, que se encontram frequentemente no mesmo bar para fazer as mesmas coisas. Até que um dia presencia o assassinato de Laverde. Chocado com a violência, começa a investigar o que levou Laverde à morte.

Vai encontrar muito mais do que os reais motivos do crime. A influência daquela Colômbia de Escobar pesa sobre a investigação, que se transforma numa espécie de inventário de afetos de um país marcado pela violência, corrupção e falência do Estado.

A geração que cresceu sob o terror do tráfico salta das páginas, numa prosa sensível e criativa. Vásquez trata das transformações de quem viveu e tem que conviver com as consequências daquele período, que estão à flor da pele para muitos ainda.

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