Comentário, Ficção, Israel

Amós Oz se mostra irregular em “Judas”

fimaA primeira vez que li Amós Oz foi em 1996. Não sei como cheguei a ele, talvez tenha lido alguma crítica na época sobre “Fima”, o livro lançado naquele ano. Após ler com entusiasmo, emprestei para uma amiga de faculdade e nunca mais o vi.

“Fima” era algo novo, uma discussão potente sobre o conflito na região do Oriente Médio, com um personagem rico, que mistura um pouco dos protagonistas de Philip Roth, o Zelig de Woody Allen e o Bartleby de Melville. O leitor acompanha o destino de Efraim Nisan, o Fima do título, com o mesmo interesse em que ele se embrenha em sonhos, discute política e se relaciona com mulheres.

Depois de “Fima”, fui ler tudo o que era possível de Oz. Vieram “Conhecer uma Mulher”, “A Caixa Preta”, “Não Diga Noite”, “Pantera no Porão”, “O Mesmo Mar”, “Meu Michel” e “De Amor e Trevas”, sua belíssima autobiografia.

Da mesma forma como irrompi numa ânsia em ler e ler Oz, perdi a força no israelense e sua leitura ficou bissexta. Sua produção posterior a esse primeiro pacote não me interessou e o que li pouco me entusiasmou – como “Rimas da Vida e da Morte” e “Cenas da Vida na Aldeia”.

judasMais de cinco anos sem ler nada novo de Oz, resolvi encarar “Judas” (Companhia das Letras, assim como todos os outros títulos), seu último romance. E a leitura refletiu a minha relação com o autor: comecei entusiasmado, fui avançando com interesse, mas da metade para o final perdi força e empaquei. Cheguei ao fim a muito custo.

Os temas caros a Oz estão presentes neste “Judas”. A discussão dos territórios, a religião, o afeto envolvido nas questões política e pessoais. Para ele, é quase impossível dissociar um ponto de outro.

Sob essa perspectiva, “Fima” e “Pantera no Porão”, para mim, são seus melhores livros. O personagem da minha leitura inaugural, Efraim Nisan, representa todos os sentimentos e sintomas que envolvem Israel e seus conflitos de identidade e a tragédia palestina.

Em “Judas”, a religião é dominante e abre a porta para a geopolítica. Shmuel Asch deixa a universidade para trabalhar na casa de um velho, por conta da crise financeira que seus pais enfrentam em 1959. Vai ajudar a cuidar do anfitrião, dividindo a mansão com uma mulher, Atalia Abravanel, mais velha e com quem desenvolve uma relação sutil de flertes e afetos.

Em conversas conjuntas ou aos pares, surgem debates sobre a figura de Jesus e sua presença entre os judeus, que seria o tema de pesquisa de Asch. Eles conversam também sobre o governo de Ben Gurion e o passado/presente de Israel

Oz divaga pela história de Asch enquanto trata do recém-criado Estado de Israel. Relaciona a história dos judeus com o movimento político que a região vivia na segunda metade do século 20. Começa com potência, mas depois gira em torno dos flertes dos mais jovens da casa, buscando na figura do pai de Abravanel um pilar histórico. Arrasta-se então, e o romance perde força.

Em alguns capítulos, Oz se envereda pela estrada do ensaio, como no capítulo 9, que discute a visão do historiador Josefo sobre Jesus e a tradição judaica – o ponto alto do livro.

Ao final, fico com a sensação de que o melhor de Oz foi publicado entre final dos anos 80 e início dos 2000. Ali está toda a força da literatura do escritor, a paixão envolvida com a história de Israel e como esses sentimentos se relacionam com a conflito com os palestinos.

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“Acontece que Jesus de forma alguma era cristão. Jesus nasceu judeu e morreu judeu. Nunca lhe passou pela cabeça fundar uma nova religião. Paulo, ou seja, Shaul, da cidade de Tarso, foi quem inventou o cristianismo. O próprio Jesus diz, explicitamente: ‘Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas.’ Se os judeus o tivessem aceitado, toda a história teria uma feição totalmente diferente. A Igreja nunca teria surgido. E talvez toda a Europa tivesse adotado alguma visão amena e destilada do judaísmo.”

“Esta, Atalia, é exatamente a pergunta que eu faço a mim mesmo e para a qual ainda não encontrei resposta. Ele era, segundo os conceitos atuais, um judeu reformista. Ou não um judeu reformista, mas um judeu fundamentalista, não no sentido do fanatismo associado a essa palavra, mas no sentido de uma volta às raízes mais puras do judaísmo. Ele aspirava a purificar a religião judaica de todo tipo de acreções rituais e untuosas que tinham se grudado nela, de todo tipo de pontas de gordura que os sacerdotes cultivaram nela e com que os fariseus a sobrecarregaram. Foi natural que os sacerdotes tivessem visto nele um inimigo. Acredito que Judas ben Simão Iscariotes foi um desses sacerdotes. Ou talvez somente alguém próximo deles. Talvez tenha sido enviado pela casta sacerdotal de Jerusalém para se infiltrar no grupo de seguidores de Jesus para espioná-los e para informa Jerusalém de suas ações, só que ele se ligou a Jesus e o amou com um amor sincero, até se tornar o mais dedicado de todos os seus discípulos, chegando a ser o tesoureiro do grupo de apóstolos. Um dia, se você quiser, eu lhe conto o que é, em minha visão, o evangelho segundo Judas Iscariotes.”

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Sinapses: Para ler mais sobre Jesus e o cristianismo no blog

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