Biografias/Perfis, Comentário, HQ, Itália

A arte de John Coltrane ganha nova expressão: os quadrinhos

A capa da HQ
A capa da HQ

A HQ “Coltrane” (Veneta) não deixa dúvidas de que é uma obra reverente, sem medo do exagero e das parcialidades. O artista italiano Paolo Parisi, autor do roteiro e das ilustrações, não mostra nenhuma preocupação em não fazer outra coisa a não ser venerar John Coltrane.

O título já escancara a devoção. A capa avança, ao recriar a fotografia clássica de “Blue Train”, álbum de Coltrane gravado em 1957. O livro é dividido em quatro capítulos, a repetir a estrutura do álbum “A Love Supreme”: “Acknoledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”.

A HQ pretende recontar a história do músico, sem as preocupações que uma biografia deveria ter. Ele pesca fatos importantes e marcantes da trajetória de Coltrane e os recria em ilustrações, num traço inspirado. Sem preocupação cronológica, Parisi busca criar uma linha histórica básica, que seja suficiente para conhecer o músico.

A capa do álbum "Blue Train", que foi recriada para a HQ
A capa do álbum “Blue Train”, que foi recriada para a HQ

Então, é emocionante ver as cenas de gravações de “A Love Supreme”, sua obra máxima, e “Kind of Blue”, álbum de Miles Davis do qual ele participou. Surgem Dizzy Gillespie, Thelonuious Monk e Duke Ellington, em shows e gravações, assim como Alice Coltrane, que seria sua mulher já no final da vida. O jazz recontado pelos traços do italiano pedem a trilha sonora da época, como ele mesmo sugere na nota final.

Capa do disco "A Love Supreme", que inspirou Paolo Parisi
Capa do disco “A Love Supreme”, que inspirou Paolo Parisi

O racismo também é marcante no livro. Martin Luther King e Malcolm X emergem em cenas rápidas, mas aquele que talvez seja o ato mais importante sobre a questão para Coltrane surge de forma tocante. A última parte, “Psalm”, abre com a descrição do atentado cometido pela Ku Klux Klan em uma igreja batista no Alabama, em 1963. Quatro crianças foram mortas no ato, que inspirou Coltrane a compor “Alabama”.

A leitura é rápida, e não pretende encerrar qualquer aspecto da vida ou da obra de Coltrane. O que temos em frente é uma reverência, uma homenagem ao artista e à sua música. É daqueles livros que pedem uma releitura de tempos em tempos, com um álbum de Coltrane tocando ao fundo.

A seguir, fiz uma lista de leituras que aprofundam o tema jazz. E depois o jornalista Paulo Sales seleciona e comenta aquela que ele considera como a discografia básica de John Coltrane.

Ilustração da HQ "Coltrane"
Ilustração da HQ “Coltrane”
Ilustração da HQ "Coltrane"
Ilustração da HQ “Coltrane”

Para ler mais sobre jazz

  • “A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane” (Barracuda), de Ashley Kahn
  • “Ao Vivo no Village Vanguard” (Cosac Naify), de Max Gordon
  • “Kind of Blue – Miles Davis e o Álbum que Reinventou a Música Moderna” (Casa da Palavra), de Richard Williams
  • “Lady Sing the Blues” (Zahar), de Billie Holiday e William Dufty
  • “Strange Fruit – Billie Holiday e a Biografia de uma Canção” (Cosac Naify), de David Margolick
  • “Jazz & Co.” (Companhia das Letras), de Vinicius de Moraes
  • “Gigantes do Jazz” (A Bolha), de Studs Terkel

*****

O desbravador de sons, por Paulo Sales

John Coltrane entrou para a história como um desbravador, capaz de imergir num longo transe de acordes dissonantes e camadas de sons sobrepostas para voltar à tona saciado com suas paisagens recém-descobertas. Mas o Coltrane a quem devoto admiração fervorosa é aquele da fúria contida, do soprar suave que esconde uma dor avassaladora.

A escolha dos álbuns listados abaixo segue essas preferências, deixando de fora clássicos mais experimentais, que flertavam com o free jazz, como “Ascension”, “Interstellar Space” e o segundo “Live at Villlage Vanguard”, lançados pouco antes da sua morte.

Em ambos os casos, porém, ouvir Coltrane é se deparar com o sagrado, é render-se a uma epifania sonora que nos trará quem sabe alguma redenção.

Discos de Coltrane

  • “Blue Train” (1957)
    O primeiro álbum de Coltrane como líder, ainda influenciado pela força do líder Miles Davis, mas já compondo um poderoso painel do melhor hard bop em voga na década de ouro do jazz. A faixa-título é clássica, com sua deliciosa introdução de sax, trompete (Lee Morgan) e trombone (Curtis Fuller), seguida dos poderosos solos dos três músicos. Destaque também para o blues “I’m Old Fashioned” (Johnny Mercer e Jerome Kern), único tema que não é de autoria de Coltrane.
  • “Giant Steps” (1960)
    Disco que consolida uma das marcas registradas de Coltrane: as “sheets of sound” (camadas de som), com suas notas longas e rápidas se sobrepondo. O que se ouve é um Coltrane impetuoso e vibrante na maior parte do tempo, com seu fraseado viril e de fôlego infinito. Destaque para a faixa-título e para a linda balada “Naima”, feita para sua primeira mulher.
  • “My Favorite Things” (1961)
    Álbum mais conhecido pela recriação da música-tema do filme “A Noviça Rebelde”, composta por Rodgers & Hammerstein e transformada em um mantra poderoso com acento oriental por Trane, tendo às mãos o sax soprano no lugar do tenor. Coltrane não compôs temas para o disco, formado apenas por standards, com destaque para uma versão porradona de “Summertime” (Gershwin).
  • “Lush Life” (1961)
    Não se deveria esperar muito de um disco de sobras, lançado numa estratégia caça-níqueis pela Prestige sem a aprovação final de Coltrane. Mas esqueça isso: “Lush Life” é uma pequena obra-prima. A começar pela balada que abre o álbum, “Like Someone in Love” (Jimmy Van Heusen), com o sax acompanhado apenas de baixo e bateria. Só ela já vale o ingresso para o paraíso. Os outros temas terminam de pavimentar o caminho.

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  • “Stardust” (1963)
    Basta ouvir os primeiros acordes da faixa-título, uma balada linda composta por Hoagy Carmichael e Mitchell Parish, para se encantar com esse álbum. O sax de Coltrane soa límpido, acalentando os ouvidos com suavidade extrema, numa sucessão de temas de alto teor emocional.
  • “Ballads” (1963)
    Álbum a princípio de menor importância, mas que entrega uma qualidade impressionante. Tentativa da gravadora Impulse! de tornar Coltrane mais palatável e acessível a um público mais amplo. Standards da música norte-americana (“You Don’t Know What Love Is, What’s New?”, “It’s Easy to Remember”) ganham uma embalagem cálida, como um banho morno depois do trabalho. Disco lindo.
  • “Crescent” (1964)
    Esse álbum pode ser considerado um duplo em tom menor de “A Love Supreme”. A sonoridade é semelhante em ambos, ora contemplativa, ora um rompante de solos impiedosos. Um belo disco, enriquecido pelas tessituras da base rítmica, no qual merecem atenção especial a faixa-título e as baladas “Wise One” e “Lonnie’s Lament”.
  • “Live at Birdland” (1964)
    Um discaço ao vivo que tem como destaque dois temas. O primeiro é a linda balada “I Want to Talk About You”, já gravada em estúdio por Trane em outro belo disco, “Soultrane”. A segunda é um dos temas mais dolorosos, ternos e poderosos já compostos por um jazzista: “Alabama”, feita em homenagem a quatro crianças negras mortas em um atentado da Ku Klux Klan contra uma igreja batista frequentada por negros na cidade de Birminghan, em 1963.
  • “A Love Supreme” (1965)
    Sua obra maior, uma suíte em quatro movimentos (“Acknowledgement”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”) que mudaria o curso do jazz. Nela está expresso de forma cristalina o sentimento de religiosidade e devoção do músico, como uma louvação ao sagrado. Disco para ser ouvido em silêncio e com atenção, no qual os solos torturados de Coltrane encontram abrigo na seção rítmica de McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, seu quarteto definitivo.

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Discos com Coltrane

  • “Kind of Blue” (1959)
    O clássico maior de Miles Davis e da história do jazz teve o auxílio luxuoso de Trane (e mais um punhado de gênios) em todas as faixas, destacando-se seus solos na primeira, “So What”, e na quarta, “All Blues”.
  • “Thelonious Monk with John Coltrane at Carnegie Hall” (1957)
    Depois de Charlie Rouse, Coltrane foi o saxofonista que melhor compreendeu as mensagens subliminares contidas nas criações de Thelonious. Gravação descoberta recentemente, contém clássicos como “Evidence” e “Crepuscule with Nellie”.

monk-coltrane

  • “Cannonball Adderley, John Coltrane – Quintet in Chicago” (1959)
    Discaço com o grupo de talentos que acompanhou Miles em “Kind of Blue” (exceto Bill Evans). É um dos melhores trabalhos do sax alto Cannonball, que espelhava como poucos o tenor de Trane.
  • “Duke Ellington & John Coltrane” (1963)
    Encontro histórico entre representantes de duas brilhantes gerações do jazz, promovido pela Impulse! Mais de meia-hora de belos temas, destacando-se a balada que abre o disco, “In a Sentimental Mood”. Coisa fina.
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