Brasil, Comentário, Ficção

Depois de “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, só resta ler mais Elvira Vigna

Meu primeiro contato com Elvira Vigna foi “Por Escrito” (Companhia das Letras, assim como todos os livros citados no texto). Li há cerca de dois anos. Não lembro como cheguei a ela, onde peguei a indicação, como me interessei por ela.

Nunca consegui escrever sobre o livro. Fiquei meses tentando esboçar um texto, mas nada que eu começava escrever traduzia a experiência da leitura. Até que um dia desisti e apenas a recomendei.

Tenho na biblioteca digital uma edição de “Nada a Dizer” há algum tempo, à espera de sua vez. Talvez tenha ficado com um certo temor de voltar a ler Vigna, depois do impacto causado por “Por Escrito”.

como-se-estivessemosMas a chegada de “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas” me fez criar coragem e tomar o livro em mãos.

As primeiras 60 páginas foram difíceis de serem ultrapassadas. Deixei o livro quieto, enquanto avançava por outros. Uns dois meses depois, voltei a ele. E o que se mostrava um obstáculo se transformou num leitura obsessiva e que terminou em dois dias.

Aqui, temos uma narradora sem nome, que conhece João por acaso no Rio de Janeiro. Ele vem de um recém-terminado casamento, ela tenta se recolocar na carreira como designer.

As histórias particulares acabam por criar uma relação entre os dois. Ela, que mora com uma prostituta e tem um transexual como vizinho. Ele é daqueles machos que viajam a trabalho e aproveitam o tempo livre para sair com garotas de programa. Sua vida se ergue em torno disso, dessas relações efêmeras e baseadas na traição.

A rua Augusta dos anos 80/90 domina a ambientação do livro e funciona como uma personagem fundamental no livro. É lá que João e seus amigos vão em busca das prostitutas, algumas com nome, outras que somem na rotina implacável do sexo pago.

João e seus amigos, casados, formam aquele grupo facilmente encontrável em qualquer lugar, do homem que conduz duas vidas, o alvo principal da crítica contida no livro de Vigna.

O ponto que tira João de sua trajetória é a relação com a narradora, por quem não desenvolve interesse sexual – e o livro dá dicas do motivo.

Os casos que João conta se repetem numa rotina incessante, sem criatividade, sem novidade, eles apenas existem. Dessas histórias sobram os rastros que vão se unir a outras.

Vigna tece seu romance com incompletudes que vão ganhando forma aos poucos. As histórias interrompidas de João surgem inteiras à medida que a narradora nos oferece mais detalhes da vida das personagens.

Então, num labirinto de fatos que se convergem aos poucos, o romance insere esse jogo de poder que os homens empurram para as mulheres. Mais do que ironizar o machismo, Vigna promove uma imersão ao universo masculino por meio de sua narradora, e arranca desse recurso um retrato pouco louvável dos homens, uma mistura de sarcasmo e ridicularização desse tipo de figura.

O que Elvira Vigna faz é simplesmente impor seu olhar sobre essa figura arquétipa com um vigor narrativo impressionante, em que as subtramas vão se completando ao longo do romance, sem pressa, mas com uma fluidez que deriva do domínio técnico. Combate a generalização – como a cena em que uma lésbica é sempre descrita como de cabelo curto e camisa de colarinho.

Mas como esse personagem masculino poderia agir? Vigna não promove uma redenção porque, basicamente, não há como João se redimir. Das relações promíscuas que ele mantinha enquanto estava casado à continuação de sua caça às putas do título, ele é o macho tradicional, esse sim que precisa ser generalizado para, somente então, ser descontruído.

Vigna não quer isso. Ela expõe, com magnificência.

“Como se Estivéssemos num Palimpsesto de Putas” é um dos grandes lançamentos do ano. E Elvira Vigna mostra a cada livro que sua prosa é essencial

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2 comentários em “Depois de “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, só resta ler mais Elvira Vigna”

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