Argélia, Comentário, Ficção

“O Caso Meursault” reconstrói a mitologia criada por Camus

o-caso-meursault“Hoje, mamãe ainda está viva.”

Assim começa “O Caso Meursault” (Biblioteca Azul), do argelino Kamel Daoud. Tanto o título como a primeira frase não deixam dúvidas sobre as referências do livro: Albert Camus e seu “O Estrangeiro”.

Aqui, não há contraponto imediato. O que o autor se propõe é contar a história do árabe morto por Meursault numa praia às 14h. Como o tradutor Bernardo Ajzenberg define, esta seria uma “continuação às avessas” do livro de Camus.

O livro escapa da tentativa de ser simplesmente uma espécie de outro lado da história, uma armadilha fácil e, talvez, compreensível. O que temos pela frente é uma discussão mais ampla sobre o que aconteceu não somente naquela praia, mas também como a relação império-colônia estabelecida entre França e Argélia moldou as gerações subsequentes.

Em um bar em Orã, Haroun conversa com um interlocutor (o leitor) sobre seu irmão assassinado, agora com nome (Moussa) e família, e não mais um desconhecido, cujo corpo nunca fora entregue à família.

Esse desvendar da história traz à tona como era a relação familiar e como a morte impactou a família. Mais do que isso, Haroun questiona o interlocutor sobre o livro – no caso, “O Estrangeiro” – que fez sucesso em cima de uma tragédia familiar, sem que o autor ou ninguém mais quisesse entender o que de fato aconteceu e quem era “aquele árabe” morto friamente.

Em meio a essa discussão, Daoud trata da Argélia do passado e de como o país caminhou rumo à independência e tenta sobreviver após. A história argelina surge por meio dessa dominação política e econômica e também pela tradição religiosa.

A narrativa lembra muito o que Mohsin Hamid fez em “O Fundamentalista Relutante” – e os dois alcançaram resultados memoráveis. Recomendo veementemente esses dois autores.

Daoud demonstrou coragem e ousadia ao escrever sobre uma obra consagrada de um autor idem – ou “o livro famoso”, como Haroun diz ao longo do texto. O escritor fala ora com Camus, ora com Meursault. Seu protagonista se opõe ao criado por Camus, assim como toda a atmosfera que rege os dois livros trafegam por ambientações opostas.

Haroun percorre a história de Moussa e revela como a família reagiu ao saber da morte e teve que seguir em frente, diante do crime e do corpo nunca devolvido. A relação com a mãe se torna turbulenta quando ela começa a procurar o substituto natural do filho morto.

Até que um fato vai mudar o rumo da família, no meio da guerra civil que culminaria na independência argelina, em 1962. Esse ato descortina toda a raiva e o sofrimento que a família do “árabe morto”, vítima de “um crime que não é esquecido”, sofreu.

O capítulo 7, especialmente, é uma obra-prima da literatura contemporânea. Em oito páginas, numa narrativa reflexiva, Haroun avalia sua condição pessoal e afetiva e a dominação política e reflete sobre sua mãe, a morte e a religião.

Este “O Caso Meursault”, mais do que fazer par a “O Estrangeiro”, ajuda a reescrever a história da literatura e reconstrói a mitologia que Camus criou. Sem reverência, com voz própria e original.

*****

“Portanto, a história desse crime não começa com a famosa frase ‘Hoje, mamãe morreu’, mas sim com aquilo que nunca ninguém ouvir, quer dizeer, o que o meu irmão Moussa disse à minha mãe antes de sair de casa naquele dia: ‘Voltarei hoje mais cedo do que o normal’.”

“O último dia da vida de um homem não existe. Fora dos livros que contam coisas, nenhuma salvação, apenas bolas de sabão a explodir. Eis o que comprova melhor do que qualquer outra coisa a nossa condição absurda, caro amigo: ninguém tem direito a um último dia, mas apenas a uma interrupção acidental da vida.”

“Há décadas eu vejo da minha varanda esse povo se matar, se reerguer, aguardar lentamente, hesitar entre os horários da sua própria partida, fazer movimentos de negação com a cabeça, falar sozinho, remexer nos bolsos em pânico como um viajante que, em dúvida, olha para o céu como se ele fosse um relógio para depois sucumbir a estranhas venerações para cavar um buraco e nele se deitar para encontrar seu Deus mais rapidamente. Foram tantas vezes, que hoje em dia eu vejo esse povo como um só homem com quem evito ter conversas muito longas e que mantenho a uma distância respeitosa.”

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