Brasil, Comentário, Ficção

Ricardo Lísias aprofunda crítica social em seu novo livro, “A Vista Particular”

a-vista-particularLi, em um post publicado no Facebook, que o novo livro de Ricardo Lísias, “A Vista Particular” (Alfaguara), seria engraçado, cômico, hilário – alguns dos adjetivos usados pelo autor do texto.

Não conheço o autor, mas de alguma forma seu texto apareceu na minha timeline. Estava para começar a leitura do livro, portanto, de alguma forma, me preparei para dar risadas – é a velha influência que insiste em surgir mesmo que contra a vontade. Aquele texto me parecia bem convincente.

Ao chegar ao final, a sensação foi outra, de uma comicidade amarga, daquelas que geram risos envergonhados. Talvez, em uma ou outra situação, o leitor possa rir como se em um filme de Woody Allen, um riso contido, pois não escandalosamente engraçado.

“A Vista Particular” é um livro curto, 128 páginas, formado de capítulos igualmente curtos. Daquelas leituras que um leitor mais entusiasmado consome numa boa noite.

A rapidez, por sua vez, não causa aquele esquecimento que uma leitura rápida pode provocar. Fica remoendo horas, dias depois – ainda mais estimulado pelo noticiário que insiste em encontrar amparo na trama de Lísias.

Sobre aquele amargor que citei no início, a sensação que resta é de ter que lidar com uma ficção que se projeta com tal intensidade sobre a realidade que fica difícil não pensar: isto pode acontecer. Por mais absurdo que seja – e Lísias consegue deixar essas questões em perspectiva, sem limitar possibilidades, ao forçar o leitor a enfrentar sua trama com armas ao chão.

José Arariboia é um artista plástico com relativo sucesso no Rio de Janeiro, com exposições de sucesso e provocador de burburinho no meio. Por algum motivo, ele resolve subir o morro Pavão-Pavãozinho e essa caminhada é filmada pelo líder do tráfico, Biribó.

Biribó que tem canal de sucesso no YouTube e transmite essa subida ao morro do artista do asfalto. Um fato vai transformar essa cena, a princípio simples e até entendiante, num acontecimento. Arariboia não fez uma subida qualquer.

O vídeo acaba por se transformar numa peça artística, e ambos, artista e traficante/artista, se unem para criar uma exposição que transforma o morro em obra de arte.

Torna-se um sucesso instantâneo, primeiro na internet e depois no local. Alastra-se pelo Brasil, com estadia em Inhotim, e mundo.

O livro se sustenta em três personagens – além dos dois já citados, a galerista Daniela Donatella, que se sente traída por Arariboia.

O escritor se insere nas aberturas dos capítulos, como um narrador em off de filmes, adiantando os fatos daquela etapa. Lísias fica então à vontade para usar seu narrador ao longo do texto, como condutor da crítica que sua ficção impõe à leitura.

O Rio de Janeiro é o foco, com o preconceito contra o morro, a violência policial, o tráfico e a espetacularização da miséria. Há espaço também para ironizar o mercado da arte e inserir críticas à forma como a Olimpíada do Rio foi preparada.

Lísias já havia derrubado com vigor os limites clássicos entre ficção e realidade na obra “Delegado Tobias”. Antes, embaralhara sem muitas amarras essa fronteira em “Divórcio” e “O Céu dos Suicidas”.

Essa experiência aparece sutilmente neste novo livro. Se na série “Delegado Tobias” a mistura se revelou perturbadora, pois levou a uma investigação real da Polícia Federal, com um experimentalismo da linguagem, aqui, neste “A Vista Particular”, leva a perturbação para o leitor digerir.

Se a linguagem é elemento crucial na obra de Lísias, o leitor tem diante de si um trabalho mais enxuto, com uma carga dramática concentrada em poucas páginas e que oferece uma leitura de si próprio.

Engraçado ou não, “A Vista Particular” faz da leitura um reflexo de quem o segura. Entre usar a realidade e exagerá-la nas suas invenções, Lísias optou por fazer isso e mais: uma profunda crítica na mais sutil prosa da sua bibliografia.

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Sinapses – Para ler mais Ricardo Lísias no blog

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2 thoughts on “Ricardo Lísias aprofunda crítica social em seu novo livro, “A Vista Particular””

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