Brasil, Entrevista, Música

“Meninos em Fúria”, o inventário de uma época fundadora

meninos-em-furia“Meninos em Fúria” (Alfaguara) é um livro que se divide em três. Como ponto de partida, é uma biografia de Clemente, membro essencial do movimento punk em São Paulo na virada dos anos 70 para os 80, vocalista dos Inocentes e que hoje toca também com o Plebe Rude.

É uma biografia do movimento punk no Brasil, principalmente em São Paulo. Capta o momento em que uma juventude inconformada com a repressão começou a se articular inspirada no que acontecia na Inglaterra, comportamento e música caminhando juntos. Movimento que se espalha pela cidade, com gangues, casas de shows, discos, cultura exalando de uma juventude ávida por criar e estabelecer novos espaços.

E é uma espécie de relato memorialístico de Marcelo Rubens Paiva, testemunha daquela época e um dos cronistas mais ativos da juventude que começava a ter voz naquele final de ditadura. Aqui, ele se encontra imediatamente após o acidente que o deixou tetraplégico, entre sua saída do hospital, o reencontro com a vida e a escrita de “Feliz Ano Velho” – os trechos neste “Meninos em Fúria” funcionam muito bem como um apêndice ao seu maior sucesso.

Marcelo e Clemente assinam o livro, daqueles já fundamentais para entender o que estava acontecendo em São Paulo em 1982, o ano principal do punk, quando aconteceu o festival O Começo do Fim do Mundo, que virou disco e lançou bandas como Cólera e Olho Seco.

É um instantâneo tão carinhoso quanto revelador, pois traz de volta fatos já enterrados na passagem do tempo. Marcelo Rubens Paiva faz um inventário precioso do período, que viu a música ser determinante para a formação de muita gente, por meio das bandas novas e seus discos ou das casas de shows que fizeram história – Carbono 14, Madame Satã, Napalm.

Era uma São Paulo viva, rica, inconformada.

O livro alterna essas três faces e suas vozes. Os narradores acompanham os fatos – ora lemos Clemente, ora Marcelo Rubens Paiva. A prosa encharcada de memórias vai encantar quem morava em São Paulo na época e vivia ou lia sobre tudo aquilo – caso deste blogueiro.

“Meninos em Fúria” é daqueles livros que precisam existir, que precisam de continuação, que deveriam inspirar outros que tratem de captar momentos semelhantes, que não deixem esses capítulos da história morrerem.

O blog conversou com Clemente, que falou não só do livro, mas também da situação política atual e do movimento punk.

Clemente e Marcelo Rubens Paiva | Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Clemente e Marcelo Rubens Paiva | Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Como surgiu a dinâmica do livro? O texto intercala seus depoimentos com a prosa em primeira pessoa do Marcelo Rubens Paiva. Em alguns momentos, vocês estão conversando. Como foi definir essa estrutura?
Cara, na verdade a gente não definiu antes que seria assim, foi saindo. Falei para ele se poderiam entrar uns textos meus e ele curtiu. Quando li a introdução do livro, vi que ele havia se inserido na história e aí começou a rolar assim. Mais para frente, a gente estava conversando, eu gostei muito da estrutura, pois é bem diferente de biografias tradicionais e acabou virando uma biografia dupla.

O livro fala da sua passagem de punk e membro de uma banda para um homem casado e que tem que cuidar da filha. Como foi olhar para esse passado? Como você avalia aquele momento?
Sempre existe um momento para olhar para o passado, quando se pode olhar e analisá-lo mais friamente com um certo distanciamento. Se ele ainda lhe traz emoções muito fortes, isso vai influenciar sua análise, ela vai ser muito mais passional, e eu estou nesse momento mais distante. Adorei rever o passado, é a minha história e gosto da minha trajetória e do que estou fazendo hoje. Alguns amigos viraram gordos gerentes de banco, e tem os que estão a sete palmos embaixo da terra, não conseguiram se livrar das drogas e das brigas, alguns poucos continuam tocando. Nesse quesito, estou bem, tocando com o Inocentes, Plebe Rude e lançando um disco solo. E minha filha se casou, vai fazer 29 anos.

Essa mudança se refletiu na sua música, nas suas letras? Como?
A evolução sempre reflete no que estou escrevendo, é só acompanhar os discos do Inocentes. Se isso não acontece, você tem algum tipo de problema, não é? São 35 anos só de Inocentes, eu toco há quase 40 anos, se eu escrevesse e tocasse exatamente do mesmo jeito eu iria ser um mágico. Sua música reflete o momento em que você vive e isso não quer dizer que reflete sua vida pessoal, mas sua vida pessoal muda sua percepção do mundo. Eu era mais “romântico”, hoje, sou mais cético. Eu vivia no cerne do movimento punk de 1982, hoje isso tudo não existe mais. Passamos pela Warner, as pessoas parecem se esquecer da minha trajetória, ela foi muito além do que só o punk.

O livro vai até o início dos anos 90, mas deixa de lado a revista Bizz, um veículo fundamental para a música, principalmente nos anos 80. Por que a Bizz é tão pouco citada?
Porque ela não se reflete na nossa história. Apareci e contribuí tão pouco com a Bizz. Como estamos falando da gente, não temos o que falar da Bizz

Há espaço hoje para novos meninos em fúria? Faz sentido atualmente?
Sempre há espaço para novos garotos raivosos. se faz sentido ou não é a história que vai nos dizer lá na frente. Fizemos o que fizemos apenas pela urgência e a necessidade de fazer. A história revelou que estávamos certos.

Mais do que falar da música, o livro trata de uma geração e de como ela reagiu ao contexto brasileiro. O comportamento, as letras, isso tudo se soma ao gênero musical, mas dizem respeito à postura de uma geração. O que existe hoje daquela geração, não só nas bandas, mas no comportamento da geração do século 21? O que existe de punk hoje nesta geração?
Uma geração influente sempre deixa seus resquícios por muito tempo. A internet foi inventada por punks e se baseou na liberdade e no faça você mesmo do punk. Acho que é uma boa marca daquela geração que ecoa por aí.

Lembro de uma outra coletânea lançada depois do Grito Suburbano, a Ataque Sonoro. O Inocentes não participou do disco. Por quê? E o que acha do disco?
O Inocentes não participou porque o disco estava lançando bandas novas, essa é a função da coletânea, e a gente estava na Warner naquela época. O Redson (Cólera) produziu o volume 1 e eu produzi a Contra-Ataque, que seria o volume 2.

Você acompanha o punk hoje no Brasil? Destaca alguma banda?
Quando posso sim. O Blind Pigs é uma boa banda, o Flicts também.

No fim do livro, você demonstra uma certa desilusão com os rumos do Brasil. Como avalia o que está acontecendo?
É um momento delicado em que a mídia e o Judiciário estão sendo usados para sustentar um golpe. É perigoso, pois a grande massa não avalia a situação por si própria, ela vai para onde a mídia empurra e essa luta pelo poder pode gerar uma situação catastrófica para o país.

Sente falta de uma reação por parte da música, como aconteceu nos anos 80, com letras políticas, mais críticas?
A música tem que ser espontânea e não falávamos só de política, era comportamento, éramos mais sociais que políticos, a gente vivia aquilo. Não adianta um cara que nunca teve esse tipo de postura do nada começar a falar de política. Algumas bandas até tentaram e ficou muito ruim. Acho que o mais importante é a postura e não a música, ela é consequência.

Por que acha que não há uma postura mais crítica por parte das bandas, em suas letras e composições, à situação que o país vive desde 2013, quando surgiram os protestos nas ruas?
Mas você acredita que aqueles protestos nas ruas foram autênticos? E ganharam a dimensão que tiveram sem manipulação nenhuma? Hoje, o Movimento Passe Livre sai na rua e não atrai nem uma mosca. É por isso que eu acho que as pessoas têm que ter mais cuidado e não embarcar em qualquer uma. Na internet, circula informação demais, você tem que saber avaliar e analisar por conta própria, ninguém se aprofunda em nenhum assunto e isso é muito mais perigoso, é fácil de manipular. Cadê os Black Blocs, foram para Nárnia?

É possível imaginar, ainda que num exercício hipotético, o que aqueles punks dos 80 fariam hoje, diante da cena política?
Não faço a menor ideia, cada época tem seu contexto, cada um tem que viver o seu.

*****

“Em 1981, os punks de São Paulo já lotavam shows no subúrbio, organizavam festivais: Restos do Nada, a primeira banda punk do Brasil, se dividiu em Condutores de Cadáver, que deu no Inocentes. Com Cólera, Ratos de Porão, Lixomania, tocavam em shows nas zonas norte, leste e sul. No ABC dos parques industriais e montadoras de carros surgia um punk oriundo do movimento operário. Em Brasília, Aborto Elétrico se dividia em Capital Inicial e Legião Urbana. Paralamas já existiam. O Ira! também. Os Titãs se formavam. Trocaram de bateria com o Ira!. Leo Jaime indicava um franzino Cazuza à banda stoniana Barão Vermelho. Em 1982, uma passeata de artistas seguiu pela praia do Rio para uma lona de circo armada no Arpoador, liderados por Fortuna, do “Trate-me Leão”, fundando o Circo Voador. Em São Paulo, o Carbono 14 nascia no Bixiga. Depois, a boate Napalm, ao lado do Minhocão. E os caras cantando “foi Deus quem fez você…” De fudê!”

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