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Notas de Leitura – Sobre futebol, comida e praia

tempos-vividos“Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos” (Companhia das Letras), de Tostão
Saudado como um dos bons cronistas do jornalismo esportivo, Tostão tem como grande mérito escapar do clubismo, do papo de boleiro e das estatísticas excessivas. Sua análise é mais emotiva, sem deixar de lado a técnica, por conta do seu texto, recheado de referências que ultrapassam o repertório do esporte. Seu novo livro é um misto de memórias e análise da evolução do futebol desde meados do século passado. Toma como linha mestra sua carreira, e por meio dela escreve sobre como o futebol se modificou ao longo dos anos. Mas o maior mérito do livro é a inserção de suas memórias, das relações com outros jogadores e da vivência na seleção. Saltam do livro boas histórias do time que foi campeão do mundo de 1970 e observações agudas sobre como o esporte se atualizou fora de campo – a descrição em um parágrafo sobre Vanderlei Luxemburgo é brilhante e dá uma pequena medida de como seria um Tostão repórter. O texto é rápido, muitíssimo bem escrito e inteligente. Um espelho do Tostão jogador.

historias-da-mesa“Histórias da Mesa” (Estação Liberdade), de Massimo Montanari
Dos grandes lançamentos do ano, este livro merece ser lido e relido. Escrita pelo professor de história medieval da Universidade de Bolonha, a obra une crônicas dos séculos 9 a 16 e personagens ficcionais à história da alimentação. Temos personagens reais, como reis e papas, sentados à mesa para descobrir como a comida foi se moldando ao longo dos tempos – como no caso de Carlos Magno, que descobre por acaso a melhor parte de um queijo. Por meio de documentos e escritos de cronistas medievais, livros de cozinha e romances de cavalaria, o autor conta como a mesa foi fundamental para a vida na época, seja nas relações entre reinos ou familiares. Então, temos casos que mostram como parte da Itália teve que improvisar com terra para fazer pão numa época de escassez de alimentos. Ou como um casamento foi suspenso porque a lei impedia a mistura de carne e peixe na mesma refeição. A descrição dos pratos é um deleite – há jantares com mais de 150 pratos, divididos em oito serviços, todos eles completos. Montanari deixa a narração desenvolta, sem apelar para o academicismo. Lê-se como uma crônica de costumes.

a-vida-descalco“A Vida Descalço” (Cosac Naify), de Alan Pauls

“A praia – como o mar, como a estepe para os nômades segundo Toynbee – é o espaço hipercondutor por excelência, e, portanto, o tipo de território ideal para que o desejo, força nunca conforme, sempre distraída, desdobre toda sua mobilidade e descreva suas trajetórias mais caprichosas.”

Esse trecho que surge na página 49 resume o ensaio do escritor argentino. Trata da praia, mas não somente. Por meio de textos que resvelam no tom memorialístico, Alan Pauls faz uma viagem à sua infância e adolescência, às praias argentinas e uruguaias, balneários que povoam o imaginário de crianças durante o verão. Ele discorre sobre a transformação que ocorre na vida de quem frequenta esses lugares na estação quente, diante de corpos seminus – algo inalcançável para os jovens – e da mudança de comportamento de todos que estão com os tais pés descalços. A praia é a desculpa para Pauls falar de como a orla povoa o imaginário e provoca sensações que fogem do cotidiano. Tudo lá, naquele momento, é lúdico, instigante, o que faz a ponte perfeita para uma discussão que envolve consumismo, política e inserções culturais, de filmes de François Ozon e Eric Rohmer e livros de Proust. O sexo percorre todo o livro, como elemento essencial do ambiente e da época do ano. O livro é daquelas leituras que puxam o leitor para o ambiente retratado, que buscam na memória os verões nas praias e enxergam certa semelhança no que Pauls escreve com o que provavelmente também viveu. É um ensaio extremamente bem escrito, com longos períodos, todos bem encadeados, num jogo de vírgulas que sugere uma tarde ininterrupta sentado numa cadeira de praia. É da Cosac, então, corre, pois sabe-se lá se os livros continuarão à venda depois da virada do ano ou vão virar cinzas no fundo de um forno.

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