Comentário, Estados Unidos, Não ficção

Gay Talese transforma o leitor em um voyeur em seu novo livro

o-voyeurÉ possível dizer que este “O Voyeur” teve dois lançamentos. O primeiro: quando foi anunciado como novo livro de Gay Talese, um dos jornalistas fundadores do gênero jornalismo literário, autor de obras fundamentais como “Fama e Anonimato” e “O Reino e o Poder” (todos os livros da Companhia das Letras).

A história é empolgante. Talese escreveu sobre um homem que durante anos espiou quartos de um motel para saber como as pessoas se comportavam sexualmente e saciar seu desejo. Gerald Foos era dono de um motel de beira de estrada, desses tão comuns no cenário norte-americano, e quis mergulhar na observação das ações humanas de um ponto privilegiado.

Criou um mecanismo aparentemente seguro para observar do teto dos quartos o que era feito lá dentro. E, obsessivamente, anotou tudo, em centenas de cadernos, cada ato descrito detalhadamente. Era uma espécie de Relatório Kinsey informal e sem critério, baseado apenas na disciplina e no desejo.

Viu de tudo. Acompanhou as mudanças de comportamento que surgiam nos turbulentos anos 60 e 70, até se consolidarem nos 80. Casais interraciais, homossexuais, swings e até práticas menos ortodoxas.

Como brinde, teve que assistir à monotonia da vida humana, o não fazer presente em quartos de motel. Nesses momentos, se deparou com os dramas próprios da vida, discussões amorosas, adúlteros e seus casos e famílias se despedaçando. Foos sabia antecipadamente o que a vida reservava para essas pessoas.

Três partes
Talese conta a história desse sujeito e de sua obsessão. Ele nos apresenta Foos, relata a aproximação dos dois, o que o motivou a escrever o livro – o dono do motel começou a enviar aos poucos a coleção de cadernos, o que ajudou a acender o desejo de Talese pela história. Essa é a primeira parte do livro.

A segunda é uma escolha que pode parecer desnecessária, mas que ganha força ao final do livro. Talese reproduz páginas e páginas dos diários de Foos, com os relatos do voyeur sobre o que viu. O texto de Talese praticamente inexiste nessa etapa, o que causa um pouco de frustração, apesar da boa prosa de Foos.

O leitor então vai se aproximando de ser ele próprio um voyeur. Enquanto lemos as descrições de cenas feitas por Foos, estamos diante da posição de Talese, somos os olhos de Talese também, sem interferência, à mercê do que Foos escreve.

Inteligentemente conduzida, essa parte é daquelas jogadas que somente um jornalista como Talese teria condições de imprimir. Abre mão da sua matéria-prima, a palavra, para dar vazão ao elemento principal do seu objeto de estudo, os diários de Foos, fazendo com que o leitor divida com ele, o autor, as dúvidas, os impulsos e desejos.

Na terceira parte, Talese volta a assumir o controle do texto. Etapa que questiona tudo o que foi dito antes. E que provocou o segundo lançamento de “O Voyeur”.

Duas das cenas presenciadas por Foos acabaram em morte. Talese, então, começa a desconfiar dos fatos quando não encontra registro policiais de um dos casos.

Essa desconfiança ganhou corpo quando o jornal “The Washington Post” publicou que alguns dos fatos narrados por Foos não encontram base na realidade.

São fatos que colocaram em xeque a credibilidade da fonte e levou Talese a abandonar a promoção do livro.

Ao final, essa dúvida sobre a fonte e sua credibilidade não reduz o impacto da proposta de Talese. Na ficha de catalogação, o livro está listado em sociologia. Deveria ser considerado uma peça de ficção?

Se Foos mentiu em parte ou totalmente, já não importa mais.

O que ele faz é levar o leitor a ser parte da obra. Se Foos mentiu ou não, passa a ser secundário a partir do momento em que o voyeur se desdobrou em vários. O gênero de não ficção talvez tenha encontrado um título que o defina com mais veemência do que “A Sangue Frio”, de Truman Capote.

O jornalista Gay Talese em sua casa | Foto: Darryl Estrine
O jornalista Gay Talese em sua casa | Foto: Darryl Estrine

Mais sobre Talese

Como vem sendo uma prática recente da editora, a edição deixa a desejar. Nos lançamentos anteriores da coleção Jornalismo Literário, o texto principal trazia sempre um suporte, um prefácio ou posfácio que ajudava a contextualizar autor e obra.

Além de estar mais preguiçosa, como relatei neste post, a coleção parece não se importar mais com essa construção. Não há nada que contextualize o livro, nem uma referência sobre os questionamentos levantados pelo “Washington Post”. Nem sobre a atualidade da obra de Talese, por exemplo.

Há, sim, uma boa entrevista que o autor deu para a revista “Paris Review” em 2009. E só. É pouco, muito pouco.

Pois a saída é ir aos livros anteriores de Talese. Este “O Voyeur” pode ser lido como um desdobramento de seu “A Mulher do Próximo”, estupendo livro reportagem sobre o comportamento sexual dos americanos nos anos 70, uma obra-prima do jornalismo.

*****

“Embora eu presumisse que seu relato se concentrava no que lhe deixava excitado sexualmente, também era possível que ele observasse e anotasse coisas que existiaam para além de seus desejos antecipados, ou que se acrescentassm a eles. Um voyeur é motivado pela expectativa: ele investe horas intermináveis na esperança de ver o que espera ver. E, contudo, para cada episódio erótico que testemunha, pode ficar a par de milhares de momentos mundanos e, às vezes, estupendamente entediantes da rotina humana de pessoas que defecam, zapeiam na frente da televisão, roncam, se embonecam na frente de um espelho e fazem outras coisas excessiva e tediosamente reais para a realidade que vemos hoje pela televisão. Ninguém recebe menos por hora do que um voyeur.”

Anúncios

2 thoughts on “Gay Talese transforma o leitor em um voyeur em seu novo livro”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s